As faces mitológicas da Mulher-Maravilha | Judão

Princesa amazona e semideusa, Diana é ambas mas também uma coisa muito maior e mais representativa: uma heroína, perfeita para uma atualização do antigo ideal grego

Embora costumeiramente as histórias em quadrinhos sejam PRÓDIGAS em criar seus próprios panteões de deuses e heróis, não são raras as vezes em que elas recorrem à mitologias já existentes por aí pra construir e reconstruir seus universos.

Na Marvel, obviamente, o exemplo mais conhecido é o que Stan Lee e Jack Kirby fizeram com os mitos nórdicos nos gibis do Thor. A tentativa de fazer o mesmo com o universo dos deuses gregos, talvez aquela que seja a mais conhecida e referenciada das mitologias historicamente, no entanto, rendeu à Casa das Ideias no máximo um personagem como o Hércules, integrante beberrão e encrenqueiro do segundo escalão dos Vingadores.

Foi a DC que acabou dando aos habitantes do Olimpo uma interpretação mais gibi, com o principal exemplo desta construção uma certa Princesa Amazona chamada Diana, a Mulher-Maravilha.

Na mitologia grega, as amazonas eram um grupo de mulheres guerreiras, pertencentes a uma nação cuja localização não é das mais exatas e, da mesma forma que praticamente qualquer coisa na mitologia vinda da Grécia Antiga, pode ter variações sutis ou bastante significativas dependendo da obra e do autor. No caso do geógrafo e historiador grego Heródoto, por exemplo, o tal reino das amazonas ficaria na região da Cítia, lugar da EURÁSIA habitado na Antiguidade por um grupo de povos conhecidos como citas. Era aqui que, aliás, que alguns historiadores modernos defendiam que teriam vivido guerreiras reais que seriam a inspiração para as amazonas mitológicas.

Esta seria também uma localização que justificaria uma das muitas hipóteses de onde teria vindo o nome “amazona”, uma derivação do iraniano ha-mazan, que originalmente significaria “guerreiras” (e cuja forma jônica, vinda de um povo indo-europeu que se estabeleceu na Ática e no Peloponeso, seria Amazon, que aí queria dizer “lutando junto”). Obviamente, isso bate de frente com aquela ooooooutra teoria bastante difundida de que o significado viria do grego antigo para “sem seio”, já que elas arrancariam/cortariam uma das mamas para melhor manejar o combo de arco e flecha.

O dramaturgo Ésquilo confirmava a história toda da Cítia, mas ainda dava cabo que elas teriam se mudado para – que rufem os tambores – Themyscira, uma cidade localizada na foz do rio Termodonte e que, teoricamente, seria o equivalente à atual cidade turca de Ünye, na região da Capadócia. Há quem afirme ainda que elas residiram na região do Ponto, parte do nordeste da atual Turquia, próximo à costa do mar Euxino (atual costa meridional do Mar Negro).

De qualquer maneira, uma de suas primeiras rainhas seria justamente uma certa Hipólita, conhecida por sua coragem e ousadia, dona de um cinturão mágico que foi o alvo do nono trabalho, de doze, do guerreiro Herácles/Hércules.

Algumas versões do mito dão conta de que as amazonas não podiam ter relações sexuais com homens, mas que visitariam a tribo vizinha dos gargáreos uma vez por ano para garantir a preservação de sua linhagem. Se os bebês nascessem meninos, podiam ser devolvidos aos pais, largados à própria sorte na natureza ou mortos. Já as meninas eram treinadas desde pequenas nas artes da guerra, da caça e das práticas agrícolas.

Sabe quem era a deusa da caça e da vida selvagem, na natureza? Ártemis, irmã gêmea de Apolo. E que na mitologia romana, atendia pelo nome de... Diana.

Com a revisão de sua origem pós-Novos 52, Diana Prince ganhou uma nova camada de significado ainda mais interessante a esta coisa toda de ser amazona. Pois ela não era mais o fruto do barro moldado por Hipólita e abençoado por Zeus. Ela era a filha “ilegítima” de Zeus com Hipólita, uma das muitas puladas de cerca do líder supremo do Monte Olimpo, que era casado com a rancorosa e vingativa Hera. Assim sendo, Diana não é apenas uma amazona, é também uma semideusa, um elemento que é bastante presente nas grandes histórias da mitologia grega.

Cunhado por poetas como Hesíodo e Homero, o termo se refere aos filhos das MUITAS vezes em que os deuses desceram da Terra para dar uma passeada por aqui, fazendo uma baguncinha depois de ligar o seu Tinder celestial e encontrar aquele corpo perfeito que pudesse seduzir até o mais exigente dos senhores e senhoras lá de cima. Os herdeiros não tinham grandes superpoderes mas acabavam carregando, no DNA olimpiano, algumas habilidades físicas sobre-humanas como superforça, velocidade, resistência.

Teseu, aquele que matou o Minotauro no labirinto de Dédalo, era filho de Poseidon, senhor dos sete mares. Já Aquiles, o homem do calcanhar, nasceu de Tétis, nereida/ninfa do mar. Mas não dá pra negar que quem era campeão da pulada de cerca era mesmo Zeus, paizão (?) da Diana. Vamos à contagem aqui: Hércules (perseguido desde a infância pelos ciúmes incontroláveis de Hera), Perseu (aquele que matou a medusa/górgona) e até a estonteante Helena de Tróia. Isso entre os mais conhecidos.

Uma coisa que os semideuses têm em comum, sejam eles filhos de Zeus ou não, no entanto, é que quase todos são heróis, uma figura que estava praticamente no topo dos mitos gregos. Eles eram a representação ideal do que todo ser humano queria/deveria querer ser. Era alguém acima da mediocridade. Alguém SUPER. Mais do que perfeitos fisicamente, eles eram reconhecidos por serem corajosos, obstinados, nobres. A verdadeira EPÍTOME do chamado aretê, o conceito grego de excelência, sempre conectado com a noção de cumprimento do propósito ou da função ao qual o sujeito se destina. Fusão da força com o sentido moral, basicamente.

No caso dos heróis, mesmo diante da dúvida, eles teriam que se levantar e cumprir uma tarefa, uma missão, que em grande parte dos casos passava por derrotar uma força das trevas e garantir que os fracos e oprimidos estivessem defendidos. Um exemplo a se seguir, o ideal do herói clássico, que inspirou os super-heróis da mitologia moderna dos gibis anos depois. Que inspirou claramente um cara como o Superman e que, bom, não foi nem um pouco inspirador em O Homem de Aço ou Batman vs Superman.

A Mulher-Maravilha, neste novo filme, foi amazona, foi semideusa (ou só Deusa, como define a produção) mas, acima de tudo, foi HEROÍNA. Tanto quanto Hércules, Teseu, Perseu ou Odisseu/Ulisses. Um exemplo a ser seguido, orgulhosa e certa de sua missão.

Em 2017, uma heroína, assim, no feminino, tornando-se a cristalização do ancestral ideal grego do herói. Chega a ser irônico... Mas faz todo sentido. Ainda bem. ;)