ENTREVISTA! Robert Rodriguez fala sobre Alita: Anjo de Combate

No dia em que o primeiro trailer do filme foi divulgado (e meio que virou piada nas redes sociais), batemos um papo com o diretor Robert Rodriguez e o produtor Jon Landau sobre o projeto dos sonhos de James Cameron

Criado por Yukito Kishiro e publicado pela primeira vez no Japão em 1990, o mangá Gunnm foi apresentado a James Cameron em 1999 por um cara chamado Guillermo Del Toro. É mais ou menos desde esse dia que o diretor de Aliens, Exterminador do Futuro, True Lies e Titanic pensa em transformar a história Alita em filme.

Ele até chegou a registrar um tal de BattleAngelAlita.com com planos de dirigir ele mesmo a produção, mas aí surgiu um filme pequeno e independente chamado Avatar e aí já viu.

Muitas idas e vindas rolaram no meio do caminho, com o nosso amigo Jim garantindo a cada entrevista que era questionado que Alita iria de fato acontecer, nem que para isso ele tivesse que abrir mão da direção e ficar apenas na produção — que foi o que acabou acontecendo, mesmo. Em 2015, Robert Rodriguez entrou no projeto e o resto é história. “O roteiro do Jim tinha mais de 180 páginas e ele ainda me deu outras 600 com anotações”, explicou Rodriguez, em entrevista ao JUDAO.com.br. “Eu não tinha só o mundo do Kishiro para trabalhar, mas também o storytelling fantástico do Jim para contar a minha história”.

Bom, você já pode sentir um pouco do que deve ser o resultado final desta edição no trailer de Alita: Anjo de Combate aí embaixo. Dá o play que gente conversa a seguir. :)

Gunnm, que segundo o Google pode ser traduzido como “sonho da arma”, foi publicada em nove tankōbon — mais ou menos o equivalente aos trade paperbacks do mercado americano — entre 1990 e 1995, gerando ainda em 1993 um OVA que adaptou os dois primeiros volumes e permanece a única adaptação pra anime até o momento. “Vamos na verdade fazer uma mistura dos quadrinhos e da animação”, conta o produtor Jon Landau, também em entrevista ao JUDAO.com.br. “Mas, por exemplo, não vamos nos inspirar apenas em um dos gibis. Buscamos inspiração pelo menos nos quatro primeiros volumes da série para criar uma única história pro cinema”.

Resumidamente, Battle Angel Alita conta a história de uma cyborg cuja cabeça, sem memória, e parte do peito são encontrados num lixão no que outrora foram os Estados Unidos em um futuro distópico e pós-apocalíptico (que alguns chamam simplesmente de “2017”). O cybermédico Daisuke Ido não apenas a revive como lhe dá um nome, Alita, em homenagem ao seu gato morto.

Devidamente reconstruída, eis que ela se lembra da lendária arte marcial Panzer Kunst, tornando-se uma guerreira-caçadora mercenária que mata cyborgs criminosos na metrópole conhecida como Scrapyard (que fica perto de onde foi Kansas City um dia) — ao mesmo tempo em que vira jogadora e expert na prática de um esporte brutal conhecido como Motorball. Lá pra frente, ela se envolve com a galera da cidade flutuante de Tiphares e se torna uma de suas agentes, conhecendo o gênio maluco de nome Desty Nova...

É, você reparou, né? Quando Gunnm foi lançado nos EUA, acabou batizado de Battle Angel Alita, o nome pelo qual se tornou internacionalmente acontecido. “Nós mudamos o nome porque enxergamos isso como uma franquia em potencial”, conta o produtor. “E queremos manter o nome ‘Alita’ como algo consistente. Então, podemos mudar o subtítulo numa eventual continuação, de repente ir com um ‘Alita: Fallen Angel’ a seguir. Ou ‘Alita: Revenging Angel’, entendeu?”. Robert Rodriguez, no entanto, complementa dizendo que este é o grande motivo, mas não o único. “Estamos seguindo a tradição do Jim Cameron de só fazer filmes com T e A no título. Terminator, Avatar, True Lies, Titanic, Alien. Não dava pra aparecer um Battle Angel. Eu é que não vou assumir este risco aí”, gargalha ele, na sequência.

Robert Rodriguez e Jon Landau

Quem assistiu ao trailer muito provavelmente teve algum tipo de sonho bizarro (e assustador) com aqueles olhos gigantescos da nossa heroína. Não é como se fosse possível deixar de notar... E dá uma puta aflição, né?

Caso tenha ficado alguma dúvida, sim, a escolha foi PROPOSITAL, conforme nos garantiram Rodriguez e Landau. Uma ideia que vem lá de trás, dos storyboards originais do Cameron. “Entendi que a ideia era realmente prestar uma homenagem aos mangás. Mas ainda não existia tecnologia pra isso. Você desenha a Alita, você vai desenhá-la com os olhos grandes, da mesma forma que o Astro Boy ou qualquer personagem dos quadrinhos japoneses”, justifica ele. “O design da Alita tinha os olhos grandes e pudemos fazer isso pela primeira vez de uma maneira que pareça real. Fiquei muito empolgado em poder reproduzir isso, trabalhando com a WETA Digital”.

