Aniquilação: precisamos deixar o cinema ser cinema

A insistência pelo significado de mãe!, o lançamento de Aniquilação direto no Netflix… A audiência precisa deixar o cinema fazer o que faz de melhor.

Nunca foi nenhum tipo de segredo as intenções de Darren Aronofsky com mãe! (com letra minúscula AND ponto de exclamação). Ele queria chocar, ele queria machucar e ele queria fazer uma espécie de cautionary tale sobre como nós tratamos a natureza. Isso é bastante óbvio a partir de determinado segmento do filme, e em momento algum impediu as mais diversas interpretações sobre o que ele significava e o que eram aqueles personagens (e aquele negócio amarelo que a Jennifer Lawrence tomava e depois passou a jogar fora).

“O que fez você decidir rodar esse filme?”, perguntei eu ao diretor, em Setembro do ano passado, quando ele veio ao Brasil divulgar o filme. “Eu tinha algumas ideias flutuando por aí... Acho que começou com muita frustração sobre como a gente tá tratando a mãe natureza e eu queria contar um filme sob o seu ponto de vista”, respondeu Aronofsky, tranquilamente. “Aí eu meio que percebi que tinha uma outra história rolando, entre o Criador e a pessoa que cuidava dele e como o casamento deles começava a se desfazer. Então eu tinha várias linhas diferentes pra trabalhar e isso me deu material suficiente pra começar a pensar sobre e escrever”.

“Quando você fala sobre mãe natureza, faz todo o sentido com o filme, é óbvio”, continuei eu. “Ainda assim, muita gente tem diversas outras interpretações. Como é isso pra você?”, perguntei. “As pessoas aparecem e veem coisas diferentes, e isso tem a ver com quem elas são tanto quanto com o que o filme é. Eu sempre pensei que deveria haver espaço num filme para que as pessoas interpretem coisas diferentes. É muito chato quando todo mundo vê as coisas da mesma maneira, então eu sempre tento fazer filmes que criem conversas”.

Eu sempre pensei que deveria haver espaço num filme para que as pessoas interpretem coisas diferentes. É muito chato quando todo mundo vê as coisas da mesma maneira, então eu sempre tento fazer filmes que criem conversas

“Mesmo quando elas não entendem?”, questionei, lembrando o péssimo resultado do filme no Cinemascore. “Pra mim, isso é uma honra. Porque a ideia sempre foi fazer um filme difícil”, respondeu o diretor. “É bem óbvio porque isso acontece: você sai do filme e você não está feliz, você sai bem puto. E essa era a intenção: alimentar o público com uma dor imensa. Depois, com o tempo, isso se dissipa e cria espaço para conversas e realizações e é aí que o filme funciona. (...) Eu recebi mensagens de pessoas, dois ou três dias depois de assistirem, e elas ficaram tipo ‘oh, wow’. As coisas começaram a se encaixar e isso é um prazer pra mim”.

A ideia de contar a história sob o ponto de vista da Mãe Natureza, como podemos perceber aqui, é literal

Seis meses depois, da entrevista e da estreia do filme, Darren Aronofsky foi ao SXSW pela primeira vez ser um dos 18 palestrantes do festival, no qual falou sobre os 10 Mandamentos pra se fazer Filmes Independentes, mostrando que nem nessas horas ele deixa de fazer algum tipo de referência bíblica.

Entre os tais mandamentos, pelo menos dois tem bastante relação com o que ele disse pra mim — o número OITÔ, “comprometa-se com a sua visão”, e o nove, “deixe seu filho ir embora”. O oitavo tem um pouco mais a ver com Noé, que ele explicou que foi muito difícil conseguir fazer com que o estúdio lançasse exatamente o que ele queria, ao invés de recortar pra facilitar pra audiência, mas “deixar seu filho ir embora” é, na essência, deixar que a sua obra seja interpretada da maneira que quiserem interpretar — o que, aliás, é também a essência da arte, de certa maneira. (Quem quiser saber quais os outros mandamentos e ler mais sobre a apresentação do cara, pode ler aqui, em inglês)

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Ainda assim, meio ano depois, alguém na plateia pediu pra que ele dissesse qual era o tema central de mãe! e, bom, a resposta foi essencialmente a mesma que ele me deu: que ele gosta de deixar as pessoas interpretarem do jeito que quiserem e que ele pensa que o que estão fazendo com a mãe natureza é extremamente desrespeitoso.

