ABBA: a suprema Corte Real do Pop | Judão

O quarteto fantástico sueco se tornou não apenas a banda europeia mais vendida da história e o maior fenômeno fonográfico de um país de língua não-inglesa, mas também um verdadeiro ícone que deixou uma enorme marca na cultura pop

Quando a gente resolve falar na realeza da música pop, é inevitável colocar o imortal Michael Jackson como rei e a Madonna como rainha, com uma série de princesas e príncipes (Britney Spears, Christina Aguilera, Justin Timberlake e... bom, é isso, né?) orbitando ao redor e uma fileira de aspirantes que já estão dando um jeito de colocar alguma parte do corpo no trono de Ma Ciccone (de Beyoncé a Lady Gaga, passando por Rihanna e, por que não?, Anitta). Só que, vejam vocês, a música pop também tem a sua corte de nobres que merecem destaque. Um time de duques e duquesas, barões e baronesas, que fizeram a diferença e entraram definitivamente para a história.

Nesta corte do mundinho pop, talvez não exista nome mais importante que o ABBA, um CONJUNTO com tantos hits certeiros e consagrados que mal dá pra listar e que é egressa da Suécia. Um levantamento da Wikipedia reunindo fontes de números de vendas de discos nos mais diversos países afirma que, ao longo de sua carreira de mais de uma década de plena atividade, numa discografia que teve apenas oito discos de estúdio, eles venderam cerca de 60 milhões de cópias em todo o mundo. Mas ainda existem fontes que defendem que o número real ultrapassou os 100 milhões e outras falam até em mais de 500 milhões. De qualquer forma, eles integram a seletíssima lista de artistas mais vendidos no planeta.

Nos EUA, por exemplo, eles tiveram nada menos do que VINTE singles na parada Hot 100 da Billboard, sendo que catorze deles chegaram aos top 40 e dez aos top 20 — incluindo aí Dancing Queen, que foi número 1 da lista, inclusive. Três de seus discos receberam certificação de ouro pela RIAA (a associação da indústria fonográfica americana), com mais de 500.000 cópias vendidas, enquanto outros três foram platina (mais de 1 milhão de cópias vendidas). Tamanha relevância os faria serem reconhecidos, em 2010, com uma INDUÇÃO ao Rock and Roll Hall of Fame (que, exatamente como o Rock in Rio, apesar do nome, nunca foi somente uma premiação para artistas de ROQUE, é bom lembrar).

Formado em 1972 na cidade de Estocolmo, o ABBA foi batizado com as iniciais dos nomes de seus quatro integrantes: Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni-Frid Lyngstad.

Benny Andersson se tornou, aos 18 anos, membro de um grupo de pop-rock bem famoso na Suécia, os Hep Stars, chamados de “Os Beatles Suecos”. Não demorou até que, na estrada, entre turnês, ele cruzasse o caminho de Björn Ulvaeus, também 18 anos, líder de uma banda folk chamada The Hootenanny Singers. A química entre eles foi tão imediata que, em 1966, eles já decidiram escrever uma música juntos, Isn’t It Easy to Say, que os Hep Stars gravariam logo depois. Mas o empresário dos Hootenanny, Stig Anderson, viu potencial na dupla e os incentivou a criarem cada vez mais juntos. Logo, eles passaram a fazer participações especiais um nos shows do outro.

A primeira metade do quarteto estava devidamente composta. Faltavam os dois As.

O primeiro deles, Anni-Frid Lyngstad, pintou graças à edição 1969 do Melodifestivalen, o festival nacional sueco para selecionar a canção indicada ao tradicionalíssimo Eurovision Song Contest. A música que Benny inscreveu, Hej, Clown, por muito pouco não ganhou, passando raspando e ficando em segundo lugar. Mas, na ocasião, ele enfim conheceu pra valer a Anni, outra compositora participando do evento. A mesma Anni que cantava desde os 13 anos em um monte de grupos de som dançante, que ganhou um concurso de talentos e levou de prêmio um contrato com a EMI. Um mês depois, apaixonados, eles já eram um casal.

