1993: quando os dinossauros dominavam a Terra | JUDAO.com.br

Os 25 anos do filme que talvez seja o maior dos exemplos de como envelhecer perfeitamente – o que tem menos a ver com dinossauros do que você pensa

Tem aquela fase da criança na qual ela é apaixonada por dinossauros. Acontece sempre.

Para uma geração bastante específica de crianças, essa fase foi catapultada ao mesmo tempo em que ancorada por uma remodelagem da cultura popular, tudo nas mãos do cara que já tinha feito isso uns 20 anos antes. Em 1975, Steven Spielberg não só inventou o Blockbuster cinematográfico como o conhecemos como fez o mundo inteiro ter medo do mar.

Em 1993, Spielberg reinventou o blockbuster, e fez com que o mundo inteiro tivesse medo de monstros novamente. Dinossauros voltaram a ser assunto, voltaram a ser frissom.

Jurassic Park – Parque dos Dinossauros é um filme de MONSTRO, onde cientistas com as melhores (por mais que descerebradamente capitalistas) intenções criam desastres terríveis e violentos, e heróis precisam sobreviver a uma ilha cheia de lagartos-aves com dezenas de milhões de anos de instintos reprimidos, finalmente soltos e famintos.

Recentemente o JUDAO.com.br esteve presente numa projeção do Jurassic Park original, no Museu de Imagem e Som em São Paulo, para celebrar os 25 anos do filme, e esse tipo de coisa mexe com as memórias.

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Na época, quando todos nós assistimos ao filme no cinema (ou você, jovem INTERNAUTA, que viu numa reprise, num DVD ou no seu computador), o que levamos para casa de maneira inesquecível foi aquele braquiossauro. Aquele T-Rex saindo da cerca. Claro, a computação gráfica ainda segura muito firme (especialmente quando projetada numa tela de cinema), mas agora, depois de mais de uma década estudando cinema, é mais fácil perceber que não é a maestria do CGI a responsável por manter aquelas cenas na nossa mente. Não, também não são os olhos azuis gigantes do Sam Neil, olhando para algo que não deveria estar lá.

É o ritmo e a montagem cuidadosa, o dispensar de elementos das cenas que vão criando suspense para nos dar pequenas catarses em forma de um CGI ainda rústico, mas muito bem aproveitado. Sentei-me ao lado de uma moça que nunca tinha assistido ao filme na vida, e ver como eram as reações a elementos sem nenhuma computação gráfica traz não só alegria, mas esperança para o mundo do cinema. Sua reação mais forte no filme todo foi à perna da cabra. E é claro, ao maior susto do filme, a apresentação do velociraptor.

De maneira que o que torna Jurassic Park eterno passa um tanto longe de seus efeitos especiais.

Com o distanciamento de ter visto o filme dezenas de vezes, dá para prestar atenção em diversos aspectos. Por exemplo, na discussão bastante arrojada, embora não muito elaborada, sobre bioética contida no filme. Lembro-me que, quando criança, eu queria pular a cena do almoço, e conforme fui ficando mais velho, era a cena que mais me interessava. Os pontos de vista de cada personagem não só nunca deixaram de ser relevantes, mas tornam o filme mais do que um mero pipocão. Colocam certos questionamentos filosóficos na cabeça de quem estava ali somente pelos dinossauros, e que Deus Salve Spielberg por elevar o entretenimento dessa forma.

Além de, é claro, construir personagens que, mesmo tendo diálogos que não podem sobrepor os astros escamosos do filme, brilham. Laura Dern estava colocando feminismo no centro da cultura pop muito antes de qualquer coisa que estamos vendo hoje, especialmente com a mais gloriosa de suas citações, “as mulheres herdam a terra”. Chamar o grande vilão de Seinfeld para ser um alívio cômico e o vetor do desastre é só parte do toque de mestre em termos de escalação do qual Spielberg é capaz.

