As fitas cassete estão de volta - e vai ter uma fábrica no Brasil! | Judão

Estúdio em São Paulo compra equipamento e está esquentando os motores para começar a produzir música no formato que cabia bem ali nos nossos bolsos, dentro de um walkman

“Papai, mas o que é este negócio que toca música?” Essa foi a pergunta da minha filha, na época com 10 anos de idade, ao se deparar com o volume 1 da Awesome Mix de Peter Quill, no primeiro Guardiões da Galáxia. Minha primeira reação foi dizer “como assim?” – porque, afinal, eu fui um fanático utilizador do tal do walkman e gravador compulsivo de mix tapes caseiras. Mas como diabos eu poderia exigir que ela soubesse o que é isso, em um mundo dominado por arquivos digitais? Se até o coitado do CD já faz uns anos que tá mais pra lá do que pra cá e ela mesma já foi reunir suas primeiras músicas favoritas diretamente em um MP3 player, era de se esperar que a fitinha lhe fosse uma ilustre desconhecida.

Aliás, talvez seja até mesmo para parte dos nossos leitores, que estão neste momento passando os olhos por este texto e se pergunta “mas do que ele tá falando?”.

Tá bom. “A fita cassete ou compact cassette é um padrão de fita magnética para gravação de áudio lançado oficialmente em 1963, invenção da empresa holandesa Philips. Também é abreviado como K7”, explica didaticamente a Wikipedia. Se, quando surgiram, as fitas já se tornaram populares pelo tamanho, um ganho considerável de portabilidade em comparação com os discos de vinil, o que dirá em 1979, quando a Sony inventou o walkman e criou o conceito de música portátil? Muito antes do iPod sonhar em existir, o walkman vendeu impressionantes 200 milhões de unidades em todo o mundo.

Mas o consumo de música mudou. E o cassete foi lentamente morrendo. Desaparecendo. Saindo de circulação. Até se tornar obsoleto. Quer dizer... era o que a gente achava. Porque os caras do estúdio paulistano FLAPC4 parecem discordar. Tanto é que adquiriram uma duplicadora da Kaba Research & Development, uma máquina que duplica 28 cassetes de uma hora a cada 15 minutos. Estamos diante do que pode ser a única fábrica de cassetes do país, oferecendo inclusive uma masterização específica para esta mídia.

Cassette

“A ideia da duplicadora começou há uns 2 anos quando vimos os amigos do selo Beatwise Recordings se matando pra duplicar as cassettes que lançaram, era um trabalho artesanal enlouquecedor porque eles duplicavam uma por vez, então para fazer um lote de 30 fitas eles demoravam 30 horas copiando, o que se traduzia em 2 semanas de trabalho, já que faziam isso nas horas vagas”, conta Fernando Lauletta, um dos sócios do estúdio, em entrevista ao JUDÃO. “Além deles, tem nossos amigos do Projeto Nave e alguns MCs que tinham a mesma dificuldade de produzir as fitas”.

Segundo Lauletta, ele e o parceiro Luis Lopes estavam há muitos anos procurando duplicadores, sempre olhando em leilões e colocando no papel se valeria a pena trazer as máquinas. “Além do custo de importação altíssimo ainda tinha o problema do transporte, já que elas pesam mais de 200 kg cada. Mas mesmo assim, era um sonho que ficava maior à medida que víamos o desespero do pessoal duplicando fita por fita”, explica.

Eis que então no mês passado surgiu a oportunidade de comprar a tal máquina, que estava inutilizada em uma duplicadora de São Paulo que produziu muitas fitas nos anos 1980 e 1990 – mas foi deixada parada por mais de 20 anos. “Além de tudo, a gente conhece o cara que fez manutenção nesse sistema e ele nos garantiu que todos os duplicadores estavam em excelente estado de conservação e que as cabeças dos gravadores eram trocadas periodicamente. Então não deixamos a chance passar e compramos”.

Eles ainda não estão oficialmente em operação (“estamos terminando de alinhar as máquinas e aguardando a chegada da matéria prima”), arrumando a sala na qual o maquinário vai ficar, porque é preciso ar-condicionado 24h e cuidado extra com a umidade do ambiente. Mas a FLAPC4 revela que já estão com várias solicitações, prestes a fechar os valores e prazos de entrega. “Estamos tentando trabalhar na faixa de 10 a 13 reais (por fita). Pesquisando, até nos assustamos com a quantidade de selos nos Brasil que usam essa mídia, e a maioria deles segue na guerrilha de gravar fita por fita”.

