007: A distribuição não é eterna | Judão

James Bond pode ir pra Warner, sim — e essa mudança de mão não é nenhuma novidade para a história conturbada do personagem nos bastidores

Seu nome é Bond, James Bond. Isso todo mundo sabe. O que as pessoas não sabem é quem irá distribuir os próximos filmes do personagem, já que o contrato entre a Metro-Goldwyn-Mayer e a Sony Pictures acabou com o lançamento de 007 Contra SPECTRE — e, como você viu aqui no JUDÃO, Warner e Paramount querem contar com o 007 em suas fileiras, além da própria Sony que tem interesse em mantê-lo.

E sim, essa história de vários estúdios querendo fazer um acordo com um OUTRO estúdio pra lançar um filme de uma franquia soa bem estranho. Culpa do próprio retrospecto confuso do Mr. Bond e dos HOMÉRICOS rolos jurídicos da MGM. Pra você ter uma ideia, a Warner Bros. JÁ tem um filme do agente secreto pra chamar de seu — e ele não é considerado oficial.

Como você também leu aqui no JUDÃO , os direitos de James Bond nos cinemas são, na realidade, da Eon Productions, empresa que, lá no começo dos anos 1960, fez um acordo com Ian Fleming pra ter o agente secreto. Naquela época, a Eon fechou com a United Artists – fundada 50 anos antes por Mary Pickford, Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks e D.W. Grffith – pra cuidar da distribuição.

Já nos anos 1970, Harry Saltzman, um dos sócios da Danjaq, controladora da Eon, vendeu sua parte da brincadeira pra UA, que passou a ser co-dona da franquia. Ainda assim o outro sócio, Albert R. Broccoli, continuou a controlar a empresa até morrer, em 1996. Hoje quem cuida de tudo é a filha de Albert, Barbara Broccoli. Um negócio de família, digamos assim.

No começo dos anos 1980 a UA foi comprada pela Tracinda Corp, que já tinha a MGM. Os dois estúdios então se tornaram uma coisa só – inicialmente como MGM/UA, depois apenas como MGM, com a United Arts funcionando como uma divisão. E o novo grupo, claro, herdou aquela parte da Danjaq, continuando a distribuir os filmes do Bond.

Só que a MGM foi pra merda. O estúdio passou por uma série de fusões e aquisições que deram errado, além de filmes que também deram errado. Pra fazer caixa, venderam os estúdios que tinham em Culver City e que, em grande parte, foram parar nas mãos da Columbia Pictures, da Sony. Até mesmo a rica biblioteca de filmes antigos dos caras pré-1982 foi pra Turner após uma dessas fusões que não deu certo, e virou a base pro lançamento do canal pago TNT. Entre as raras exceções a esse acordo estava 007, claro – afinal havia justamente a Eon na jogada.

Bond

Nos anos 90, a MGM era uma sombra do que já tinha sido. Eles tentaram se aliar a Universal, DreamWorks e Paramount para distribuir seus filmes internacionalmente pela United International Pictures, mas a União Europeia achou que aquilo era um cartel e proibiu. Sobrou então uma parceria com a Fox, pela qual alguns filmes do Bond foram lançados no resto do mundo, inclusive no Brasil.

Nessa mesma época a MGM tentou peitar a Sony, produzindo um filme do Homem-Aranha a partir de um roteiro e de uma pré-produção do James Cameron comprados na BACIA DAS ALMAS, mas não rolou – inclusive porque a Sony ameaçou lançar seu próprio Bond, uma história que também já relatada aqui no JUDÃO.

E foi nessa merda sem fim que a MGM entrou nos anos 2000 – inclusive abandonando de vez a parte de distribuição. Enfraquecida, começou a rolar nos bastidores um verdadeiro leilão pra ver quem comprava a empresa. No final, a Sony (num consórcio com a Comcast) venceu a Time Warner e ficou com o controle do estúdio de Leo The Lion. Só que quem disse que a vida seria fácil? Poucos meses depois, a Sony foi perdendo controle da MGM, que, aos poucos, foi desfazendo os acordos originados pela compra, deixando o grupo japonês apenas com o poder de decisão que seus 20% do estúdio garantiam.

Pra você ter uma ideia, quem distribui os filmes da METRO no home video é a Fox, e não o grupo japonês. :)

Ao menos tudo isso tornou possível finalmente ter uma adaptação digna de Cassino Royale, o primeiro livro do Bond, nos cinemas. A Sony tinha há alguns anos os direitos de adaptação dessa história, uma das duas únicas que não estavam com a Eon.

A METRO até tentou voltar a distribuir filmes para os cinemas dos EUA, mas não deu certo. Em 2010 eles declararam a BANCARROTA, aka “recuperação judicial”. Dessa forma, depois que o acordo original pra distribuição de dois filmes do James Bond pela Sony (Cassino Royale e Quantum of Solace) acabou, eles abriram mais uma ~concorrência pra ver quem distribuiria os filmes seguintes (que viriam a ser Skyfall e SPECTRE). Paramount, Warner, Fox e Sony entraram na brincadeira, com o antigo parceiro continuando na jogada, num acordo costurado pela então presidente Amy Pascal.

Acordo esse que, no final das contas, dá menos dinheiro pra Sony do que pra Eon e a Danjaq.

O Bond da WB

O Bond da WB

E, agora, chegamos no momento de se fechar um novo acordo de distribuição, que não só servirá para o James Bond, mas também para todos os filmes da MGM. Como já vimos, a Warner é favorita, principalmente pelo sucesso da parceria pra produzir e lançar O Hobbit e que está tendo um repeteco agora com Creed: Nascido Para Lutar.

O curioso nessa história toda é que é justamente a Warner Bros. que tem os direitos de distribuição do único grande filme do James Bond que não foi produzido pela Eon, 007 – Nunca Mais uma Vez, de 1983 — resultado daquele rolo sobre quem era dono da SPECTRE e do enredo do livro Thunderball.

Uma futura parceria entre Warner Bros., MGM e Eon, caso envolva home video, poderia tornar possível finalmente ver um box não só com os 24 filmes da série oficial, como também adicionando esse aí, que resgatou Sean Connery para o papel por uma última vez. Será?

Sonhar, caro colecionador, não custa nada...