30 anos desde que o rock invadiu o Senado dos EUA | Judão

Em setembro de 1985, nomes como Dee Snider focam convocados para depôr graças a uma cruzada pela moral e os bons costumes do chamado Parents Music Resource Center (PMRC)

Tudo começou no abençoado lar do então senador norte-americano Al Gore (para quem não lembra, ex vice-presidente dos EUA, aquele que venceu mas não levou contra o Bush, etc) e sua esposa Tipper. O casal estava lá, todo pimpão, ouvindo o disco Purple Rain, do Prince, com uma das filhotas. A música-título estava estourada nas paradas, era o meio da década de 1980. Eis que, então, eles chegam na canção Darling Nikki, que já começa assim: “I knew a girl named Nikki / I guess u could say she was a sex fiend / I met her in a hotel lobby / Masturbating with a magazine”.

O quê? Masturbação? Um insulto, um ultraje, uma afronta! Indignada com “o rumo que a música estava tomando”, com letras ofensivas demais, Tipper se movimentou e entrou em contato com um grupo de amigas influentes, esposas de nomes poderosos da política na cidade de Washington. Desta articulação, nascia a sigla que, durante muitos anos, significou o inferno para os músicos nos EUA: PMRC. No caso, o Parents Music Resource Center – ou algo como “centro de recursos musicais para os pais”. O objetivo seria orientar os papais e mamães “de bem” e lutar por um mercado musical mais, digamos, limpo para a tradicional família ianque.

O PMRC, liderado por Tipper, tinha em suas fileiras integrantes como Susan Baker, esposa do Secretário do Tesouro James Baker, e Sally Nevius, casada com o ex-cabeça do conselho municipal de Washington, John Nevius. Sua primeira campanha foi contra os músicos que se tornaram parte de uma infame lista, criada por elas e batizada de The Filthy Fifteen (Os Quinze Imundos).

São quinze canções consideradas imorais e contra as quais elas pregavam boicote justamente por estarem de acordo com os valores familiares por tratarem de temas como drogas, sexo, violência e ocultismo. São elas:

  • Darling Nikki (Prince)
  • Sugar Walls (Sheena Easton)
  • Eat Me Alive (Judas Priest)
  • Strap On ‘Robbie Baby (Vanity)
  • Bastard (Mötley Crüe)
  • Let Me Put My Love Into You (AC/DC)
  • We’re Not Gonna Take It (Twisted Sister)
  • Dress You Up (Madonna)
  • Animal (W.A.S.P.)
  • High ‘n’ Dry ( Def Leppard)
  • Into the Coven (Mercyful Fate)
  • Trashed (Black Sabbath)
  • In My House (Mary Jane Girls)
  • Possessed (Venom)
  • She Bop (Cyndi Lauper)

Só que elas não estavam satisfeitas. Não queriam parar aí. Estavam dispostas a muito mais. Claro que, sendo casadas com quem eram, elas sabiam muito bem do poder da Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que prega e protege a liberdade de expressão – inclusive destes artistas que o PMRC tanto combatia. Mas... e se a música também fosse submetida a uma espécie de classificação indicativa, da mesma forma que a MPAA faz com os filmes em seus R, PG-13, PG e G?

Não demoraria até que o grupo costurasse um acordo com a Record Industry Association of America (RIAA) para começar a colar aqueles clássicos adesivos em preto e branco com o “Parental Advisory” indicando que aquele conteúdo não era apropriado para crianças e, com uma legenda específica para indicar o que poderia ser ouvido ali (V = Violence, S = Sexual Content, O = Occult). Aquele não era um selo obrigatório, era “voluntário”, não era nada que tinha status de lei. Mas era uma espécie de “recomendação”, vinda de quem veio, que as gravadoras por lá passaram a seguir quase que cegamente – e seguem até hoje, aliás. Alguns artistas defendiam que o selo não era apenas uma piada, mas uma forma de mostrar para as crianças quais eram os discos mais legais de serem comprados. Mas nem todo mundo levou a coisa tão na brincadeira, como é o caso de Dee Snider, vocalista do Twisted Sister.

Dee Snider na audiência pública no senado dos EUA

Dee Snider na audiência pública no senado dos EUA

“O que estes músicos não entendiam era que usos poderiam ser feitos daquele selo. Não era algo feito para informar os pais: era uma forma de segregar a arte, de prevenir que ela chegasse às lojas”, explica o cantor, em entrevista ao Yahoo. “Grande parte das lojas de maior porte simplesmente se recusava a comprar álbuns que tivessem aquele selo. E mais: aquilo abriu as portas para que varejistas como Best Buy e Wal-Mart pressionassem as gravadoras para fazerem versões editadas dos discos – como Devil Without a Cause, do Kid Rock, que não tinha a música Fuck Off. E isso sem qualquer aviso do tipo ‘ei, isso é uma versão editada’. E não vamos nos esquecer dos bleeps e barulhinhos para tirar os palavrões das músicas”, conta.

Então, viria o grande momento, aquele que o PMRC tanto estava esperando, devidamente coordenado pelo maridão de dona Tipper: a audição pública no Senado. Não era um julgamento. Era apenas uma convocação dos envolvidos para que eles pudessem dar suas opiniões, expor seus pontos de vista, questionados pelos senadores para que tudo servisse de subsídio para um possível projeto de lei. Da parte dos músicos, três grandes nomes foram chamados para aqueles dias de setembro de 1985. E eles não poderiam ser mais diferentes entre si: o cantor country John Denver; o inventivo, alucinado e experimental Frank Zappa; e o próprio Dee Snider.

Dos três, Snider foi sem dúvida alguma aquele que fez história.