Mas, explica aí, afinal POR QUE uma gravadora/selo musical estaria cogitando a hipótese de fazer um lançamento em fita cassete? “Acreditamos muito no formato que se tornou muito mais atrativo para algumas vertentes musicais do que o CD”, aposta Fernando. “Seja para MCs, selos de música alternativa, metal, DJs ou beatmakers, as fitinhas têm um potencial comercial maior do que o CD e são muito mais baratas do que os discos de vinil. O publico vê as fitinhas como itens raros e altamente colecionáveis”. Vejam vocês o caso do Metallica, por exemplo, que relançou a sua hoje tão cobiçada demo tape em formato de fita cassete, apenas para iniciar uma sessão coletiva de tapas entre colecionadores interessados.

A dupla brasileira bota fé que até alguns artistas mais mainstream e gravadoras brasileiras vão se interessar em fabricar esse produto, seja como item colecionável ou mesmo pros entusiastas que têm ou pretendem adquirir um player de cassete, ou até desenterrar o velho tape deck ou o walkman esquecido no armário. “Esse sim é o cenário mais legal e nostálgico”.

Mas e quem não guardou o bom e velho walkman, como faz? “Aqui no Brasil, não temos conhecimento de algum grande fabricante que esteja importando players e colocando à venda no mercado de varejo, mas você poderia importar um walkman direto da China por esses sites especializados ou mesmo buscar um de segunda mão. Tudo isso também faz parte de uma experiência de exclusividade quando alguém compra uma fitinha, que é ter algo um pouco diferente do que existe no grande mercado consumidor”.

Walkman

E a tal da qualidade de som? Como ficam as fitas cassete na comparação com o MP3, o CD e o vinil? “Olha, o MP3 é sim bem ruim, só deu certo porque a conexão de internet na maioria dos lugares era terrível e as pessoas dependiam dessa compressão toda para ficar viável baixar discos”, explica Lauletta, que ainda arrisca dizer: “com o aumento da velocidade de download, com certeza o MP3 tem os dias contados”. Quanto aos outros que ficaram na briga, ele contraria os audiófilos e diz que todo mundo tem mais ou menos a mesma qualidade. “Tudo depende da qualidade de duplicação e do player que o consumidor vai usar. Mas o cassete e o vinil colocam uma curva a mais no som, pelo limite físico do espaço do som analógico”.

Parte de sua empolgação vem, por exemplo, dos ótimos números da National Audio Company, empresa da cidade norte-americana de Springfield, Missouri, uma das últimas fábricas de cassetes em atividade no planeta. E vejam vocês, 2015 foi o melhor ano da empresa, comercialmente falando, desde a sua abertura, em 1969. “Nosso modelo de negócios pode ser categorizado como teimosia e estupidez. Somos teimosos demais para desistir”, afirma Steve Stepp, presidente da NAC, em entrevista para a Bloomberg.

Se em 2014 eles venderam mais de 10 milhões de fitas, os números subiram surpreendentes 20% em 2015. E tudo isso usando rigorosamente as mesmas máquinas dos anos 1970 para dar vazão tanto à material de bandas independentes quanto de músicos vindo de parceiros maiores como Sony ou Universal. “Provavelmente, a coisa que mais fez o nosso negócio voltar a crescer tão rápido foi este movimento retrô”, afirma Stepp. “Sabe, esta nostalgia de segurar uma fita cassete em mãos”.

Mas Lauletta é realista aqui no Brasil. E não se deixa alucinar com os resultados vibrantes dos discos de vinil, que andam dando uma surra até mesmo nos seus irmãos mais moderninhos. “Nem na mais otimista projeção enxergamos uma onda de crescimento como a do vinil, apesar da qualidade do cassete poder até ultrapassar se você tiver um player muito bom como os Nakamichi”, diz.

“Não achamos que vamos competir com o disco de vinil, mas mesmo assim vemos um mercado enorme porque o custo do vinil é ainda muito alto, o que restringe bastante o público, e às vezes, para um fã que quer comprar um ítem exclusivo do artista, o cassette cabe melhor no bolso”.

Pois é, preparem-se para deixar o shuffle e as playlists um pouco de lado – e ‘bora ouvir o disco do início ao fim, de cabo a rabo, como nos velhos tempos. Just push play. Com alguma força, claro.

PS: Recomenda-se manter uma CANETA ESFEROGRÁFICA sempre a postos. Nunca se sabe.