Apenas uma mulher chamada Stefani Germanotta | Judão

O documentário Gaga: Five Foot Two deixa a popstar um pouco de lado para se focar na pessoa sentindo-se solitária por baixo de dezenas de camadas de plumas, paetês, glitter e glamour

Convidada para a festa de aniversário de Tony Bennett, Lady Gaga sobe ao palco para uma totalmente inesperada versão intimista de Bad Romance. Ali, só ela e o piano, sem efeitos, sem dançarinos, sem purpurina, a letra da canção ganha em força e intensidade e se revela de um jeito completamente diferente. A cena é, de fato, uma alegoria para o que acontece com a própria cantora ao longo de Gaga: Five Foo Two, o documentário a seu respeito que é uma produção original do Netflix.

Quer dizer, melhor corrigir aqui. Este não é, de verdade, um registro sobre a Lady Gaga. Mas sim sobre uma garota intensa e poderosa por um lado, triste e vulnerável por outro, chamada Stefani Germanotta. Esqueça a popstar. Aqui, as câmeras percorrem os bastidores para mostrar as dores e delícias de ser a mulher por trás do ícone pop.

Pode-se dizer até, sem muito medo de errar, que estamos diante de uma verdadeira desconstrução do mito.

Este é o lado humano da Gaga, Mãe de Monstros, aqui retratada como a mina que sai pra dar uns pedaços de frango pros cachorros no lado de fora da casa enquanto dá aquela bela coçada na bunda, trajando uma calça de moletom velha e folgada. Nada sexy, nada ensaiado. Apenas humano, exatamente como eu e você. E detalhe que este momento trivial, assim como tantos outros, rola quando estamos no meio de um furacão na vida de Stefani — porque ela tá negociando a apresentação no intervalo do Super Bowl e também tá terminando de gravar Joanne, seu mais novo disco.

Faz sentido, aliás, que este documentário seja rodado JUSTAMENTE neste momento, quando ela registra seu disco mais despido de seus exageros, de suas pirações, de sua megalomania. Quase intimista. Assim como lá, Five Foo Two deixa de lado as perucas extravagantes, figurinos pontiagudos e até mesmo os vestidos feitos de carne crua. É Stefani de camiseta rasgada do Iron Maiden e shortinho jeans.

É esta cantora que vai até a casa da avó mostrar pra ela, em primeira mão, a canção que dá nome ao álbum — que, além do nome do meio de Gaga, é também o nome de uma tia, poeta e pintora, que morreu aos 19 anos. Enquanto a faixa rola no celular, a doce senhorinha escuta com um olhar vidrado, enquanto a neta se acaba em lágrimas e o pai (irmão da Joanne original) visivelmente tocado prefere sair da sala, em um dos momentos mais emocionantes do filme.

Por sinal, o doc acerta em cheio ao mostrar também quem orbita ao redor deste mundo Gaga, que tá longe de ser apenas a Stefani. São seus amigos mais próximos, a chamada Haus Of Gaga, aqueles que a apoiam, que riem com ela, que a acompanham ao médico e massageiam seu corpo enquanto ela sofre e chora com as dores musculares que já duram mais de cinco anos e que depois a gente descobriria se tratar da tal fibromialgia que a fez cancelar não apenas o show no Rock in Rio mas toda uma turnê europeia.

Além dos maquiadores e estilistas, inclua aí neste time de suporte principalmente Sonja Durham, sua melhor amiga de longa data, que aparece lutando contra um câncer extremamente agressivo — e para quem a cantora dedica não apenas a canção Grigio Girls mas também todo o documentário.

Da mesma forma que vemos uma Stefani PISTOLAÇA no set de American Horror Story ou nos primeiros ensaios da apresentação do Super Bowl, porque mudaram algum detalhe em cima da hora e ela queria ter sido avisada porque, afinal, tem uma pequena obsessão por fazer as coisas com perfeição, também ficamos de coração partido ao vê-la chorando quando rasga a fantasia e fala sobre seus relacionamentos — coisa que não é exatamente comum. Era justamente a fase em que ela se separava do ex-noivo, Taylor Kinney. “É sempre assim, eu sempre acabo ficando sozinha. No fim do dia, todo este batalhão de gente vai embora e eu fico em meio a um silêncio insuportável”.

Mas, de longe, talvez os momentos mais interessantes do filme estejam nas muitas interações da estrela com o produtor Mark Ronson, principal nome por trás de Joanne. Eles se provocam, se sacaneiam, dão risada juntos e, aos poucos, vão se transformando também em grandes amigos, enquanto discutem acordes e refrões. E do lado de fora do estúdio, enquanto fumam, falam sobre a vida, então temos uma Stefani que FINALMENTE desabafa sobre um assunto que a persegue desde sempre: Madonna. Obviamente, ela diz que a rainha do pop é uma puta inspiração pra Lady Gaga. Maaaaaaaas...

O que me deixa puta é que ela nunca veio me criticar na cara. Se ela me acha um embuste, uma armação, me chama num canto e fala isso olho no olho

É sempre MUITO legal quando a música pop nos entrega uma Lady Gaga e suas apresentações repletas de luzes, explosões, efeitos estroboscópicos e a porra toda, o pacote completo que tanto abre quanto fecha o documentário. Só que este é o produto final, que a gente consome com gosto, com vontade, mas que tem GENTE do outro lado, produzindo, suando, sangrando pra fazer acontecer.

O que Gaga: Five Foo Two faz com inteligência e principalmente sensibilidade, mas sem rodeios, é desembrulhar este pacote. E mostrar que música pop é, antes de tudo, na essência, MÚSICA. Feita por gente com qualidades e defeitos. Goste você ou não.