Anitta foi a grande protagonista da primeira semana do Rock in Rio 2017 | Judão

No pedaço da programação quase que inteiramente dedicado ao pop, a falta da Lady Gaga só tornou ainda maior a sombra da falta que fez a maior popstar brasileira da atualidade no festival

E aí que a edição 2017 do nosso bom e velho Rock in Rio começou, digamos, meio frouxa, desgovernada, tal qual um caminhão sem motorista descendo a ladeira sem controle. Sem Lady Gaga, tivemos dose dupla de Maroon 5, fazendo um show idêntico na sexta e no sábado. Adam Levine arriscou um Garota de Ipanema meia bomba, mandou lá um David Bowie meio torto... e foi protocolar até dizer chega. Jogou pra torcida e tudo bem. A mesma pegada de Shawn Mendes e 5 Seconds of Summer.

Pet Shop Boys deu aula de pop, podia tranquilamente ter sido headliner — mas tinha espaço pra mais e podia MUITO MAIS. Alicia Keys é muito amor, mandou bem, que puta voz, mas ainda não sei se era a pessoa certa pra um palco tão grande quanto aquele. E a gente até ama o Justin Timberlake, cara, mas... parecia o mesmo show de 2013, vamos ser BEM honestos.

Grandes momentos a gente teve, como vem sendo meio costumeiro, lá no Palco Sunset – Nile Rodgers, caralho, sendo apenas ele e isso já é MUITO; Emicida arrasou na dobradinha com o Miguel; teve Liniker, Almério e Johnny Hooker arrebentando; e, caraca, o que foi toda a força da Elza Soares, que dominou o palco do Rael (e ele, obviamente, sabia bem que isso ia acontecer e só deu passagem pra mulher arregaçar)?

E aí a gente teve a Fergie. Que, vamos lá, foi coadjuvante do próprio show. Toda ensaiadinha e mecânica, ela só ganhou a galera de vez quando chamou a Pabllo Vittar, de surpresa, para cantar a sua Glamorous e ainda se rendeu e cantou Sua Cara, dueto da brasileira com uma certa amiga famosa — para quem ela, aliás, dedicou a canção.

Pra quem? PRA QUEM? Pra Anitta, é claro, cê já sabia. E é sobre ela, isso sim, que a gente quer falar.

Pabllo Vittar e Fergie (Foto: I Hate Flash)

A faixa já tinha sido, aliás, o momento mais explosivo do “show” que a Pabllo fez no dia anterior, em um palco secundário de um dos patrocinadores do evento, arrancando completamente a atenção do que tava rolando na programação oficial.

De férias, Anitta contou no seu Instagram que tinha sido originalmente convidada pela Fergie (que, em entrevista ao G1, disse não apenas já conhecer a nossa popstar mas também sabia a coreografia de Paradinha), mas não poderia comparecer. “E então vocês me fizeram presente”, afirmou.

Fizeram muito. Fizeram DEMAIS. Mas ela já estava fortemente presente quando, na porta do hotel no qual Lady Gaga se hospedaria antes que anunciasse o cancelamento do show, sua massa de fãs gritava, ao saber que o Maroon 5 assumiria o posto de headliner: “Maroon 5 não, Anitta sim!”. Claro, a gente sabe que em termos de organização, de logística, o tempo apertadíssimo impediria sair com qualquer solução que já não estivesse à mão, como a trupe de Levine. Entendemos isso perfeitamente.

Mas, francamente, a gente falou mais da Anitta no Rock in Rio, sendo que nem convidada PELA parada ela foi, do que efetivamente da maior parte dos artistas convocados oficialmente (Skank e Frejat, gente, MAS SÉRIO?).

O combo perfeito para a abertura do festival, de fato, teria sido Anitta e Lady Gaga. Isso a gente vinha falando desde que inventaram de colocar no line-up, mais uma vez, a Ivete Sangalo. Vejam só, Ivete é puro carisma, é incrível, mulherão da porra. Só que é figurinha repetida justamente num momento que não faz qualquer sentido repetir porque tem muita coisa acontecendo por aí. Não dá pra negar, é ser cego DEMAIS pro que está acontecendo no mundo da música brasileira simplesmente não perceber a importância que a Anitta tem atualmente pra nossa música pop.

