Action Comics #1000 mostra porque precisamos HOJE do Homem do Amanhã | Judão

Se você é do tipo que se enfurece ao mínimo sinal de que seu herói favorito possa ter se tornado um, como é mesmo, SJW, talvez esta revista não seja pra você, viu?

Como comemorar a milésima edição da revista que lançou o mais icônico herói dos quadrinhos, que completa nada menos do que 80 anos de existência? Pô, é o dono de um símbolo imediatamente reconhecível em qualquer parte do planeta! A resposta é simples: ao invés de tentar uma festa megalomaníaca, basta reunir alguns de seus melhores amigos — aka “criadores que ajudaram a fazer o seu passado, seu presente e que vão cuidar de seu futuro” — e celebrar mais do que as suas aventuras ou os seus superpoderes.

Em Action Comics #1000, revista recém-lançada nos EUA, quem está em destaque não é apenas o super-herói, mas sim o mito do Superman e como ele se tornou um símbolo de heroísmo que também inspira aqueles que salva e que o veem SINGRANDO os céus, mais rápido do que um avião.

A grande graça desta edição especial cheia de histórias curtas são aquelas em que está claro o impacto que o Homem do Amanhã tem nos dias de HOJE. Como bons exemplos podem se tornar faróis que indicam a tal da luz no fim do túnel e, portanto, ajudar a semear toda uma geração de novos bons exemplos. “Não sou eu que os inspiro, mas sim ELES que me inspiram”, afirma o Azulão em determinado momento. Faz todo o sentido.

Tá bom, tem lá uns momentos interessantes (e outros nem tanto, sejamos honestos aqui) em que o assunto gira apenas e tão somente em torno do Homem de Aço e os mais diferentes aspectos de sua própria existência.

É o caso de The Fifth Season, de Scott Snyder e Rafael Albuquerque, uma história linda e tocante sobre a relação entre o herói e Lex Luthor, que em um encontro num planetário, mostra o quanto ambos, cada um a sua forma, estão apenas querendo preencher seus próprios vácuos de família/identidade. Funciona MUITO melhor do que The Game, da dupla Paul Levitz / Neil Adams, que é uma espécie de jogo de xadrez entre os dois, uma história com potencial mas meio óbvia, que infelizmente se foca mais no começo e no fim do que onde importa: o meio.

Outro que manda bem é Tom King, o novo queridinho dos gibis norte-americanos, que em Of Tomorrow faz ótimo uso da arte cheia de camadas de Clay Mann para falar sobre a relação de Kal-El com seus pais terrestres, Jonathan e Martha. Em pleno amanhã, tipo assim, bem amanhã MESMO, é hora das despedidas, em um monólogo inteligente sobre ciência, religião e principalmente sobre mitos e sobre como não passamos de poeira estelar. Já em Five Minutes, o traço clássico de Jerry Ordway emoldura a prosa de Louise Simonson sobre a relação do trabalho dele como repórter e como super-herói, traçando um paralelo entre Clark e Kal-El. “Uma boa reportagem é como olhar para um evento com olhar de raio X”, afirma o herói enquanto impede um acidente tentando voltar o mais rápido possível pro Planeta Diário a ponto de cumprir o deadline de sua matéria.

E preste bastante atenção em Actionland, de Paul Dini e José Luis García-López (um dos traços mais importantes e ao mesmo tempo mais subestimados da DC Comics), uma história com cheiro de clássico, que não vai mudar o mundo mas enche seus olhos e aquece seu coração de fã, sobre um parque de diversões temático do Superman em algum lugar da galáxia, uma viagem de primeira classe numa “aula” sobre a lenda.

Tudo isso é bem legal enquanto homenagem. Mas quando as histórias ajudam a definir DE FATO o impacto que o Superman tem em Metrópolis e no mundo, seja ele ficcional ou não, é que este gibi de número 1000 brilha mesmo. E é aqui que aqueles sujeitos branquelos, a cristalização do estereótipo raivoso do Comic Book Guy, devem se enfurecer. Porque a revista já abre com From The City That Has Everything, de Dan Jurgens & Norm Rapmund. Uma história sobre um “Superman Day” promovido pela prefeitura da cidade. Com depoimentos dos cidadãos que foram impactados por ele. E que só ajudam a delinear a imagem do Supinho como sendo um... que rufem os tambores, que se acendam as tochas... SJW.

