Ainda bem que, enfim, as Lendas do Amanhã abraçaram a galhofa! | Judão

Patinho feio do Arrowverse, a série dos viajantes do tempo encosta o drama num canto e abraça o humor e a tiração de sarro consigo mesma nesta terceira temporada, incorporando de vez a Liga da Justiça Internacional

Quando os poderosos chefões do Arrowverse decidiram fazer uma série com um supergrupo formado pelos mais interessantes coadjuvantes a dar as caras até aquele momento em Arrow e Flash, a iniciativa foi de fato ambiciosa. A começar pelo nome: LEGENDS. Os caras, conforme o texto de abertura falava com pompa e circunstância, seriam mais do que heróis, seriam LENDAS. Isso não é pouco. Definitivamente, eles tavam mirando na honrosa tradição de grupos de supers da DC. Mas o mais engraçado é que eles miraram em uma Liga da Justiça e fracassaram miseravelmente. E só acertaram mesmo quando resolveram mirar em OUTRA Liga da Justiça.

Basicamente, tamos diante da temporada em que FINALMENTE Legends of Tomorrow se encontra dentro deste universo do CW. Demorou três anos, mas o patinho feio de Greg Berlanti, Andrew Kreisberg e toda a trupe, que vem comendo poeira repetidamente do arqueiro de Star City, do velocista de Central City e da garota de aço de National City, descobriu que não precisa ser nada parecido com seus primos para dar certo.

É hora de deixar a zoeira tomar conta. É hora de ser o engraçadinho da turma, de perder o medo de rir de si mesmo, de se sacanear. É hora de abraçar a galhofa, beijá-la na boca e casar com ela, fazendo juras de amor eterno. Esta é a fórmula de LoT. E que eles vêm explorando lindamente desde que este terceiro ano começou e, principalmente, no mais recentemente episódio, o S03E04, batizado de Phone Home.

Em tempos de It – A Coisa, o time foi parar nos anos 80, onde um pequeno bebê alien da raça dos domínions — é, aqueles mesmos que foram os vilões do crossover das quatro séries no ano passado — vai parar na cidadezinha onde mora a versão criança de Ray Palmer. Rapidamente, a coisa escala para uma paródia do ET do Spielberg, com direito a pequenas referências oitentistas escondidas na trama e nos cenários, chegando a uma HILÁRIA sequência musical de Dançando na Chuva, sem perder a mão da fofura infantil, da delicadeza com a imaginação do moleque. De longe, sem exagero, talvez um dos melhores episódios da série toda até o momento. Talvez até O melhor.

Não é a leveza do Flash (ou, pelo menos, aquela que a gente tava esperando que ele voltasse a ter). Não é a nobreza cheia de significado da Supergirl ou a transformação do Arqueiro Verde em sua jornada do herói. É outra coisa. É simplesmente... bom humor. Sim, sim, já tamos aqui esperando vocês dizerem “putz, agora cêis querem que tudo seja risadinha, tudo seja Marvel”. Nem de longe, meu velho. Mas que este é um canto que ainda não tinha sido plenamente explorado na telinha do CW, ainda que suas séries sejam nitidamente mais ILUMINADAS do que o atual cenário da DC nos cinemas.

É quase uma sátira. O Arrowverse apontando pros seus próprios exageros e gargalhando. O que é genial. E não tem NADA de errado nisso.

Na temporada inaugural, as Lendas do Amanhã queriam ser ÉPICOS, guerreiros icônicos corrigindo imperfeições temporais para salvar o mundo semanalmente, mas se perderam no meio do caminho com alguns episódios mequetrefes que pareciam se esquecer completamente da trama principal com o vilão Vandal Savage. A escorregada na bosta do meio do caminho virou um verdadeiro mergulho de estrume em uma segunda temporada que, apesar da ideia simpática de Legion of Doom com seus vilões incríveis e carismáticos, tentou ser mais dramática do que deveria e acabou ficando pau a pau com a choradeira do casal Barry-Iris em The Flash. Isso sem falar nas intrincadas teorias sobre viagem no tempo que, mesmo amparadas pela pseudo-ciência super-heroística, se entrelaçavam e enrolavam de um jeito que não convencia ninguém.

