2000 AD: o ano que já dura quatro décadas | Judão

Mais do que apenas apresentar Judge Dredd ao mundo, a icônica publicação britânica também catapultou ao estrelato nomes que se tornariam maiores do que ela, como Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison e Brian Bolland

“A joia da coroa dos quadrinhos britânicos”, conforme descreve o próprio editor da revista, Matt Smith, completando ainda com “falando em HQs, este é um dos melhores produtos de exportação que a Inglaterra já produziu”. Megalomaníaco? Se estamos falando de uma antologia de histórias de ficção científica que atende pela autointitulada ALCUNHA de “o maior gibi da galáxia”, acho que ainda é pouco. Mas tudo bem: os quarenta anos de serviços prestados à Nona Arte e comemorados com pompa e circunstância agora em 2017 bem que credenciam a galera da revista 2000 AD a se achar um bocado.

Publicada atualmente pela Rebellion Developments, originalmente uma desenvolvedora de videogames de Oxford, na Inglaterra (vagamente lembrada pelos joguinhos da série Alien vs. Predator), a 2000 AD continua saindo semanalmente, carregando a TOCHA dos quadrinhos independentes por aquelas bandas.

O primeiro número saiu em fevereiro de 1977, pela IPC Magazines, ideia de um subeditor chamado Kelvin Gosnell, que leu um artigo no London Evening Standard sobre uma batelada de filmes de ficção científica que estavam a caminho nos próximos anos. “Por que a gente não pega esta onda e lança uma revista em quadrinhos do gênero?”, sugeriu o cara. Aí, algum maluco topou e a IPC pediu ao editor/roteirista freelance Pat Mills, que já tinha ajudado a criar a revista de histórias de guerra Battle Picture Weekly e a mais do que popular Action, pra assumir a bronca.

Mills então colocou o amigo John Wagner no jogo como consultor de roteiros e a empreitada tava batizada com o nome futurista de 2000 AD (que, em inglês, significa 2000 DC). Ninguém esperava que a publicação fosse durar muito, os homens da grana achavam que aquela era uma aventura passageira. Então, eles se deram ao luxo de pirar.

Wagner já tinha criado um policial durão, meio Dirty Harry, pra revista Valiant, da própria IPC. Aí, ele extrapolou o conceito, desenvolvendo um TIRA ultraviolento em uma metrópole futurista com poder de prender, sentenciar e executar criminosos. Pra complementar, ele buscou um tanto de inspiração de uma tira de horror criada e engavetada pelo próprio Mills a respeito de um juiz chamado Judge Dread. Bastou uma ligeira mudança no nome para o personagem mais famoso da 2000 AD estar devidamente batizado: Judge Dredd.

Com um visual desenvolvido pelo espanhol Carlos Ezquerra, o juiz de Mega-City One dividia originalmente as páginas da revista com Dan Dare, um personagem clássico da ficção científica britânica lá nos anos 50, meio que um Buck Rogers da terra da Rainha, trazido numa nova versão justamente para “colar” um nome mais conhecido na revista recém-lançada; e também com histórias como Harlem Heroes, sobre um time de negros que jogavam uma mistura futurista de basquete e futebol; Mach-1, um herói biônico bem na vibe O Homem de Seis Milhões de Dólares; Flesh, com caubóis viajantes do tempo perseguiam dinossauros para alimentar uma sociedade do futuro superpopulosa; e Invasion!, sobre a ocupação da Grã Bretanha por uma raça chamada Volgans.

Mas não adiantou nada, porque Dredd simplesmente esmagou a concorrência e se tornou o carro-chefe da porra toda.

A graça aqui, no entanto, não estava apenas nas aventuras insanas e ácidas do bom (?) juiz, mas também no espaço que existia nas páginas da 2000 AD para novos talentos mostrarem do que eram capazes. Um dos primeiros e mais proeminentes foi justamente um jovem assistente de arte de nome Kevin O’Neill (A Liga Extraordinária). Ele foi um dos primeiros sujeitos a ser “testado” numa prog — nome dado à cada uma das histórias seriadas da revista — trabalhando num formato chamado Future Shock, com tramas únicas, daquelas com começo, meio e fim (geralmente chocante). Tanto ele quanto Dave Gibbons (Watchmen) e Brian Bolland (A Piada Mortal), moleques com traço dinâmico e inspirado nos gibis americanos, foram rápidos em conquistar o público, rapidamente encontrando seu caminho para o mercado IANQUE, que não demorou a ficar de olho no que estava rolando de curioso na 2000 AD.

