O (não tão) futuro (não tão) distópico de 3% | Judão

Primeira série Brasileira produzida pelo Netflix estreia nessa sexta-feira em todo o Mundo. Enquanto o elenco se empolga pela presença no serviço de streaming, a história mostra que o tal futuro distópico da série é mais presente do que parece

Starstruck é o ato ou efeito de ficar excitadíssima e/ou paralisada ao encontrar alguma celebridade que, por mais que esteja fazendo a mesma coisa que você num lugar qualquer, ainda é AQUELA pessoa.

Netflix é uma das maiores empresas de entretenimento / tecnologia do Mundo e que, de repente, resolveu tirar do papel a ideia de Pedro Aguilera para um futuro distópico do Brasil. É de se imaginar pernas tremendo, bocas secas e barrigas geladas só de pensar que seu trabalho chegará simultaneamente em trocentos países, numa porrada de línguas, com assunto que o Brasil tem zero tradição... Mas o que parece ter pegado o elenco de 3% é outra coisa. :)

“Tipo, ‘ah, nossa, é mesmo, então só vários países! Netflix que eu sempre assisti agora a gente vai tá lá! Pra mim, pelo menos, essa ficha tá caindo só agora”, disse Mel Fronckowiak. “É incrível”, continuou Rodolfo Valente. “Eu sou absurdamente fã de todas as séries da Netflix e fazer parte da primeira brasileira original... sabe? (...) Eu sempre sonhei, mas nunca imaginei que um dia isso se concretizaria”.

Bianca Comparato, porém, colocou um pouquinho só os pés no chão. “Primeiro: a gente trabalhou no Brasil. A produção não é diferente de nenhuma série ou filme que a gente fez, que era tudo Brasileiro”, disse. “Na real, eu acho Netflix bem pequena. Ela é gigante porque chega em milhões de países, mas em número de funcionários, eles são muito acessíveis”.

Eu sou absurdamente fã de todas as séries da Netflix e fazer parte da primeira brasileira original... sabe?

3%, que estreia nessa sexta-feira, é uma série se passa nesse Brasil em que todas as pessoas, ao atingirem 20 anos, tem a chance de participar de uma série de testes e se mostrar APTAS a viver numa sociedade que, dizem, é muito melhor. De todos esses cof cof tributos cof cof, apenas 3% deles são aprovados todos os anos. Sacou o título da série? Hein, hein?

A questão de 3% é que o tal futuro distópico Brasileiro não é exatamente tão futuro e tão distópico assim. Como se não bastasse, um dos cenários da série, usado pra representar essa sociedade DITA superior, é simplesmente a chamada Arena Corinthians, o estádio do chamado “time do povo”. Mais irônico ainda: é o tal do setor oeste, cheio dos camarotes, assentos estofados, ingressos absurdamente caros e gente que tira selfie com a bola do jogo em que o time perde do maior rival e ainda reclama de quem assiste ao jogo de pé.

Pelo menos no futebol, em 2016, o mundo de 3% não é absolutamente nada futurista e muito menos distópico...

César Charlone dirige Vaneza Oliveira e Mel Fronckowiak dentro do vestiário da Arena Corinthians

César Charlone dirige Vaneza Oliveira e Mel Fronckowiak dentro do vestiário da Arena Corinthians

Aí a gente fala (pra caralho) de representatividade e empatia aqui no JUDÃO, sempre querendo que o mundo real seja representado nos filmes que assistimos, quadrinhos que lemos... Mas já percebeu que, quando o inverso acontece — um mundo “fictício” representa exatamente o que vivemos no momento — muito pouca gente percebe? Ou não aceita, ou não enxerga, ou não entende?

O que é que nós podemos fazer pra mudar isso?

“Se a gente continuar assim, levantando os mundos e segregando, a gente pode chegar numa realidade que a série retrata”, alerta Bianca Comparato. “É o que eu gostaria que as pessoas entendessem, mas eu não tenho como controlar isso”.

“Uma coisa que eu gosto muito no roteiro do Pedro é que ele levanta tanta pergunta que as vezes na hora a pessoa não vai entender, mas em algum momento ela vai reconhecer, falar ‘putz, olha!'”, afirmou Vaneza Oliveira. Rodolfo Valente, por sua vez, acredita que esse é um bom caminho, o das metáforas e alegorias. “Quando você diz uma coisa, pega num lugar racional. Agora, quando você diz por metáforas e por alegorias, como é 3%, pega num lugar mais profundo. Talvez a pessoa não entenda, na hora. Mas eu acho que é uma coisa muito mais profunda”.

“Essa reflexão é importante de qualquer maneira”, afirmou Mel Fronckowiak. “Talvez a pessoa assista aos oito episódios e não saia falando sobre isso, mas algo ali fica... Essa é a função da dramaturgia, da arte. O que 3% faz é dar nome a tudo isso, é instituir, é dividir bem os papeis”, completou. João Miguel resumiu bem: “tá se falando, e tem que se falar”.

3% é a primeira série nacional no Netflix? É. 3% é o primeiro produto AUDIOVISUAL Brasileiro que vai ser visto pelo mundo todo ao mesmo tempo? É também. Isso tudo é legal pra caralho? Ô SE É. Mas tomara que a série seja também o GATILHO pra que muita gente acorde e enxergue o mundo em que vive. O futebol já tá mostrando, agora tem a série que nem precisa de legenda…

Cultura pop, vale lembrar mais uma vez, pode ser como a vida real. Só tem umas navinhas a mais. ;)