Assim como em Contatos Imediatos de Terceiro Grau, escalou outro grande diretor de cinema para um papel icônico chamando Sir Richard Attenborough para ser John Hammond. E é claro, Jurassic Park talvez seja um dos filmes que sacramentou a lei de que se você colocar Jeff Goldblum em qualquer coisa, qualquer coisa melhora 1000%.

E pensar que quase tivemos uma versão do filme sem ele...

Mas é o neozeolandês Sam Neil quem carrega um filme que ninguém pagou ingresso para vê-lo atuar. Spielberg sabe melhor do que ninguém que não existe Contatos Imediatos sem Roy Neary e não existe Tubarão sem o Chief Brody. Novamente temos um homem simples jogado numa situação maior do que ele, que sairá dela reafirmando seus valores, mas aprendendo algo importante sobre o maior dos temas da macro-narrativa de Spielberg, que é a necessidade da família. Neste caso, algo mais aplicado à recontextualização da própria visão que o Dr. Grant tem dessa ideia estranha que é “se reproduzir”: a vida encontra um caminho.

E reassistindo, você começa a notar que um cara “só pipocão” como o Spielberg é mais subversivo em sua linguagem do que muita gente acha. Num filme onde dinossauros “somente fêmeas” conseguem achar um meio de se reproduzir, logo ao chegar na Ilha Nublar, o Dr. Grant tem um pequeno problema com seu cinto de segurança: ele tem duas pontas de cinto “fêmeas”. E ele “encontra um caminho”.

Ou você pode notar a simbologia visual com a qual Spielberg monta o duelo filosófico entre a figura de um poderoso e rico criador de vida, um bom velhinho que se veste de branco, que no entanto é obcecado por controle, e não percebe que está tentando controlar algo que é incontrolável, versus um teorista do caos sensual, que aceitou que todo controle é virtual, que tentar controlar algo incontrolável é ridículo, uma falta de humildade tremenda. E ele se veste de preto o tempo todo.

Os dinossauros são fantásticos. Das animações em CGI aos Stop Motions, aos atores nas roupas de Velociraptors passando pelos robôs. Mas note como aquilo que tornou Jurassic Park verdadeiramente eterno foi muito mais do que isso. Foi todo o caldo onde os pontos mais populares estavam boiando, mas um caldo tão nutritivo e inseparável que se tornou parte do cânone da cultura cinematográfica.

Nas mãos de um cineasta menor, Jurassic Park talvez fosse só uma revolução dos efeitos especiais. Mas Spielberg jamais estaria satisfeito. Então, ao assistir uma projeção do filme numa sala cheia de gente (mais) jovem, que viu cada ponto daquilo com mistério e tensão, bem no meio da explosão da era Marvel, numa época onde estão “ressuscitando” gente com computação gráfica, a gente percebe. Não envelheceu só bem. Envelheceu com perfeição. E um pedaço disso se deve aos efeitos-especiais. Mas só um pedaço.

Jurassic Park veio ao mundo no mesmo ano em que Spielberg também trouxe A Lista de Schindler, e o fato dele conseguir revolucionar o cinema de entretenimento ao mesmo tempo que revolucionava sua própria história pessoal, ao resolver seus demônios internos para falar do Holocausto, mostra que talvez estejamos falando do maior contador de histórias de nossas épocas. Alguém que sempre está cercado de monstros e de humanidade. Spielberg sabe o que são monstros, e sabe que não adianta falar de monstros se não falarmos de humanidade. Aliás, não adianta fazer cinema sem falar de humanidade. Arte é isso aí, é um caldeirão onde jogamos muita coisa, e é surpreendente o quanto tem de pessoas que se assustam quando ao olhar pra dentro do caldeirão, enxergam um espelho.

Que mundo era o mundo de 65 milhões de anos atrás? Que mundo era o mundo de 25 anos atrás? O que mudou, o que permaneceu o mesmo? Nossos deveres e nossas responsabilidades para um com o outro, para com o planeta, para com a ciência, para com nossas passadas largas em direção ao futuro nos trazem o que?

Haverá um dia em que vamos olhar para o passado e pensar nele como a época quando os cineastas dominavam a Terra?