Aí, surgiria o outro A e também um outro casal. Agnetha Fältskog, natural de uma cidade do sul da Suécia chamada Jönköping, foi convencida por um empresário local de que seria uma estrela. Partiu pra Estocolmo e, aos 18 anos, já tinha uma música própria estourando nas paradas e vendendo cerca de 80.000 cópias. Lançou quatro álbuns solo entre os anos de 1968 e 1971 — mas, em maio de 1969, ela conheceu Björn durante a gravação de um especial de TV. Adivinha só? Se apaixonaram. Casaram. E as sementes do ABBA estavam definitivamente plantadas.

Em 1970, quando os dois casais saíram de férias juntos no Chipre, sacaram que alguma coisa especial podia rolar ali. Foi neste ano que Björn e Benny gravaram seu primeiro disco oficial em parceria, justamente quando suas respectivas bandas tavam indo pro buraco e, claro, contaram com a participação de suas esposas contribuindo com vozes de fundo. Foi ali que eles sacaram que queriam trampar todos juntos. Primeiro, rolou uma espécie de espetáculo ao vivo, Festfolket, um show meio cabaré que levou cacetada atrás de cacetada da imprensa especializada. Mas foi ali que rolou Hej, gamle man, primeiríssima canção na qual os quatro foram enfim protagonistas juntos, uma faixa sobre um soldado veterano.

Meio ressabiados com a recepção do trabalho, eles resolveram colocar o sonho de trabalhar juntinhos meio de lado por um tempo e se focar em seus projetos-solo, que inevitavelmente contavam com as participações uns dos outros. No fim, os dois casais sempre se metiam em estúdio juntos. Continuaram as canções de sucesso aqui e ali, incluindo até um hit de Benny e Björn no Japão, She’s My Kind of Girl. Eles iam experimentando novas sonoridades e arranjos vocais e em 1972, sairia People Need Love, outra com o quarteto cantando em UNÍSSONO, faixa creditada como Björn & Benny, Agnetha & Anni-Frid. O resultado da canção no mercado sueco foi bom o bastante pra eles enfim perceberem “HEY PERA TEM ALGO AQUI”. E tinha. <3

No ano seguinte, enfim chegaria ao mercado seu primeiro disco, Ring Ring, no momento em que seu empresário, Stig Anderson, decidiu que era hora de pensar grande, pensar no mercado internacional, e portanto batizá-los de um jeito mais simples e direto: ABBA. A sigla de seus quatro nomes combinados também era uma brincadeira com uma famosa empresa de peixes enlatados (?) da Suécia, que acabou cedendo os direitos do título também.

A explosão de sucesso começaria oficialmente em 1974, quando eles se dedicaram de corpo e alma à sua maior obsessão desde sempre: não apenas ser a escolha sueca para o Eurovision, mas também ganhar o festival de uma vez. Acabaram escolhendo Waterloo, inspiradíssima na cena glam rock que estourava na Inglaterra. A faixa, arrasadora, conquistou os corações dos suecos e, bingo, faturou a tão sonhada premiação. Sucesso absoluto nas paradas inglesas, alemãs e a porra toda, além de um justíssimo sexto lugar nos EUA, pavimentando sua futura chegada ao mercado IANQUE (“um álbum de estreia fascinante que captura perfeitamente o espírito do pop mainstream”, disse à época o Los Angeles Times).

Fizeram shows a rodo na sua primeira turnê (que bombou principalmente na Escandinávia), apareceram em tudo que é programa de TV europeu. Veio SOS, veio Mamma Mia e aí o negócio se tornou monstruoso. Estranhamente, aliás, com a compilação Greatest Hits, disco #1 em uma porrada de países, aquela mesma bolacha que incluía um novo single, Fernando.

Pensa só no que aconteceu, então, quando eles lançaram Arrival (1976), seu quarto disco de estúdio, que trazia uma canção especial chamada Dancing Queen? Enfim, o ABBA conquistavam o topo das paradas na terra do Tio Sam, número 1 da Billboard Hot 100.

O ABBA tinha conquistado o mundo. De vez.

