Novas máscaras cobrindo novos rostos | Judão

Em uma enorme carta publicada em seu perfil no Instagram, showrunner da adaptação para as telinhas do clássico escrito por Alan Moore faz uma verdadeira declaração de amor à obra original, contando uma bela história sobre o próprio pai e revelando que esta será uma trama ORIGINAL

Ao longo de toda aquela polêmica envolvendo os Thundercats, li uma espécie de “texto-resposta” à nossa matéria aqui do JUDAO.com.br e também a tantos outros sites de cultura pop que, entre outras coisas, dizia que os Gatos de Thundera deveriam ter sido “respeitados” porque “o clássico e a essência vem em primeiro lugar”.

Bom, sabe quem parece meio que discordar dessa ideia de respeito e entender muito bem o que significa essa coisa de clássico e essência em primeiro lugar (que, spoiler, NÃO é o que certas pessoas parecem abraçar)? Um senhor chamado Damon Lindelof que, em uma longa e emocionada carta publicada no Instagram, descreve a si mesmo como escritor e também como “o bastardo inescrupuloso que está atualmente profanando algo que vocês amam”. No caso, ele tá é falando de seu papel como showrunner de Lost do piloto da série de TV baseada em Watchmen, aquele ícone sagrado dos quadrinhos de super-heróis, do qual Lindelof faz QUESTÃO de deixar claro que também é fã. Aliás, não somente um fã comum. Mas alguém que partilha uma história emocionante com a obra e o próprio pai.

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Na MISSIVA, Damon revela o momento crucial em que seu pai lhe apresentou a obra quando tinha apenas 12 anos; como, aos 15, viu o coroa ficar PUTO em uma convenção ao comprar de um cara uma “cópia autêntica” do roteiro da adaptação da parada para os cinemas e descobrir uma cena na qual os Watchmen (?) lutavam contra terroristas na Estátua da Liberdade (“mas que porra é essa?”); logo depois, aos 23, já morando em Los Angeles, quando ganhou do pai uma nova edição da série; e aos 29, quando o pai morreu numa cama de hospital e ele se pegou rezando para diversos deuses, incluindo um tal Doutor Manhattan.

“Agora eu tenho 45 anos e estou escrevendo uma carta para os fãs. Os fãs de Watchmen. É desnecessariamente longa e um verdadeiro exercício de compartilhamento excessivo de informações. Mas nada traz mais as pessoas pro seu lado do que contar para completos estranhos sobre o momento da morte de seu pai”, escreve ele.

Lindelof ainda conta que, quando tinha 38 anos, recebeu seu primeiro convite pra levar Watchmen pra TV, quando a adaptação de Zack Snyder tinha saído havia menos de 1 ano. E ele disse não. Aos 40 anos, então, veio outro, desta vez de um cara que nem sabia quem era o tal do Alan Moore. Damon negou mais uma vez. Mas aí, aos 43, dois anos atrás, veio o terceiro convite. “E eu sou um hipócrita agora”.

Na verdade, o que Damon Lindelof quer aqui é te mostrar que, sim, entende bem que Watchmen é um CLÁSSICO. Mas que isso não significa que não deva ser, de alguma forma, mexido, cutucado, revisitado, desconstruído. “Se você está bravo porque estou fazendo Watchmen, me desculpe. Você deve pensar que eu não devo estar me sentindo assim tão culpado porque ainda assim estou fazendo isso. Eu te dou este ponto”, afirma o sujeito. “Eu tenho um respeito de proporções imensas pelo Alan Moore, que é um cara que tem um talento de proporções míticas”. E aí Damon conta que escreveu uma carta, de conteúdo bastante similar, pro próprio autor inglês, pedindo pra que ele não lhe lance uma maldição. “Ele conhece magia e, aparentemente, pode fazer isso mesmo”. Mas o tom da resposta de Moore, se é que houve uma, Lindelof diz que fica apenas entre os dois.