Sinto que, tal qual a segunda temporada de Legion, vamos ouvir muitos dentes rangendo neste trecho do texto. ;)

O momento mais crucial da história é quando, depois de um bombeiro e da própria Capitão Maggie Sawyer (chefe da Unidade de Crimes Especiais), sobe ao palco e assume o microfone um sujeito comum. Um cara que foi capanga de um monte de supervilões. Um ex-criminoso. Um cara da periferia que fez as escolhas erradas e que foi OUVIDO pelo Superman. “Ele entendeu o ciclo de pobreza e violência que passei e me fez enxergar que eu podia tentar um caminho diferente”. A lição que Clark, disfarçado no meio da multidão, deixa para o filho Jon, que estava indignado com um “bandido” falando numa homenagem ao Superman, é: “As pessoas sempre devem ter esperança”.

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Esta é igualmente a ideia de An Enemy Within, de Marv Wolfman e que é, também a seu modo, uma homenagem a Curt Swan, o responsável pelo visual mais conhecido do Super. Dividido entre ameaças de Brainiac em Tóquio e Metrópolis, o Superman divaga “como escolho onde estou? Porque, apesar de meus poderes, não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo”. E logo ele crava: “eu sei que sempre faço a escolha certa porque os os cidadãos da Terra são os verdadeiros heróis. Eles são teimosos, indomáveis. E eu ainda sou aquele que eles chamam de Superman”. Sacou o lance aqui?

The Car, uma dobradinha de Geoff Johns e Richard Donner (ótima escolha!) com a arte lindíssima de Olivier Coipel em uma história também sobre segundas chances. O Superman detém um criminoso, um valentão, um bully por natureza, e conversa com ele sobre seu passado, que o herói teve tempo de investigar. Alguém que perdeu os pais muito cedo, que tentou descontar no mundo tudo o que sofreu. E, entendendo o seu lado, o Superman lhe apresenta O OUTRO lado. Um lado que ele igualmente enxerga em Faster Than a Speeding Bullet.

Nesta penúltima história, com texto de Brad Meltzer (tomara que ele volte logo aos gibis!) e os desenhos sempre elegantes de John Cassaday, conhecemos uma menina chamada Lila, que encara um sujeito com uma arma na mão, daquele tipo que não tem nada a perder. “Estes são os vilões mais perigosos de todos”, confessa o Homem de Aço. Mas Lila é uma pessoa boa. Daquelas que, conforme o herói declara para Lois assim que chega em casa, fazem cada um de seus dias valer a pena.

No fim, o que a gente entende aqui é que, mais do que Krypton e demais planetas ao redor do cosmos, monstrengos gigantescos cheios de espinhos, cientistas loucos que querem dominar o mundo, alienígenas com sede de destruição e o pacotão completo, uma boa história do Superman é sobre LEGADO. Sobre como ele pode INSPIRAR. E ajudar os humanos a entenderem que, mesmo sem capa, sem poder voar, sem poder parar um trem, eles também têm a chance de fazer a diferença.

E depois desta lição é que FINALMENTE vem a última história da revista, The Truth, desenhada por Jim Lee e escrita pelo mais novo talento da casa, Brian Michael Bendis. É, sim, o primeiro passo pras novas tramas que o roteirista vai apresentar assim que assumir os gibis do Superman. Numa luta que parece se passar algum tempo no futuro, conhecemos o tal novo vilão blockbuster sobre o qual Bendis tinha falado, um grandalhão de nome Rogol Zaar, que “limpou o universo da praga kryptoniana”. Ele afirma que sabia que o poder do sol amarelo daria vantagens para Kal e sua prima, lhes permitiria ter superpoderes. “Mas você lutou com muito mais espírito do que imaginei que seria possível”, diz a criatura de machado na mão. “Sua linhagem deve acabar. Como eu prometi para Jor-El”. EITA.

Mas sabe onde a coisa fica de verdade bem interessante? Quando a gente percebe que, conforme Bendis tinha mesmo prometido, a população de Metrópolis vai ter um papel fundamental aqui. Como nas histórias que o Meltzer, o Wolfman e o Jurgens mostraram algumas páginas antes. Caído no meio dos escombros de um restaurante, ele é resgatado por duas mulheres, que tentam escondê-lo de Rogol Zaar. “Ele está usando a cueca vermelha de novo”, diz uma delas. “É, ele fica melhor assim. Este é ele de verdade”.

Tá aí o recado. Que é menos sobre uma cueca por cima da calça e mais sobre SÍMBOLOS. Daqueles que fazem uma falta danada na cultura pop e na vida.