"Aquaman é Led Zeppelin" | JUDAO.com.br

Nova escritora do Aquaman nos gibis mensais tem um jeito bem peculiar de descrever seu trabalho, ao associar os gibis com música

A roteirista Kelly Sue DeConnick, que talvez você conheça (ou, pelo menos, deveria conhecer) da ótima passagem pelo título da Capitã Marvel em 2014 que tem muito do clima que vai ser usado no filme da heroína, costuma dizer que sua imaginação não é lá muito VISUAL. Na verdade, ela costuma descrever seu processo criativo como algo muito mais SONORO. “Eu costumo pensar meus trabalhos sempre em termos de música”.

Para ela, enquanto o elogiado gibi autoral Pretty Deadly, da Image, é mais Ennio Morricone em sua mistura de horror com western (a especialidade do lendário compositor italiano), as histórias de Carol Danvers soavam mais Tom Petty, aquele rock americano clássico, estradeiro, cheio de profundidade e alma.

No entanto, a partir de dezembro, mais especificamente no número 43, DeConnick será a primeira mulher a assumir as rédeas criativas do gibi mensal do Aquaman, com arte do brasileiro Robson Rocha. E como diabos soaria, portanto, as histórias do monarca da Atlântida, seguindo a lógica sonora da autora?

“Aquaman é Led Zeppelin”, diz ela, em entrevista pro EW, relembrando a banda que foi responsável pela primeira grande assinatura musical da Marvel nos cinemas. “É grande, é mítico, é aquela van com o grafite pintado do lado, é um baixo pesado com vocais altos e estridentes”. Que descrição simplesmente sensacional! <3

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Enquanto sinopse, a ideia de um Aquaman ao som de Robert Plant, Jimmy Page e cia é muito mais legal do que a breve descrição que o todo-poderoso Jim Lee deu em julho, quando o gibi foi anunciado durante a San Diego Comic-Con. Ele disse que teremos um Arthur Curry acordando sem memória na costa de uma ilha misteriosa, ao lado de deuses marinhos de diversas partes do mundo. Uma espécie de “reexame” do personagem, tipo um Batman: Ano Um ou, quem sabe, A Queda de Mourdock, do Demolidor. Kelly então complementa.

“Ele levanta nesta ilha metafísica e não faz ideia de quem seja. Ele terá que reaprender quem é e de onde vem”, explica a escritora. “Isso nos dá a chance de revisitar ideias básicas sobre ele, além de poder trabalhar com um monte de divindades oceânicas que foram incrivelmente divertidas de pesquisar e são personagens muito legais de se trazer pro Universo DC”.

Num papo com o Polygon, em agosto, ela já tinha justificado a escolha do personagem como seu próximo projeto. “O Aquaman é parte da Liga da Justiça, então ele é parte dos grandes sete da DC, certo? Mas ele sempre foi meio considerado como segundo escalão. Então ele sempre esteve meio fora do radar, e esta coisa de enxergá-lo como um underdog é um bom lugar pra começar a trabalhar”.

Esta abordagem talvez lembre um pouco o que o próprio Geoff Johns fez com o herói quando cuidou de seus roteiros no relançamento pós-Novos 52. Não, não é um reboot, não é um relançamento, o Aquaman não vai recomeçar do zero. Mas vai, isso sim, fazer algumas questões essenciais. “A pergunta que eu sempre me faço quando começo a trabalhar um personagem é de onde vem a dor dele. Qual é a principal ferida? Dá pra conectar isso com o seu dom? Como isso afeta sua personalidade? Que tipo de conflitos isso sugere?”.

E aí ela mesma dá a dica de um caminho que NÃO pretende seguir: “o Aquaman é meio-atlante e meio-humano, certo? Então ele não pertence a nenhum destes lugares e cada um deles o rejeita por isso. Mas sinto que, na sociedade contemporânea, não podemos interpretar o lindo garoto branco, literalmente à prova de balas, sendo vítima de preconceito por causa desta filiação mista. Eu acho que isso é falso na melhor das hipóteses e, eu não sei, cruel na pior das hipóteses. Então, pensei, legal, com o que mais podemos trabalhar?”.

E aí veio a sacada: algo menos Superman e mais Mulher-Maravilha ou, quem sabe, Thor. Mais mitológico. Mais LED ZEPPELIN. Bingo.

O Aquaman de DeConnick, mais uma egressa da Marvel a usar um dos medalhões da DC (ao lado do Bendis com o Superman e da G. Willow Wilson, criadora da Kamala Khan, cuidando da Mulher-Maravilha), vai se colocar cronologicamente logo depois do arco Drowned Earth, da Liga da Justiça, a ser escrito por Scott Snyder, James Tynion IV e pelo antecessor da escritora à frente do personagem, Dan Abnett. Sabemos que os maiores heróis da DC vão combater um grupo de deuses marítimos conhecidos como os Lordes de Oceano, cujo objetivo é deixar o mundo submerso. A gente não faz ideia do que vai acontecer ao longo deste arco em cinco partes, mas que ele vai ter o Aquaman como protagonista e levar direto a uma amnésia do cara, ah, isso a gente já sabe.

O motivo, bom, vocês já devem imaginar: em dezembro, chega aos cinemas o filme solo do herói submarino, estrelado por Jason Momoa. Pelas primeiras imagens da nova fase da HQ, com o sujeito sem aquela malha laranja ridícula, barba e cabelos compridos, dá pra imaginar que ele vai ter muito do visual mais “rebelde” do ator, cuja amostra tivemos no filme da Liga da Justiça, e menos da versão mauricinho dos sete mares, certo? Bom, a roteirista diz que o seu Aquaman não segue o mesmo conceito da telona, mas a inspirou de algumas formas.

“O Aquaman cinematográfico é muito diferente do Aquaman dos gibis, mas tem algumas fotos do Momoa nas quais se vê um brilho no olhar”, diz DeConnick. “Estou muito interessada nessa arrogância, esse tipo de reserva interna que todos os nossos heróis têm, essa diversão”. E ainda completa: “além disso, tem esta coisa visceral sobre a água e primal sobre o oceano, isso me interessou muito”.

E já que o assunto é cinema, a Kelly gosta de deixar claro que seu histórico com heróis é bem interessante usando uma comparação que tem a ver com a próxima atração da Casa das Ideias. “Olha, eu não quero que ninguém tire isso do contexto, mas a última vez que eu assumi um personagem que todo mundo estava realmente nervoso que eu fosse mudar, um personagem que era frequentemente descartado e dispensado... esse personagem era a Carol”, diz, aos risos. “Olha pessoal, acabou tudo bem!”.