Foi, na verdade, um espetáculo midiático, já que todos os canais de TV do país estavam interessadíssimos no que estava acontecendo ali. A senadora Paula Hawkins chegou a apresentar as capas de três discos (Pyromania do Def Leppard, W.O.W. de Wendy O. Williams e W.A.S.P., que é...do W.A.S.P.), além dos clipes de Hot for Teacher (Van Halen) e We’re Not Gonna Take It, do Twisted Sister. “Muito mudou desde os tempos aparentemente inocentes de Elvis”, disse ela. “O que era sutil e sugerido deu lugar a expressões gráficas de atos sexuais violentos, consumo de drogas e até flertes com forças malignas”. Só que a resposta viria a jato.

De queixo erguido, Dee adentrou o recinto de cabelo armado, maquiagem nos olhos, camiseta rasgada, jeans apertados, cinto de tachinhas. “Quando eles me chamaram, eu estava nervoso, na verdade”, confessa ele. “Eu nasci nos anos 50, e mesmo que o Watergate já tivesse acontecido, ainda tinha aquela ilusão de que Washington era o mundo mágico de Oz, onde pessoas incríveis estavam fazendo coisas incríveis para o nosso bem-estar”.

As pessoas incríveis, todas engravatadas, não levaram Dee Snider a sério quando ele chegou. Deram risadinhas, acharam que estavam diante de um palhaço maquiado. Ledo engano. Com inteligência e argumentações fortes, o músico foi rebatendo tudo que lhe foi dito sem se alterar, sem perder a calma e a tranquilidade – mas tudo com uma pitada de humor, claro. O fotógrafo Mark Weiss, que já tinha fotografado Dee para a capa do famoso disco Stay Hungry, foi chamado pelo amigo para documentar em imagens todo aquele momento. “O testemunho dele foi articulado e apaixonado, conforme ele defendia o direito à liberdade de expressão e artística de seus colegas”, conta. “Me lembro de sentir como se ele estivesse falando por mim e meus direitos de escolher a música que eu queria ouvir”.

Uma das primeiras coisas que Al Gore fez questão de dizer para Dee é que não gostava do Twisted Sister e de suas letras. E já chegou disparando que Under the Blade, faixa-título do álbum de estreia da banda, era sobre sadomasoquismo, conforme Tipper havia lhe contado. Foi a deixa que Snider precisava, ao dizer que a esposa do nobre deputado tinha se enganado com relação ao significado da canção. “Fiz questão de esclarecer que a canção era uma homenagem ao meu guitarrista [Eddie Ojeda], que teve que fazer uma cirurgia na garganta. Ele estava morrendo de medo e eu disse que ia escrever uma música para ele. E completei dizendo ‘Não posso fazer nada se a Sra. Gore tem uma mente poluída’. Se Al Gore soltasse raios dos olhos, ele teria me explodido na minha cadeira”, diverte-se Snider. “Ele estava furioso. Mas não podia dizer nada”.

Twisted Sister

Para Snider, no entanto, a coisa mais positiva foi ter desconstruído a imagem de que todo roqueiro é um sujeito demoníaco, um arruaceiro hedonista e irresponsável. “Eu sou um bom cristão, não bebo ou uso drogas, sou casado e tenho uma família. A responsabilidade total sobre a educação e defesa dos meus filhos recai sobre meus ombros e sobre os da minha esposa, porque não existe qualquer pessoa que faça este julgamento melhor do que nós”. Apesar de um primeiro momento no qual alguns fãs o questionaram por sua imagem de “bom moço”, que não combinava com o personagem cênico que interpretava, logo depois ele afirma que sentiu um momento de alívio, quando passou a ser reconhecido de maneira diferente.

“Foi a primeira vez em que pude mostrar para as pessoas que eu não era um cara de uma nota só. Eu tenho um cérebro. Foi quando as pessoas começaram a pensar: ‘hey, tem algo a mais neste cara que não é apenas uma fuça cheia de maquiagem que grita aquelas músicas grudentas’. Criei uma longa e diversa carreira a partir daí”, afirma. “Hoje, eu e minha esposa estamos celebrando 34 anos de casamento. Nenhum dos meus filhos já foi preso por tráfico de drogas. Mas o de Al Gore foi. Estou me gabando? Sim, estou. Eu não joguei pedras no telhado de vidro deles. Eles jogaram no meu”.

Hoje em dia, o PMRC não existe mais, mas entrou para a história da cultura pop – por este episódio e também por ser retratado no musical da Broadway Rock of Ages, aquele mesmo que virou um filme totalmente farofa com o Tom Cruise em 2012.

A conservadora Patricia Whitmore vivida por Catherine Zeta-Jones, esposa do político Mike Whitmore (Bryan Cranston), é referência direta a Tipper Gore – e o fato de que ela canta We’re Not Gonna Take It no final da trama não é mera coincidência. ;)

Rock of Ages

Para relembrar a data, foi lançado esta semana um aplicativo chamado The Filthy Fifteen, que traz fotos inéditas de Mark Weiss e ainda depoimentos de nomes como Snider, Brad Whitford (Aerosmith) e Rachel Bolan (Skid Row) explicando como seu processo criativo foi invariavelmente modificado por conta das decisões tomadas naquela época e o impacto que teve em sua música.

“Trinta anos depois, tudo mudou e nada mudou”, diz Snider, em editorial escrito para o Huffington Post. “Os ultraconservadores ainda estão lá, tentando dizer o que eles acham aceitável e que o público deve ver ou ouvir. A indústria fonográfica é uma mera sombra do que foi outrora (punição justa por sua covardia) – e CDs e discos de vinil hoje são quase ‘raridades’ em um mundo guiado pelos downloads. Mas sim, o selo continua sendo mostrado em faixas e álbuns que são comprados/ouvidos online”.