2017: Guia de Sobrevivência | Judão

Depois da surra de bunda que foi 2016, para onde apontar o nariz neste novo ano?

Um ano atrás eu publiquei um Guia de Sobrevivência para 2016 aqui no JUDÃO nosso de cada dia. Eram sete itens não muito ambiciosos, mas que naquela altura tinham como ideia ajudar a suavizar nossa vidinha besta em um país cada vez mais dividido e confuso, imerso em uma das tretas políticas mais profundas da história.

O ano passado foi barra pesada em muitos sentidos. Golpeachment, muita gente sem trabalho, coisas que nos acostumamos a consumir ficando cada vez mais caras, ídolos muito fodas e queridos partindo deste nosso planeta xarope e lá vai pedrada, fora as amizades desfeitas porque de repente descobrimos que o fascismo está mais próximo do que imaginávamos, muitas vezes no mesmo ambiente de trabalho, turma da escola ou da faculdade ou mesmo dividindo o mesmo teto que a gente. Era imprevisível que a coisa fosse feder como tem fedido, por mais que o noticiário estivesse bizarro desde 2013, mas cá estamos vivos, cheios de amor pra dar, curtindo as mesmas coisas, curiosos como sempre e com ideias para realizar.

Acredito que a tônica de 2017 deve ser essa: tocar o barco com nossas paixões e turmas, cada vez menos nos apoiar em características generalistas que dividem a gente entre idiotices vazias como petraglias ou coxíneas.

Por exemplo, você tem habilidade para a zoeira como os xênios que abriram os trabalhos em 2017 mudando o lendário letreiro de Holywood para a versão que está na foto do topo deste texto? Manda ver, elabora suas ideias, faz uma intervenção, uma página, um fanzine, uma pixação, um canal, escreve uns roteiros. Curte Carnaval? Faz um bloco. Gosta de algo relacionado a arte mas não se considera pronto para mostrar ao mundo? Faz um curso. E por aí vai.

Resumindo: SE JOGA!

Minha fé é no dia seguinte, no máximo. Não acredito em sucesso profissional, tampouco. Em dinheiro, então, nem se fala. Não que eu não precise de plata ou de aumentos para pagar as contas da família brasileña, mas não faz sentido a gente usar renda como métrica de realização. Também não sei se a gente aprende alguma coisa depois de uma certa idade. Acho até que, com o tempo, o freio de mão fica naturalmente puxado quanto tema é novidade.

Acredito em aproveitar a vida com quem a gente se sente bem. Acredito em jogar conversa fora. Acredito na sabedoria das crianças. Acredito no desespero apaixonado dos jovens. Acredito que ser velho é muito mais do que sentir saudade. Acredito em amar. Acredito em treta. Acredito que direito é algo que não deveria ser concedido, mas inato, e que, portanto, se nos arrancam, é obrigação lutar e reconquistar na unha. Acredito em ler. Acredito na força da informação. Acredito em duvidar. Acredito que cada um de nós vai morrer, mas não hoje.

Nesse meio tempo, poucas coisas são melhores para se sentir gente do que tirar uns coelhos da cartola. Um dos tópicos do Guia que fiz para encarar o ano passado falava de ter causas, mesmo que fosse apenas apoiar um projeto no Catarse ou no Kickstarter. Quando escrevi isso, não fazia ideia que terminaria 2016 com um financiamento coletivo para chamar de meu. Ou melhor, nosso.

Um passo e não estou no mesmo lugar. Chico Science mudou minha forma de ver as coisas com essa frase quando eu ainda era um adolescente nos anos 90. Em uma sociedade que diz que devemos andar pra frente o tempo todo, lembrar que podemos caminhar em qualquer direção traz uma sensação libertadora.

Em uma sociedade que diz que devemos andar pra frente o tempo todo, lembrar que podemos caminhar em qualquer direção traz uma sensação libertadora

Pago minhas contas com o que escrevo desde os 19 anos, primeiramente #foraTemer como jornalista e posteriormente como roteirista e redator. Dar o passo de publicar um livro de ficção aos 36, apostando alto nesse caminho em detrimento de que tenho feito nos últimos 17 anos, acendeu uma brasa no meu peito que não sentia há muito tempo. É uma mistura de nó no estômago, pavor, aventura e simplesmente não ver outro caminho possível que se torna irresistível.

Sempre admirei o Borbs pela relação que ele tem com o JUDÃO, que é fazer da maneira dele e ao mesmo tempo com todo mundo. Isso, sem medo de sacrificar madrugadas de trabalho e manhãs de sono para seguir na estrada que mais bota fé apenas para dar outra guinada ali na frente se acreditar que essa é a melhor forma de cumprir a missão que ele imagina para o negócio.

Justamente esse é meu item único para o Guia de Sobrevivência para 2017.

Ache algo que acredita, pelo qual você tem curiosidade, que vá se dedicar até produzir com qualidade suficiente para levar ao público, e manda bala. Se depois você achar que não é mais o rolê, começa tudo de novo nesse ou em outro barco.

Está começando mais um ano, uma das melhores chances de botar na rua aquele ciclo que está na geladeira da sua cabeça há tempos. Essa é a melhor forma de celebrar o óbvio, como reza a sabedoria de KL Jay, o DJ fodão dos Racionais MC’s: ESTAMOS VIVOS!