“Não, eu não poderia fazer isso mas, ainda assim, me sinto compelido a fazê-lo”, continua. “Apesar de todas as respostas negativas, do ódio. (...) Vocês amam Watchmen. Isso dá a vocês o direito de odiar o que vou fazer”. No caso, o que ele já está fazendo, em uma sala de roteiristas que, segundo ele, está bem diversas; uma sala na qual ele, um homem branco hétero, é minoria. Todos reunidos com o objetivo de dar novo significado a um clássico que NÃO É INTOCÁVEL. Mas a grande graça está aí. Porque mexer com um clássico não quer dizer que eles não vão respeitar e/ou entender sua essência, ainda que desmontem suas peças.

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Então, agora oficialmente, Damon Lindelof nos conta que Watchmen, a série, não será uma adaptação direta dos gibis de Alan Moore e Dave Gibbons. E também não será uma prequência a la Before Watchmen. “Não vamos recriar, reproduzir ou rebootar. Vamos remixar”. AHÁ. “Estes 12 volumes originais serão o nosso Velho Testamento. Quando veio o Novo Testamento, nada daquilo deixou de acontecer. Não foi apagado. Aqui também é assim: o Comediante morreu, Dan e Laurie se apaixonaram, Ozymandias salvou o mundo e o Dr. Manhattan vazou depois de partir o Rorschach em pedaços na Antártida. Para ser exato, Watchmen é CANON”.

Mas a ideia, tampouco, é fazer uma sequência, uma continuação direta, ainda que a história se passe depois, no tempo presente. A intenção é que seja algo original dentro do mesmo universo, com novos personagens, novos rostos para vestirem novas máscaras — que, aliás, foi o jeito que o cara usou pra anunciar os atores já confirmados no elenco: Regina King, Don Johnson, Tim Blake Nelson, Louis Gossett Jr., Adelaide Clemens e Andrew Howard, todos sem pistas de quem vão interpretar ainda. Algo que vai ser contemporâneo e trazer novas questões. Algo que, da mesma forma que o original foi, nos anos 80, uma crítica direta a Reagan, Thatcher e Gorbachev, permita “ressoar na frequência de Trump, May e Putin”. O tom, promete ele, será renovado, sórdido, elétrico e absurdo. “As pessoas sempre descrevem Watchmen como sombrio mas sempre amei o seu humor — reverenciando o gênero ao mesmo tempo em que o trollava”.

Além dos novos personagens, a ideia é revisitar os justiceiros mascarados do século passado fazendo uso de um par de olhos surpreendente, mas familiar. “E é aqui que vamos nos arriscar ainda mais. O risco é imperativo. Eu preciso desta sensação no meu estômago que vem antes de pular de uma grande altura sem saber a profundidade da água lá embaixo”.

Regina King, Don Johnson, Tim Blake Nelson, Louis Gossett Jr., Adelaide Clemens e Andrew Howard: o elenco do piloto da série de Watchmen

Olha só, eu concordo, tem mesmo aquelas coisas que, de tão fechadas em si, parecem MESMO que não precisam ser mexidas de novo. Tipo Matrix — sério, o primeiro já tava bom, precisava daquelas continuações? Não, porra, nunca precisa DE VERDADE. Só que foram lá e fizeram, foi uma bosta... mas já pensou se fosse bom?

Eu mesmo, o cara que foi inicialmente contra Before Watchmen até que enfim leu alguns volumes e pensou “olha, até que isso não ficou de todo ruim”, aprendi que “tá bom, então, vamos ver no que dá”. Você pode espernear, ficar puto, discordar, tá tudo bem. Eu fico igualmente com uma porrada de coisas. Mas dá uma chance. Assiste, ainda que com a pulga atrás da orelha, mas de coração aberto.

Eu sou do tipo de leitor que é meio fã devotado da Igreja de São Alan Moore, o Mago da Rabugice Suprema, Amém. Mas preciso dizer que cada vez que vejo o Lindelof falando sobre o projeto me dá mais e mais vontade de assistir e de torcer pra que este tal piloto, aliás, seja tão bom que a HBO tope a ideia de uma série completa.

Conforme vou ficando mais velho e mais grisalho, acaba que vou ficando cada vez mais punk. Do tipo que grita “Viva os clássicos. E que os clássicos se fodam”.

Ele nunca vai admitir (e essa é a grande graça da coisa), mas no fundo Alan Moore ficaria orgulhoso.