Isso aconteceu no último sábado, 10 de Março, e uma boa parte da internet resolveu repercutir a resposta com o “verdadeiro significado de mãe!” e “revelação do diretor Darren Aronofsky sobre o que mãe! realmente é”. Por quê? Pra que?

Darren Aronofsky durante seu keynote no SXSW 2018

No episódio #111 do Asterisco, o nosso programa / talk show / podcast / o que você quiser sobre cultura pop no qual conversamos com Vicente Amorim sobre Motorrad, o diretor disse que acha que “não cabe e nem tenho vontade de ficar explicando, porque no que você explica você destrói. Se você precisa explicar, é porque não funcionou, na verdade. A graça é você dar elementos suficientes pro espectador pra ele poder, em cima disso, criar o universo imaginário dele, a partir de algumas regras que nós criamos”.

mãe! é perfeitamente montado em cima de algumas regras e, novamente, é um filme que, PELO MENOS depois de pensar nele “por dois ou três dias”, se torna bastante óbvio. Mas se o diretor diz, repetidas vezes, que quer que as pessoas tenham suas interpretações e discussões, muito provavelmente o que não funcionou nessa brincadeira é a audiência e não o filme, certo?

O público quer pensar da mesma maneira, entender exatamente o que tudo aquilo significa, ao invés de procurar os seus próprios significados dentro de si, das suas experiências. Assistir a um filme é um ato de passividade: você senta na poltrona e deixa aquela obra falar com você. Não adianta interrompê-la, tentar adivinhar os próximos passos ou, principalmente, querer que ela seja o que VOCÊ QUER que ela seja.

Cinema não funciona assim.

E isso nos leva diretamente à Aniquilação, o esperado novo filme de Alex Garland, que estreou nos cinemas dos EUA no mês passado e, desde o dia 12, está no Netflix em todos os lugares do mundo que têm Netflix.

O novo chairman da Paramount, Jim Gianopulos, ao assumir o cargo, deu uma olhada em tudo o que tinham pra lançar e tomou pelo menos duas grandes decisões: a primeira foi de vender os direitos de distribuição de The Cloverfield Paradox pro Netflix, ao perceber a bomba que tinha nas mãos, reavendo o dinheiro gasto na produção e ficando no zero a zero. Justo.

A outra decisão foi de vender os direitos internacionais de distribuição de Aniquilação, com exceção à China, também ao Netflix — uma decisão estranha, levando em consideração o quanto esperavam pelo próximo filme do diretor de Ex Machina, mas uma decisão que faz bastante sentido, levando em consideração o fracasso de bilheteria que foi, olha só, mãe!.

Ao entregar o filme para o serviço de streaming, mais uma vez a Paramount economiza no marketing e diminui suas eventuais perdas. Mas por que os executivos já pensaram em perdas? O que Aniquilação tem de tão desesperador?

Bom, pra começo de conversa, as exibições teste.

Você sabe: todo filme é exibido MUITO tempo antes pra uma audiência pré-selecionada, com o que imaginam que vá ser o público alvo do filme. Ao final, essa galera diz o que achou e, a partir daí, os estúdios e produtores costumam se adequar ao que o público quer. Costuma ser depois disso que as refilmagens, cortes e recortes acontecem... Algo que Alex Garland não aceitou.

As reações não foram lá muito empolgantes e, de acordo com o Hollywood Reporter, David Ellison, chefão da Skydance Productions, empresa por trás de Tempestade: Planeta em Fúria e O Exterminador do Futuro: Gênesis e que divide uma boa parte dos investimentos com a Paramount, achou que o filme era “muito intelectual” e “muito complicado” e propôs mudanças na personagem de Natalie Portman e no final.

As mudanças não incluíam transformar o filme em algo mais convencional porque, segundo o diretor, “há meio que uma narrativa por cima de tudo que explica. É meio que ‘uma parada estranha aconteceu. É alien ou tá irradiando um efeito estranho?’. Pronto. Há também um elemento metafórico, uma coisa existencial desconhecida que se expande”, contou ao Verge. “A pressão era em relação a fazer a protagonista menos complexa moralmente, esse tipo de coisa, que você não pode cortar sem retalhar o filme”.

