20 anos de Anaconda, clássico dos bons filmes ruins | Judão

Muito antes de ser J-Lo, Jennifer Lopez visitou a floresta amazônica como protagonista de um terror involuntariamente divertido sobre uma cobra gigantesca

“É como se o Alien tivesse sido dirigido pelo Jim Henson, criador dos Muppets”. A citação, parte de uma crítica pouco elogiosa do jornal Washington Post para o filme Anaconda, de 1997, tinha obviamente a intenção de sacanear, de reforçar o grau de ruindade da parada.

Mas, sob certo ponto de vista, é preciso dizer que ela até dá até um pouco mais vontade de assistir. Isso porque a produção estrelada pela cobra gigantesca com predileção por carne humana, que completa duas décadas de seu lançamento esta semana é um dos ilustres exemplares do gênero “tão ruim que até fica bom”.

Ou quase isso.

O diretor do filme, o peruano Luis Llosa (primo do cultuado escritor Mario Vargas Llosa), começou sua carreira como crítico de cinema e tá mais do que acostumado, sabe bem qualé. Só que, embora seu ponto alto enquanto cineasta tenha sido O Ditador (2005), adaptação de A Festa do Bode, livro do parente famoso, não dá pra esquecer que Anaconda, com seus “modestos” US$ 45 milhões de orçamento, arrecadou mais de US$ 136 milhões em todo o mundo. Estamos falando, portanto, de um filme B com toda a pinta (e grana pra gastar) de blockbuster.

“Nenhum animal foi maltratado durante as filmagens, embora as carreiras de alguns humanos tenham sofrido um bocado”, brinca novamente o texto do Washington Post. Pois se tem alguém que, definitivamente, não pode reclamar dos rumos da carreira pós-Anaconda é a protagonista da parada, uma tal Jennifer Lopez.

Lembremos que ela, famosa junto ao público latino depois de interpretar a diva mexicana Selena, explodiu de verdade para o mercado internacional – e mesmo dentro do mundinho branco dos EUA – graças à bilheteria poderosa da luta de sua Terri Flores contra o réptil monstruoso. E pensar que ela foi a TERCEIRA escolha para o papel, depois que Gillian Anderson e Julianna Margulies recusaram, por conflitos de agenda respectivamente com Arquivo X e ER. Ah, mundinho que dá voltas...

“Um filme de criaturas lúcido, assustador, engraçado, com uma bela fotografia e atuações esplêndidas no melhor estilo da alta aventura” (Chicago Sun-Times)

A história começa quando sua personagem, diretora de um documentário a respeito da tribo perdida dos Shirishamas, embarca para a Amazônia querendo descobrir mais sobre este mito indígena. Seu time é formado por caras como o câmera Danny Rich (Ice Cube), o engenheiro de som Gary Dixon (Owen Wilson, que nem deve se lembrar que fez isso um dia), o antropólogo Steven Cale (Eric Stoltz, presente em dez entre dez filmes ruins da história), entre outros.

Mas o destino deles muda quando a tripulação, que desce pelo Rio Amazonas, cruza o caminho do ex-padre paraguaio Paul Serone (Jon Voight). Verdadeiro vilão do filme, ele é na verdade um caçador de serpentes que força a equipe de Terri a ajudá-lo a encontrar a lendária Anaconda, pela qual existe uma recompensa milionária. Mas o foda é que o bichão não tá muito no barato de ser capturado, seja vivo ou morto. E resolve contra-atacar.

Embora parte das cenas tenha sido realizada no Arboretum, uma espécie de Jardim Botânico na cidade de Los Angeles, um pedaço enorme foi rodado ao longo de algumas semanas de 1996 lá no Rio Negro, maior afluente da margem esquerda do rio Amazonas. Parte do elenco americano estava desesperado por estar ali, em meio à natureza, com medo dos mosquitos e principalmente das cobras brasileiras reais.

Mas eles deveriam, talvez, ter medo é do animatronic da Anaconda, que deu pau no meio das filmagens e saiu de controle, pulando pra lá e pra cá. No fim, toma que os caras foram obrigados a usar um bocado de tomadas do animal em CGI, que custou a ligeira bagatela de US$ 100 mil POR SEGUNDO... e nem é lá tão convincente assim.

Anaconda acabou se tornando um filme B por excelência até nos mais singelos detalhes – como as regravações de áudio feitas para “suavizar” a linguagem e conseguir uma classificação PG-13. Os “fucking” acabaram sendo substituídos posteriormente por “freaking”, mas se você tem um ouvido apurado, vai sacar claramente os momentos em que isso acontece. Pra completar, como num filme de kung fu dos anos 70, existem sequências em que os lábios dos atores não batem com o que está sendo dito, numa espécie de dublagem BEM ruim.

O resultado? Bilheteria monstro, claro, mas com direito a seis indicações ao Framboesa de Ouro em 1998, quando a premiação ainda era minimamente divertida, incluindo “pior nova estrela” para a própria Anaconda (!).

“Uma cópia boba e arrastada de Tubarão” (Variety)

De alguma forma, alguém inventaria de transformar Anaconda em uma franquia, lançando uma série de continuações que apenas, digamos, mencionam fatos e personagens da produção original. A primeira sequência, Anaconda 2: A Caçada pela Orquídea Sangrenta, saiu em 2004 e introduziu na CRONOLOGIA a tal flor do título, uma parada que teoricamente garantiria o prolongamento da vida e que a expedição de pobres pesquisadores vai buscar na ilha asiática de Bornéu.

E embora a bilheteria doméstica de US$ 32 milhões tenha sido suficiente pra cobrir o orçamento de US$ 20 milhões, digamos que a Sony/Columbia não queria mais arriscar colocar esses filmes nos cinemas.

“Te permite dar boas risadas, ainda que você não saiba quantas delas foram intencionais” (Empire)

A partir daí, viriam Anaconda 3 (2008) e Anaconda 4 (2009), que acabaram sendo lançados diretamente pro mercado de vídeo, colocando no balaio da cobra um monstro geneticamente alterado e coisas assim. Pra fechar com chave de ouro, em 2015 alguém do canal Syfy, aquele mesmo que pirou com Sharknado, teve a GENIAL ideia de fazer um crossover da franquia Pânico no Lago, do crocodilo gigante, com Anaconda. O resultado é Pânico no Lago: Projeto Anaconda, no qual os dois bichões lutam mas depois se juntam pra ameaçar a paz e a tranquilidade de uma pequena cidade.

E você aí, preocupado com Freddy vs Jason...? ;)