Em 80% do ano dois, eu assistia aos episódios pensando “caralho, o que eu estou fazendo com a minha vida, por que estou perdendo tempo com isso?”. Meio como tá rolando com os Inumanos, sacou? Só que tinha ali uns 20% que, hum, mostravam um caminho interessante. O ápice foi a maravilhosa história na qual eles viajaram para os anos 70, com o objetivo de garantir que um jovem estudante de cinema chamado George Lucas continuasse sua carreira sem medo. Porque, afinal, foi graças a Star Wars que Ray, aka Átomo, virou cientista, assim como foi graças a Indiana Jones que Nathan Heywood se tornou arqueólogo. Percebeu o impasse?

Isso aí. O clima era este. Sabe do que estou falando? Da Liga da Justiça Internacional. Danem-se as teorias sobre deslocamento temporal. Foca na piração, nas interações entre os personagens, nos diálogos na sala de comando. É mais isso até do que cenas de ação, do que uniformes, do que efeitos especiais. É menos Rip Hunter e mais Ray e Nate.

O que parecia ser um exagero do tipo “ai, não, jura que eles fizeram isso?” ao final da temporada de número 2, aquela coisa dos dinossauros percorrendo uma Los Angeles que tinha até o Big Ben na paisagem urbana, durou só cinco minutos no começo desta terceira temporada, promovendo uma bem-vinda correção de rota. Basicamente, as Lendas são Lendas apenas no nome. Eles são, isso sim, um bando de perdedores que causaram uma puta zona na linha do tempo e deveriam ser afastados da função, para deixarem os verdadeiros profissionais trabalharem. Mudou até o monólogo de abertura. Sabe o que os heróis DE VERDADE pensavam da JLI conduzida por Maxwell Lord nas HQs? Bem por aí. E o que é pior: olha, eles não tavam de todo errados, viu? Porque de boas intenções, o inferno tá cheio.

Temos aí um bureau internacional ultraespecializado em viagens no tempo, tentando manter tudo sob controle. E temos uma nave cheia de malucos com problemas graves de autocontrole se metendo em missões que envolvem disrupções temporais, um Julio César saindo de Roma e indo parar na Aruba dos dias de hoje. Como isso aconteceu? Um efeito colateral de todas as merdas irresponsáveis que eles fizeram nas duas primeiras temporadas. Qual a explicação? Qual o sentido?

SIMPLESMENTE NÃO PRECISAMOS DISSO E ESTAMOS BEM ASSIM.

“Nós nunca teríamos Superman, Mulher-Maravilha, Hal Jordan, etc. A DC não os queria. E, no final, era realmente a nossa vantagem”, explicou o roteirista J.M. DeMatteis, quando falamos com ele sobre os 30 anos da Liga BWAHAHAHA. “Ao trabalhar com os personagens de segunda linha, nós tivemos muita vantagem para brincar, para criar uma revista que era única”. Tudo indica que Berlanti e sua galera sacaram issaê também.

O bromance de Ray e Nate é CLARAMENTE uma emulação do Gladiador Dourado e do Besouro Azul. E a adorável ogrice e rabugice de Mick Rory, o Onda Térmica, fazem dele o Guy Gardner perfeito. Isso sem contar a liderança cheia de decisões questionáveis da cada vez mais incrível Sara Lance, vivendo seu momento mais sublime desde que usava a máscara de Canário e patrulhava as ruas comparando a quantidade de cicatrizes com o ex-namorado Oliver.

De verdade, eu espero que nem a revelação da grande vilã da temporada — Kuasa, irmã da Vixen da série animada — e nem o crossover apoteótico com ares de Crise nas Infinitas Terras tirem este clima da série. Aliás, digo até mais: “Eu já escrevi para várias séries animadas da DC e trabalhei em vários dos filmes animados deles, e seria ótimo poder contribuir para as séries live-action, também”, confessou o DeMatteis pra gente.

Tudo que temos a dizer é que assinamos embaixo, tipo assim, MUITO.