A pressão era em relação a fazer a protagonista menos complexa moralmente, esse tipo de coisa, que você não pode cortar sem retalhar o filme

Scott Rudin, produtor de A Rede Social e Lady Bird (perceba a diferença nos créditos) e produtor-executivo de Aniquilação, ficou ao lado de Alex Garland e, como por contrato ele tinha o direito ao último corte, “manteve a visão” do diretor — uma visão que, segundo ele, era como um sonho. “Ler esse livro é como um sonho, então o que eu vou fazer é adaptar como um sonho. Não vou reler o livro. Vou adaptar a partir da minha memória sobre o livro”, contou o diretor em entrevista ao Google. “Em alguns lugares eu vou adaptar bem de perto, em outros não. É uma resposta sonho a um livro sonho”.

Aniquilação é protagonizado por cinco mulheres — ou, como o próprio diretor prefere dizer e o filme define em certo momento, cientistas — mas algo me diz que o problema maior aqui é, de fato, a audiência. É quem considera que o filme seja “muito intelectual”, “muito complicado”. Quem não consegue olhar pra Aniquilação sob nenhum outro ponto de vista que não “uma parada estranha aconteceu”.

Alex Garland e Natalie Portman no set de Aniquilação

Aniquilação é um filme sobre autodestruição. Em sua essência, assim como mãe! é sobre como tratamos a natureza, Aniquilação é sobre o fato de que “quase ninguém comete suicídio, e quase todos nos autodestruímos. (...) Não são decisões, são impulsos. Programados em cada uma das nossas células”, diz, em certo momento, a personagem de Jennifer Jason Leigh, Dra. Ventress. “O filme é sobre o quão difícil é ser, o quão difícil é ser uma pessoa”, afirmou Garland ao Nerdist.

Eu estou em tratamento contra depressão e ansiedade e, bom, eu sei exatamente o que ela quer dizer com isso de impulsos, de parecer que a necessidade de se destruir, de alguma maneira, é algo que faz tanto parte de nós quanto a necessidade de respirar. Pra mim, aliás, o tal do Brilho é uma metáfora para a depressão, que refrata o que está à nossa volta, muda a maneira como encaramos absolutamente TUDO, principalmente nós mesmos. As plantas começam a se parecer com pessoas, diversas espécies nascem a partir de uma, os crocodilos ganham dentes de tubarão, os ursos tem um crânio meio humano, as tatuagens aparecem do nada...

Olhe pelos mais diversos ângulos pros filmes que você assistir. Deixe as imagens na tela ressoarem dentro de você, não o contrário. O cinema merece isso

Outras pessoas por aí disseram que o Brilho, pra elas, representa o câncer; pra algumas, casamento (que, de uma certa maneira, é sim uma forma de autodestruição); outras tantas, culpa. E se você conversar com cada uma das pessoas que assistirem ao filme, vai enxergar uma variedade ainda maior de significados para o Brilho.

Provavelmente Alex Garland tinha alguma coisa em mente quando escreveu o roteiro e sabe exatamente o que é que aquilo significa... PRA ELE. Mas ele deixou a “criança ir embora” e, dentro das regras que criou, nos deixou interpretar do jeito que melhor funciona pra gente.

Aliás, o mesmo vale pro final. Sendo uma história de amor (sim, tó mais uma aí pra você pensar), o que vemos na última cena do filme é algo que só diz respeito a nós.

Por isso, mais uma vez, eu insisto: olhe pelos mais diversos ângulos pros filmes que você assistir. De lado, de baixo, de cima, de dentro, de fora, de perto, de longe. Deixe as imagens na tela ressoarem dentro de você, não tente você fazer com que as imagens ressoem seja lá o que você quiser. Isso vale pra qualquer tipo de filme, dos super-heróis a esses disfarçados de blockbusters que são, no fim das contas, grandes obras de arte.

O cinema merece isso. E nós também, porque é realmente triste ter de ver um filme como Aniquilação na TV... :P