Bom, não é só porque você CONSEGUE que realmente PRECISA fazer, né? 😬

Para Landau, o filme teria sido muito mais simples de se fazer se a protagonista, a atriz Rosa Salazar, fosse apenas e tão somente filmada normalmente. “Mas isso não seria prestar o tributo que queríamos prestar à história dos mangás, finalmente trazendo-os às telas do jeito que deveriam”.

O design da Alita tinha os olhos grandes e pudemos fazer isso pela primeira vez de uma maneira que pareça real. (...) A ideia era realmente prestar uma homenagem aos mangás

Bom, olha só, deixa eu fazer um parênteses aqui: pelo que o trailer dá a entender, a Alita é a ÚNICA personagem do filme com estes olhos gigantes e desproporcionais. Entendo quando eles dizem que querem fazer uma “homenagem” aos mangás, que usam este recurso visual notadamente. Mas vejam só, cabe aqui uma pequena lição de história: um dos papas dos mangás, ninguém menos do que Osamu Tesuka (criador do Astro Boy que Rodriguez menciona, aliás), pode ser considerado precursor do uso destes olhos. Historicamente, já se sabe que ele foi influenciado pelo trabalho de Max Fleischer (da Betty Boop) e pelas mais de OITENTA vezes que viu Bambi, de Walt Disney, obra pela qual desenvolveu uma ligeira obsessão. Veja Betty, veja os personagens de Bambi e você vai sacar a inspiração.

Esqueça DE UMA VEZ este argumento preconceituoso e babaca de que “aí, mangá tem olhão pra compensar os olhos puxados dos japoneses”. Não, amigão. Tesuka começou a usar o recurso para explorar mais a expressividade do olhar, em especial nas personagens femininas, o que virou mais ou menos uma regra nos mangás. Tanto é que o recurso é muito mais amplamente utilizado nas histórias mais dramáticas, mais emocionais, ou então naquelas com mais humor. Já tramas mais focadas em ação, mais sombrias, mais obscuras, tendem a usar olhos menores, por mais que as mulheres ainda tenham olhos ligeiramente maiores. Como a Alita.

Eu juro que entenderia se a ideia fosse que TODOS os personagens do filme tivessem este olhão, de uma forma ou de outra. Talvez não concordasse. Mas entenderia. Talvez todos os cyborgs, sei lá. Só que colocar este recurso visual em somente UMA das personagens do filme apenas por colocar vira meramente um recurso carnavalesco e não narrativo. “Olha, ela tem OLHÃO, viu? É homenagem aos mangás”. Uau. Mas por que ela e não os outros? Isso tem algum motivo prático? Porque, sejamos francos, a diferença é gritante, não faz sentido ninguém sequer mencionar isso.

No todo, pelo menos até o momento, uma homenagem bem da capenga, eu diria.

A gente ainda aproveitou o papo — que, infelizmente, durou meros cinco minutos RISOS — pra tentar colocar na roda o whitewashing, assunto bastante discutido quando se fala de adaptações americanas de obras orientais. Jon Landau acredita que, de alguma forma, o aspecto global da obra de Kishiro a protege de algum tipo de controvérsia, como rolou no caso de Ghost in The Shell, por exemplo. “O que Jim Cameron mais gostou sobre Alita sempre foi que a história tinha uma protagonista feminina que poderia se conectar com uma audiência universal”, conta ele. “Quase sempre, nos mangás, a história se passa na Ásia, com personagens asiáticos bastante específicos. Mas não é o que acontece com Alita. Kishiro construiu um mundo que é um caldeirão de culturas que basicamente está no Kansas. É um lugar onde pessoas de todos os lugares se encontram depois da grande queda”. Para ele, isso alivia um pouco do “fardo”.

Já para Rodriguez, as escolhas de elenco talvez fossem mais difíceis de entender se a gente tivesse uma história como Akira — que se passa em Neo-Tokyo e que tem uma forte ligação com a cultura japonesa. “É uma história que, se você leva pra outro lugar do mundo, talvez não tenha o mesmo significado”, completa. “O próprio Kishiro é um grande fã do que o Robert e nós estamos fazendo com o filme”, afirma Landau. “Em sua primeira viagem aos EUA, ele visitou o set na Troublemaker Studios, em Austin (Texas), abriu uma porta e de repente estava dentro do mundo que tinha criado. E nos disse que estava agradecido porque fomos muito fiéis ao que ele criou, que não nos desviamos daquilo — pelo menos, não mais do que precisávamos para contar aquela história”.

Muito legal que o autor esteja satisfeito. Entendo que a trama do gibi original se passe nos EUA e que grande parte dos personagens principais não sejam necessariamente japoneses. Acho até importante e louvável que este elenco do filme seja aparentemente bastante diverso, com negros, latinos, muitas mulheres. Legal.

PORÉM, todavia, contudo... Estamos falando de uma obra JAPONESA. A ideia, segundo consta, não era prestar tributo aos mangás, que são um produto cultural tipicamente japonês? Lindo. Então porque não homenageá-los dando papeis de destaque para atores japoneses ou de ascendência japonesa?

Fica aí a ideia. ;)

Alita: Anjo de Combate tem estreia prevista para 19 de Julho de 2018 no Brasil.