Foda-se se você não gosta. A questão não é esta. É sobre ser POP, ser popular, ser um fenômeno de massa. E foda-se em DOBRO se você é daqueles ROCKISTAS que ainda insistem no chavão “ai, não, ela não é rock, e Rock in Rio, tem rock no nome, precisa ser só rock”. Pra vocês, dedicamos há alguns anos, com carinho, este texto aqui.

“Teria sido revolucionário. Ela é importante para a nossa geração. Que credencial ela precisa?”, perguntou-se o Emicida, sobre a falta que Anitta fez, num papo com o UOL. Nenhuma, caralho, ela não precisa mais provar nada pra ninguém. Além da dobradinha com Pabllo e o Major Lazer (o grupo de música eletrônica criado pelos badalados produtores musicais Diplo e Switch), ela ainda emplacou Paradinha em espanhol, Switch com a Iggy Azalea, lançou seu primeiro single em inglês (Will I See You, com o produtor Poo Bear, grande colaborador de Justin Bieber). Sério, seu Medina, a mina é um sucesso não apenas aqui no Brasil como está construindo, de maneira BEM inteligente, a sua carreira lá fora. Esta era a hora. Este era o grande momento.

E teve gente pensando que ela não ia rebolar a bunda dela... ;)

“Não tenho afinidade com a música dela, não achei que encaixava, mas ela está indo para um caminho pop que a aproxima mais do Rock in Rio, como a própria Ivete [Sangalo] entrou nesse caminho”, afirmou Roberto Medina, o todo-poderoso do festival, em entrevista pra Folha de S. Paulo. Ou seja, para o Medina, antes a Anitta não estaria “preparada” para o Palco Mundo. CLARO.

Muita gente vem enxergando, em declarações como esta que tanto Roberto quanto outras pessoas com o sobrenome Medina vêm dando ao longo dos anos, um preconceito com o funk — gênero do qual Anitta é egressa e do qual, apesar das muitas camadas de novidade que vem acrescentando à sua sonoridade, não se afastou e não renega. Os Medinas já disseram que não acreditam que o sertanejo e o axé, combinam com o Rock in Rio. Mas isso não vai RIGOROSAMENTE contra a ideia de um festival musical plural? Quer dizer, cabe rock, cabe pop, cabe soul, cabe rap até. Mas isso aí de sertanejo, ah, não nem pensar! Por mais que, hoje, no Brasil, o sertanejo seja 100% pop.

O engraçado disso é que, na edição de 2001, quando o Rock in Rio enfim retornou como marca, na mesma noite em que tivemos R.E.M., Foo Fighters, Beck, Barão Vermelho e Cassia Eller, sabe quem foi uma das atrações que abriu o dia no Palco Principal? Fernanda Abreu e a banda Funk’n Lata. E foi funk, mas funk PRA CARALHO, puro Rio 40 Graus, mais baile funk do que as próprias apresentações atuais da Anitta. E o público abraçou demais — opinião de quem, inclusive, estava lá, bem no meio da galera descendo até o chão. E aí? Qual é a lógica? Não sabemos.

O ponto é que a família Rock in Rio parece ter sentido o peso da sombra que a grande protagonista deste primeira semana lançou sobre o festival. Porque, graças à toda a cobrança do público, parece que FINALMENTE o convite surgiu. “Anitta já está confirmada pro Rock in Rio Lisboa. Ela vai se apresentar no palco principal e nossa ideia é trazê-la no próximo Rock in Rio por aqui também”, disse Rubem Medina, da diretoria do festival, ao jornal O Globo.

Então, é assim mesmo que acontece com música POP — ela é tão popular que O POVO, as pessoas, elas se manifestam e pedem, clamam, exigem. Faz parte de um jogo que o Rock in Rio se dá ao luxo de experimentar no Palco Sunset mas parecia ter esquecido de jogar em seu palco principal. Bom, agora vão ter que mover as pecinhas na marra.