American Gods: uma ousada mistura de pesadelo colorido e road movie | JUDAO.com.br

Primeiro episódio mostra uma adaptação e modernização do que precisa do livro do Gaiman, retratando fielmente aquilo que faz sentido — tudo pra contar a melhor história possível numa plataforma diferente

Não tinha nem cinco minutos e o piloto de American Gods, a série de TV inspirada em um dos mais famosos e cultuados livros de Neil Gaiman, já tinha mostrado exatamente a que veio — o que, independente do resultado, é sempre um bom sinal. Honestidade acima de tudo.

Numa espécie de introdução batizada de Coming to America, que promete se repetir ao longo dos episódios, Mr. Ibis (Demore Barnes) conta como os vikings chegaram à América e foram recebidos com flechadas em uma terra estranha, quente, com mosquitos, que eles decidiram abandonar quase que imediatamente. Mas e o vento? Que simplesmente sumiu? Como diabos retornar ao barco e tentar se lançar mais uma vez ao mar? Que bosta, não? Era hora de pedir ajuda a Odin, seu deus-supremo que, digamos, também não parecia lá muito disposto a dar uma força...

Agora imagine tudo rolando em meio a um espetáculo visual com tomadas inesperadas, fartas doses de humor negro e um verdadeiro banho de sangue... Era um bom resumo do episódio que vinha pela frente. E se continuar assim, cortesia do mesmo Bryan Fuller que nos apresentou Hannibal, sinal de que tenho uma nova série favorita na temporada pra chamar de minha.

Além de um bom resumo, sem apelar para a obviedade e sem entregar demais as revelações da trama que quem leu a obra original já manja, de como os antigos deuses chegaram à uma terra nova e selvagem e como isso vai nortear o conflito entre as entidades antigas e as mais modernas, estamos falando de uma sequência que não existe no livro. Mas que funciona perfeitamente para a linguagem da TV. Uma decisão inteligente e ousada, que não tem medo de fazer o trabalho de uma ADAPTAÇÃO, apesar da chiadeira de costume.

Fuller e seu parceiro, o co-showrunner Michael Green, foram lá e fizeram o que era preciso para que um personagem como o Technical Boy (Bruce Langley), um deus da tecnologia, tivesse uma cara menos óbvia do que o nerd cheio de espinhas e socialmente inepto que Gaiman descreveu nas páginas do livro em 2001. Aqui, não apenas o seu visual e sua interpretação são diferentes, mais modernos e dinâmicos, um moleque insuportável como um daqueles pequenos gênios de Silicon Valley, como também o jeito que o protagonista Shadow Moon (Ricky Whittle) é convocado à sua presença faz muito mais sentido.

Só que, por outro lado, American Gods também é inteligente o bastante para conservar praticamente intocadas determinadas sequências da versão impressa quando isso fizer sentido. Que o diga a sensacional cena na qual a deusa Bilquis (Yetide Badaki) leva um pobre incauto que conheceu via um Tinder da vida para a sua cama e, numa das cenas de sexo mais estranhas e ao mesmo tempo lindas da história da TV, se alimenta da devoção do sujeito de uma forma que você jamais esperaria. Tudo começa de um jeito quente, poderoso, envolvente, excitante. E, conforme a câmera vai se mexendo, distorcendo e dando uma perspectiva diferente, o tesão vai virando aquele sensação de “putaquepariu, o que tá acontecendo aí?”. Sensacional. <3

Apesar de vermos as primeiras cenas da Bilquis e mesmo do leprechaun brigão chamado Mad Sweeney (Pablo Schreiber), essencialmente este primeiro episódio serve para nos apresentar ao coitado do Shadow Moon, um presidiário que acaba libertado dias antes do prazo previsto porque sua esposa morreu em uma acidente de carro. Justamente agora, que ele tinha um novo emprego com seu melhor amigo esperando por ele, para começar tudo outra vez ao lado de Laura. Como se não bastasse isso, conforme se mete numa puta viagem longa e cheia de roubadas pra chegar a tempo do velório da mulher amada, ele vai descobrindo que as circunstâncias da sua morte foram ainda mais complicadas e que seu grande amigo, olha só, também morreu. Ou seja: agora ele não tem um emprego e nem um amor esperando por ele. A tempestade com a qual vinha sonhando na cadeia nos últimos dias parece que realmente desabou em sua cabeça.

Whittle dá muita conta do recado. Além de ser um HOMÃO DA PORRA, ele resolve a maior parte das cenas caladão, no olhar, no jeito em que mexe a cabeça, nas mãos, em como muda o tom de voz. É uma interpretação sutil, mas bastante intensa, com a desconfiança humana que se esperava dele. Basta rever como ele vai reagindo durante a cena do cemitério, ao lado da esposa de seu melhor amigo, que é ao mesmo tempo engraçada e triste, daquele jeito que vai deixando quem assiste bastante desconfortável.

Um estilão bem diferente do que entrega, de maneira deliciosamente exagerada, Ian McShane como o Mr.Wednesday, o curioso e excêntrico sujeito que cruza o seu caminho mais de uma vez e parece ser mais sobre ele do que deveria. Além de ser ao mesmo tempo divertido e irritante, uma metralhadora que não para de falar um minuto, um trapaceiro por natureza, como se esperava, a química e a dinâmica entre os dois parecem funcionar exatamente na hora em que se encontram, o que é central para que a história de American Gods funcione, não importando o caminho que Fuller e Green resolvam tomar.

O ponto é que quando Wednesday oferece um trampo pro Shadow Moon (“mas que nome mais hippie”) como seu faz-tudo / guarda-costas, você já fica desesperadamente querendo mais destes momentos entre os dois, por trás do volante de um carro pelas estradas empoeiradas da América, só falando e falando enquanto o mundo cai ao seu redor. Acima de tudo, é disso que American Gods trata.

Cumprindo o papel de nos querer ver mais interações da dupla, metade do caminho já tá andado.

No mais, estamos diante de um episódio visualmente incrível, que abusa das cores em uma fotografia lindíssima, com uma trilha sonora sensacional, e que pode soar até um tanto confuso pra quem está tendo contato com este universo pela primeira vez. “E daí?”, parece pensar a equipe da série, naquela mesma pegada de Legion. Não é preciso ser didático, não tem que te pegar pela mão e te explicar cada coisinha. Tá tudo bem. Assim como o próprio Shadow Moon, você vai sacando as coisas aos pouquinhos, ainda que perca uma ou outra pelo meio do caminho. Ele, aliás, é um pouco a representação do próprio espectador conforme as coisas acontecem, de um jeito ao mesmo tempo espetacular e assustador, entre árvores ancestrais e búfalos com fogo pelo nariz.

É a vida, né? Ou quase.

Esse primeiro episódio definitivamente me pegou. Que os próximos sete tenham este mesmíssimo DNA, mas sem depender dele como uma muleta. Porque aposto que é exatamente isso que um autor como o Gaiman gostaria de ver acontecer com seus personagens.