Alan Rickman sentia que Snape poderia ser muito mais | Judão

Cartas leiloadas revelam a frustração do ator, morto em 2016, com o personagem que interpretou nos filmes do Harry Potter

Alan Rickman foi um ator inglês que tinha muito, muito apreço mesmo pelas questões pessoais de seus personagens. Ele era um daqueles artistas que são mesmo APAIXONADOS pelo teatro. Foi integrante da Royal Shakespeare Company, indicado a Tony Awards e só foi parar no cinema aos 41 anos fazendo aquele terrorista inesquecível de Duro de Matar, Hans Gruber.

Ao longo de sua carreira, ele destacou bem o comprometimento que tinha com a complexidade de quem interpretava. Ao Guardian, em 2015, falou sobre como colocou seu toque em Hans. Ele entregou ao produtor Joel Silver sugestões de mudança de figurino e uma cena em que fingiria ser um dos reféns. Joel ficou PUTO DA VIDA: “Ele falou para mim ‘para com essa porra, você vai usar o que te mandarem usar.’ Mas, quando voltei, me entregaram um novo roteiro. Aquilo me mostrou que vale a pena ter um pouco de experiência teatral.”

Na mesma entrevista, ele contou detalhes sobre a construção de Severus Snape na franquia Harry Potter. “Jo Rowling me deu uma informação, não era nem um fato – e eu prometi que não contaria pra ninguém, e nunca contarei”, falou. “Isso me fez entender que, em qualquer circunstância, eu precisava seguir dois caminhos com Snape até que todos os fatos se apresentassem. Eu sabia que havia ambiguidade.”

Com alguns de seus objetos pessoais sendo leiloados, em Londres, o mundo teve acesso a algumas cartas em que o ator demonstra uma certa chateação com a importância dada a Severus nos filmes. Uma das cartas é de 2009 e tem como título “Entrando na mente de Snape” e traz um trecho que diz “É como se David Yates [diretor do filme] tivesse decidido que isso [Snape e suas nuances] não tivessem importância na obra como um todo, ou seja, sem apelo entre o público adolescente.” Na época, eles gravavam Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

Outro escrito que faz parte da coleção traz David Hayman, produtor que escolheu Rickman para os filmes, fazendo elogios ao trabalho do ator e referindo-se a uma certa insatisfação: “Obrigado por fazer de HP2 [Harry Potter e a Câmara Secreta] um sucesso”, escreveu. “Eu sei que às vezes você fica frustrado, mas saiba que é parte integral dos filmes. E você é brilhante.”

Harry Potter é um produto infanto-juvenil em sua raíz e Alan talvez tivesse razão em conectar a irrelevância de tooodos os tons de Snape com a falta de interesse da audiência. Se os espectadores responderiam melhor a uma estrutura mais maniqueísta naquele momento, aquilo aconteceria e pronto. Não é raro que os números e críticas em uma série de filmes tão aclamada falem bem mais alto do que toda a experiência e potencial de um ator como ele. E é aquilo: agradar o público nem sempre é garantia do melhor encaminhamento de uma narrativa – mas, nesse caso, mesmo o trabalho sem um completo capricho foi BEM incrível. Porque Alan Rickman era foda demais. <3