Mas o domínio não podia durar pra sempre. E começou a se dispersar, vejam vocês, quando ambos os casamentos foram entrando em colapso. Talvez fosse parte da mítica que girava ao redor do ABBA, na real. Mas o fim de ambos os relacionamentos resultou em músicas mais sombrias e introspectivas do que aquelas melodias iluminadas que ouvimos no começo da carreira. Que o diga The Visitors, de 1981, o último disco de estúdio da banda. Um álbum mais profundo, que abordava governos totalitários, a ameaça da guerra, o envelhecimento e a perda da inocência.

Por muito tempo, um novo disco chegou a ser prometido e eles até chegaram a se reunir para fazer acontecer mas, de fato, nunca rolou. No máximo, algumas poucas músicas chegaram a ser efetivamente gravadas, tornando-se singles como The Day Before You Came, Cassandra, Under Attack e You Owe Me One, mais tarde incluídos em compilações de melhores momentos.

Em 1982, eles chegaram a viajar para Londres, promovendo o álbum The Singles: The First Ten Years — e na TV dali se daria, pouco depois, a sua última performance ao vivo EVER, com um link diretamente de Estocolmo para o programa The Late, Late Breakfast Show. Na real, a banda NUNCA anunciou oficialmente um encerramento de suas atividades, mas foram apenas desaparecendo aos poucos, com cada um passando a se dedicar ativamente às suas próprias carreiras musicais — enquanto as garotas A se concentravam em cantar, os garotos B se meteram a trabalhar com a indústria do entretenimento, compondo musicais como Chess e Abbacadabra (uma produção infantil pra TV francesa com uma série de canções do ABBA).

Uma reunião rolou em Julho de 2008, para a première sueca do filme Mamma Mia!, os quatro jamais tinham se reunido novamente desde 1986, quando tocaram brevemente na TV da Suécia uma versão acústica de Tivedshambo, primeira canção escrita por seu empresário, em um especial que comemorava o 55o aniversário do cara.

Em uma entrevista para o Sunday Telegraph na época em que o musical cinematográfico com Meryl Streep foi lançado, Björn Ulvaeus e Benny Anderson foram categóricos ao afirmar que o ABBA não vai se reunir para uma turnê especial ou qualquer coisa assim. “Não apareceremos mais no palco outra vez. Não existe motivação para esta reunião. Dinheiro não é um fator e nós gostaríamos que as pessoas se lembrassem de nós como nós éramos. Jovens, exuberantes, cheios de energia e ambição”, disse Björn. “Eu me lembro do Robert Plant dizendo que o Led Zeppelin tinha se tornado uma banda cover porque eles estavam só fazendo versões de si mesmos. Isso me acertou em cheio”.

Ao New York Times, Agnetha seguiu meio na mesma linha, confirmando que esta reunião jamais ocorreria. “Temos que aceitar isso, porque estamos muito velhos e cada um tem sua própria vida. Se passaram muitos anos e não tem sentido nos juntarmos de novo. Mas é muito legal quando a gente se encontra e tem a chance de sentar pra conversar um pouco, ser um pouco nostálgico”.

Vale lembrar, claro, que a popularidade do ABBA deu uma subida de vez no começo dos anos 1990, quando a Polygram comprou todo o catálogo do grupo das mãos da antiga gravadora Polar e relançou o pacotão completo mais uma vez, agora internacionalmente, incluindo uma nova coleção de greatest hits, o popular ABBA Gold, de 1992. O grupo virou mania mais uma vez, com suas músicas se tornando parte integrante e importantíssima de filmes cultuados como O Casamento de Muriel e Priscilla, A Rainha do Deserto. Isso se a gente nem for contar a quantidade de artistas diferentes que já gravaram versões da banda, de Erasure a Yngwie Malmsteen, passando por Sarah Brightman, Mike Oldfield, The Corrs, Sinéad O’Connor, Tarja Turunen, Bananarama e até o satânico combo Ghost.

Isso é sinal de música de excelente qualidade e altíssima grandeza, digna da realeza do pop. Sem dúvida alguma. Mas também é a prova de que o ABBA hoje é mais do que SÓ uma banda. Mas sim um ícone sagrado da cultura pop. Como bem merecem esta corte real que partiu da Suécia pro mundo.

Nossa reverência a eles. 🙌