Adrenaline Mob: de supergrupo à banda forjada na tragédia | Judão

Poucos dias antes do acidente que tiraria a vida do baixista David Z, conversamos com o vocalista Russell Allen sobre o novo álbum e a incrível capacidade do grupo para se reerguer

“O Adrenaline Mob novamente aquece a concorrida cena musical do heavy metal com o lançamento do empolgante We The People. Um retorno triunfal tanto musicalmente falando quanto em termos de superação”. Era assim que eu abria, originalmente, o texto enviado aos editores do JUDÃO trazendo uma entrevista exclusiva com Russell Allen, frontman e cocriador do grupo. A tal “superação” dizia respeito à perda de AJ Pero, ex-baterista do Twisted Sister e que estava no comando das baquetas do Adrenaline Mob.

Por uma destas coincidências terríveis do destino, no exato mesmo dia em que escrevi essas palavras, dia 14 de Julho, o grupo se envolveu em um grave acidente na estrada em direção à cidade de St. Petersburg, na Flórida, enquanto o seu trailer estava parado no acostamento, trocando um pneu furado, e acabou atingido por outro carro fora de controle. Entre os feridos, uma fatalidade: morreu seu novo baixista, David Zablidowsky, conhecido como Dave Z, lembrado principalmente por seu trabalho com a Trans-Siberian Orchestra e na banda solo de Jeff Scott Soto.

Chegamos a pensar se faria, inclusive, sentido publicar este material. Mas quando conversou com a gente, diretamente da Califórnia, de onde seguiriam com esta turnê pelos EUA, Allen falou com tanto orgulho de todo o trabalho duro que a banda vem realizando, que achamos que seria justo lhe dar o espaço devido pra falar a respeito. “Tem sido uma jornada bem difícil pra essa banda e de uma maneira ou outra conseguimos seguir em frente, mesmo com tantas dificuldades”, afirmou. “Nós encaramos sempre como um recomeço o que é muito difícil, mas tentamos sempre manter o otimismo”.

Além disso, We The People é daqueles álbuns que têm tanta coisa boa, repletos de uma energia e um dinamismo tão contagiantes, que merece destaque. “Estamos muito felizes com o resultado do novo disco. Temos recebido muitas críticas positivas da imprensa em geral”, conta Allen. “O álbum está mais pesado, sim, mas também você vai perceber que minha voz está mais cristalina já que venho cantando de maneira mais limpa. Nós optamos por priorizar mais harmonias e no geral tentamos melhorar o que já vinhamos acertando: sentimos que aumentamos muito o nível, o que nos deixa muito orgulhosos do resultado final”.

Tem sido uma jornada bem difícil pra essa banda e de uma maneira ou outra conseguimos seguir em frente, mesmo com tantas dificuldades

Aquele metalzão mais cadenciado e focado bastante nos pesados riffs de guitarra de Mike Orlando se torna bem perceptível em faixas como King of the Ring, contando com a inconfundível voz de Allen, dessa vez carregada de muita melodia e deixando o seu característico drive um pouco de lado. E é verdade: apesar do peso, da velocidade e do groove reinarem no álbum (basta ouvir Til the Head Explodes, What You re Made Of e Ignorance & Breed, por exemplo), tem espaço de sobra pra refrões grudentos. Dá uma checada em The Killer’s Inside, Bleeding Hands e, principalmente, na belíssima Chasing Dragons, um dos grandes momentos do disco não apenas pela qualidade da canção mas também pela letra, uma mensagem poderosa contra as drogas.

Em resumo, este é um trabalho que chega justamente pra tirar quaisquer dúvidas de que a banda é muito mais do que um mero projeto paralelo pros seus integrantes. O cantor deixa claro que o Adrenaline Mob nasceu para ser uma BANDA mesmo, com planos a longo prazo. “Apesar de sabermos da boa reputação dos músicos que estão e já passaram por aqui, como o Mike Portnoy (ex-Dream Theater), nós não gostamos do rótulo de supergrupo. Se você reparar bem, supergrupos não duram muito tempo. Nós queremos vida longa ao Adrenaline Mob”.

Ele diz que sabe muito bem dividir e gerenciar seu tempo com sua outra atividade, o grupo de metal progressivo Symphony X (que anda meio parado, isso é verdade), preferindo inclusive chamar a si mesmo de vocalista e não líder. “Mantendo essa atitude, nossas carreiras vão avançando, sem perdemos a paixão pelo que fazemos. Eu sou um lutador, eu quero que as pessoas entendam que isso é sim uma banda. Mesmo com todos os desafios, consegui vencer e tenho muito orgulho do que conquistei. Tudo que posso fazer é trabalhar duro e focar minhas energias”.

E ele ainda descarta que os trabalhos que os músicos do Mob fazem fora da banda tenham influenciado a composição do novo álbum. Pelo menos, não diretamente. “Eu acho que tem mais a ver com a experiência que temos acumulado durante os anos em nossas outras bandas e projetos. De uma maneira ou de outra trazemos essa bagagem para o Adrenaline Mob de um jeito até inconsciente”, explica. “Nós tomamos cuidado para não soarmos uma cópia de nossos outros projetos musicais, e acho que isso é o que faz que a identidade do Adrenaline Mob seja tão forte”.

As raízes da banda remontam ao ano de 2005, quando Allen conheceu Mike Orlando. O cantor estava finalizando seu disco solo, Atomic Soul, quando foi ver um show do guitarrista em uma pequena casa noturna. “Fui atrás do material que ele já havia gravado com outros grupos, inclusive seu projeto Sonic Stomp. Daí pensei: esse cara é muito grande pra estar ali, naquele lugar minúsculo!”. Eles entraram em contato um com o outro, começaram a trocar ideias mas cada uma delas foi sendo engavetada, sempre esperando encontrar as pessoas certas praquele material ser enfim gravado.

“Pessoalmente, foi uma época muito difícil pra mim por conta da minha filha diagnosticada com autismo. Eu me perguntava como ela ia enfrentar essa vida, mas isso serviu de inspiração pra eu batalhar e registrar minhas ideias para um dia executar com o Mike”, revela. “Certo dia, criei coragem e fui até o Mike Portnoy e mostrei a nossa demo. Foi assim que aconteceu a primeira formação e gravamos finalmente o Omertá”.

Obviamente, a turnê que seguiria pelos EUA até meados de setembro, ao lado do Righteous Vendetta, teve grande parte das datas já canceladas. Não se sabe exatamente nem como e se ela vai continuar; muito menos se a notícia que recebemos em primeira mão, sobre uma turnê europeia ao lado dos brasileiros do Angra, seguirá em frente ainda este ano ou será adiada, assim como os tais planos de pintar por aqui, na América do Sul, no começo do ano que vem. Na real, nem Allen e nem Orlando sequer falaram ainda a respeito sobre o que será do grupo daqui pra frente, tudo ainda é muito recente e mesmo eles ainda se recuperam de ferimentos sofridos de alguma forma.

Mas, se a gente levar We The People em consideração, esta é daquelas bandas que merecem ter força pra se levantar de novo. “Acho que é o melhor momento do Adrenaline Mob em termos de qualidade, da maneira como tocamos. Tem muita parceria também, nos momentos bons e ruins da banda, e isso acabou refletindo na boa música que estamos fazendo. As pessoas estão reconhecendo”, disse Allen. E nós aqui não apenas reconhecemos, mas concordamos com ele.

Porque é como diz a letra da música deles mesmos: “Stand up and show me what you’re made of / And tell em what you need to say / Just stand up and shout it and be all about it / And tell em that you’re here to stay”.