Um dos mais proeminentes nomes a sair da revista pro mundo, contudo, era um carinha estranho que anos mais tarde trabalharia em projetos históricos, ainda que em momentos diferentes, com O’Neill, Gibbons e Bolland. É, sim, cê sabe que tamos falando do Alan Moore, que começou contribuindo com Future Shocks em 1980, escrevendo mais de 50 tiras independentes ao longo de três anos, enquanto também contribuía para a Warrior e para alguns títulos da divisão inglesa da Marvel. Foi em 1982 que ele ganhou sua primeira série de fato na 2000 AD, Skizz, uma versão mais Alan Moore para uma história-base que lembrava bastante E.T. – O Extraterrestre. Ele ainda seria responsável por coisas como D.R. and Quinch, com uma dupla de delinquentes juvenis alienígenas (no traço de ninguém menos do que Alan Davis), e a sua primeira GRANDE obra de verdade, The Ballad of Halo Jones, desenhada por Ian Gibson.

Pequena sensação, a trama da garota comum encarando o desemprego em massa numa cidade flutuante gerou pelo menos três publicações próprias — que só não se multiplicaram ainda mais porque já naquela época Moore mostrava o seu lado mais combativo no quesito “direitos autorais para os criadores”.

“Eu tinha 16 anos quando o primeiro número saiu”, contou Jonathan Ross, apresentador de TV e rádio inglês, em entrevista ao Guardian, mostrando uma cópia de colecionador da primeira edição, adquirida recentemente. “Não tinha nada como a 2000 AD. Ela tinha uma pegada mais europeia nas artes, tinha um jeitão meio punk. Me dava uma sensação mais contracultura do que a maioria dos gibis”. Outro fã declarado da revista, Graham Linehan, criador das séries de TV Father Ted e The IT Crowd, concorda que o jeitão transgressor da 2000 AD encantava a molecada. “Era uma revista anti-autoritária, que te fazia pensar”.

Um dos charmes da revista, que fez toda uma geração de leitores se apaixonar de primeira, era a história por trás das páginas que dizia que o editor da revista era um alienígena verde de nome Tharg the Mighty, um egresso de Betelgeuse com linguajar próprio (os leitores eram chamados por ele de “Earthlets”) e que até estrelava suas próprias histórias. Ele usaria um exército de robôs para escrever e desenhar os quadrinhos — e os autômatos se pareciam vagamente com os escritores e desenhistas de verdade.

Mesmo com o domínio quase tirânico de Tharg (que, na figura de Smith, está em sua nona e mais longeva encarnação), no entanto, a 2000 AD também foi, aos poucos, abrindo espaço para coisas que não eram exatamente ficção científica — como por exemplo Fiends of the Eastern Front, uma história de vampiros na Segunda Guerra Mundial escrita por Gerry Finley-Day e com arte de Carlos Ezquerra. E não podemos esquecer daquela que talvez seja a obra máxima de Mills, o bárbaro celta Sláine, aquele mesmo que ajudou a construir o nome de um tal Glenn Fabry e, principalmente, de um talentoso pintor chamado Simon Bisley.

E teve espaço até pra super-heróis, vejam vocês, com a estreia de Zenith, criação da dupla Grant Morrison (em seus primeiros dias como roteirista) e Steve Yeowell. O personagem-título, um cantor pop com poderes super-humanos, estava envolvido nas maquinações de um bando de heróis sessentistas e também de deuses antigos na melhor tradição lovecraftiana.

Não demoraria até que outros artistas, que já faziam carreira em publicações similares, resolvessem bater na porta da editora em busca do nobre espaço da 2000 AD. Vindo da Crisis, um spin-off da própria revista com foco em um público ainda mais adulto, Garth Ennis escreveu a comédia sobre viagem no tempo Time Flies, enquanto Jamie Hewlett — famosinho na Deadline, revista de cultura pop fundada por Steve Dillon — fez dupla com Peter Milligan no surreal Hewligan’s Haircut, sobre um paciente de um hospício que causa um apocalipse entre as realidades ao cortar o cabelo com um par de tesouras plásticas (!!!).

Em 1987, a IPC vendeu sua divisão de quadrinhos para o magnata da mídia Robert Maxwell, que a renomeou para Fleetway. Depois de sua morte, em 1991, todo o seu império desmoronou e a companhia dinamarquesa Egmont adquiriu a Fleetway, que continuou a produzir o título até o ano 2000. Foi na virada que a Rebellion comprou a publicação de vez. Mesmo com estas idas e vindas, a revista não apenas nunca parou como continua em plena atividade, publicando Dredd sem parar, além de uma série de novos personagens e projetos como uma história complementar ao filme Todo Mundo Quase Morto, escrita pessoalmente por Simon Pegg e Edgar Wright.

“É uma grande conquista”, afirma o editor Smith, sobre as quatro décadas celebradas este ano”. Mas ele faz questão de destacar que quer evitar totalmente a nostalgia. “Queremos assegurar que continuamos publicando nossas histórias com a mesma dose de sátira e irreverência, mas com foco nos dias de hoje, no presente, falando não só com os antigos leitores mas também com uma nova geração. O futuro nos parece brilhante. É maravilhoso, considerando que ninguém acreditava mesmo que ainda estaríamos aqui 40 anos depois”.

Pra quem quiser ler a revista e está do lado de cá do oceano, sem problemas: dá pra adquirir e ler os números anteriores e especiais via iTunes, Google Play ou no catálogo digital oficial dos caras.