Este é o melhor momento do Accept. PONTO. | Judão

Não que faltasse muito para ter esta certeza, mas o novo disco dos alemães, The Rise of Chaos, é a pedra fundamental pra gente poder dizer que a entrada de Mark Tornillo transformou os caras em algo MUITO melhor

A gente já falou aqui no JUDÃO, sei lá, uma dezena de vezes sobre este lance aí de uma banda clássica que acaba trocando de integrante e do drama que isso pode se tornar quando este músico é alguém tão fundamental pra sonoridade e performance quanto o vocalista. Os fãs choram, se descabelam, ameaçam parar de ouvir o tal do grupo, aquela coisa toda. E, no caso de fãs de ROQUE, o caldo entorna ainda mais porque tem vocalista que passa, sem sacanagem, DÉCADAS à frente do combo musical e, mesmo assim, continua sendo lembrado pra sempre como “o novo frontman do...”.

Que o digam Andi Deris (há 23 anos no comando do Helloween) e Derrick Green (completando duas décadas nos microfones do Sepultura), por exemplo, isso pra ficar em dois exemplos bem óbvios.

E aí a gente tem o Mark Tornillo. Um americano com uma puta experiência de palco no circuito alternativo de Nova Jersey e que, do nada, acabou convocado pra substituir Udo Dirkschneider nos vocais do tradicional grupo alemão Accept. Um tipo de metal bem diferente do que o Tornillo cantava, um tipo de voz bem característico, aquela escola toda europeia de rock pesado, enfim. Tinha uma galera já preparada pra odiar, apostando que daria errado com toda a certeza, que os caras tavam viajando na maionese...

Mas saiu o primeiro álbum de inéditas com ele mostrando a que veio, Blood of the Nations (2010). E depois vieram Stalingrad (2012) e Blind Rage (2014), igualmente fortes, integrados, coesos, fodásticos. Calou a boca de uma galera. E então, este ano, eis que pinta a pedrada de nome The Rise of Chaos. E agora, é muito sério, se alguém ainda tinha uma dúvida qualquer, é melhor engolir com um copo d’água porque desce melhor: este novo Accept é BEM MELHOR do que o Accept com o Udo. Mas, tipo assim, milhas e milhas distante.

O metal que o Accept vem fazendo nos últimos anos continua sendo o bom e velho metal TRADICIONAL, uma palavra que no entanto não deve ser considerada com TRADICIONALISTA. Não é música de uma banda falida e cagada na vida que precisa inventar disco novo pra tentar sobreviver enquanto ainda pode garantir uns trocados na próxima turnê. Não. O que o Accept vem nos entregando é metal com ecos dos clássicos dos anos 80, mas sem soar velho, datado, picareta. É som pesado, feito com um puta tesão, mas que soa absolutamente 2017, sem malabarismos, sem invencionices. Tipo um Bruce Springsteen do metaaaaal, metalzão operário, cerveja e calça jeans rasgada. Liga os amplificadores, enfia o pé na bateria, mete a mão na guitarra e vambora.

O mais legal de ouvir o Tornillo cantar é perceber que, nem de longe, ele tenta ser uma mera cópia do Udo. Em alguns momentos, ele solta uns versos mais anasalados, tá bom. Mas alternando com momentos mais melódicos, outros agressivos e rasgados, salpicando a coisa toda com aqueles agudos meio Eric Adams que só o metal faz por você... É uma performance única, só dele, sortida, variada.

E sim, sem problemas, antes que comecem os “mas...”, as novas adições ao time, o guitarrista Uwe Lulis (Grave Digger, Rebellion) e o baterista Christopher Williams, não fazem feio e seguram a bronca direitinho. Honestamente, nem parece que tivemos grandes modificações com relação ao Blind Rage, por exemplo. Timaço bem azeitado.

Impossível resistir, por exemplo, à tentação de se render ao refrão da faixa de abertura, Die by The Sword, não só batendo cabeça e repetindo a letra com ele, mas GRITANDO o nome da canção, num momento que deve fazer um baita sucesso nas apresentações ao vivo. O mesmo acontece com Hole in the Head, que tem uma levada de guitarra deliciosa, cavalgada, que dá nitidamente pra imaginar sendo executada no palco enquanto Wolf Hoffmann dá aquela dançadinha de quadris discreta... ;)

O álbum que tem no geral uma pegada mais, digamos, sombria

Em um álbum que tem no geral uma pegada mais, digamos, sombria, falando coletivamente sobre o caos que aos poucos começa a tomar conta do nosso mundo (com direito até à maravilhosa Koolaid, sobre a bebida de mesmo nome sendo misturada com cianeto pelo líder de um culto religioso e que funciona como mensagem para que não se acredite em qualquer argumento ou filosofia sem antes fazer uma análise crítica, não importa o que diga o pastor), sobra até espaço para a bem-humorada e motorhédica (isso existe?) Analog Man, sobre um old school son of a bitch preso num mundo digital, aquele no qual “my cell phone’s smarter than me”. Sensacional! :D

“Eu sou o cara mais sortudo do planeta”, afirmou Tornillo em entrevista ao Blabbermouth, comentando sobre como foi incrível não apenas ele ter sido convidado pra banda mas também poder trabalhar com músicos do calibre de Wolf Hoffmann (guitarrista) e Peter Baltes (baixista).

Porra nenhuma, meu velho. Tu tem um talento fodido. Sorte temos nós, isso sim, de poder dizer, em 2017, que uma banda veterana de senhores quase sessentões como o Accept ainda tá botando pra foder e sendo relevante ao invés de tentar ser um cover de si mesma em tempos dourados. Muito obrigado! :D