As impressionantes viradas de mesa da 2a temporada de Mr. Mercedes | JUDAO.com.br

Na reta final, trama vai pra um lugar COMPLETAMENTE diferente do livro — gerando uma discussão bem interessante e encerrando com uma segunda virada na trama que WOW!

SPOILER! A primeira temporada de Mr. Mercedes, série de TV que adapta a trilogia do ex-policial Bill Hodges escrita por Stephen King, foi bastante inteligente no quesito “adaptação”. Mudou o que precisava mudar para ganhar em dinamismo, acrescentou algumas poucas coisas para ajudar a dar mais impacto visual, arrancou umas sobras que não ajudariam a contar a história e, principalmente, fez tudo caber numa única temporada — quem lê o livro sabe que ali não teria espaço para esticar, pra encher muita linguiça. Deu certinho.

Se tivesse sido o fim da série, tava tudo bem, tudo amarrado, sem mistério. Mas aí então rolou a confirmação da segunda temporada e, de imediato, já deu pra sacar que os produtores não tiveram medo de seguir pelo mesmo caminho, a começar pela decisão de esquecer completamente o segundo livro da série, Achados e Perdidos. Apesar de manter a trinca Bill / Holly / Jerome, tamos falando de uma história totalmente desconectada da trama envolvendo o serial killer Brady Hartsfield. Ia ser meio “calma aí, galera, dá pause em tudo que apresentamos na temporada 1, voltamos a isso no ano que vem, agora vou contar OUTRA história”. Não dava, né.

Então, a segunda temporada de Mr. Mercedes foi direto e reto para o Último Turno. Que também era um risco BEM grande, já que estamos falando de uma trama na qual King, originalmente, enfia uma pegada sobrenatural numa trama policial, abordando controle da mente no que deveria ser apenas uma caçada de gato e rato. A conclusão do livro, portanto, gerou uma baita polêmica entre os leitores na época do lançamento. Os produtores poderiam simplesmente ter abraçado o conceito, escancarado de vez e dane-se. Mas, de novo, foram bem inteligentes ao tratar o assunto com sutileza.

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O psicopata vivido com brilhantismo por Harry Treadaway, mesmo em coma numa cama de hospital, continuava assustador e revoltante, graças ao retrato de sua mente em plena atividade presa no que parecia ser uma espécie de sala de controle no porão de sua antiga casa. Dali ele olhava tudo que tava acontecendo, gritava, reagia, ainda que seu corpo não respondesse. E dali ele também passou a manifestar estes estranhos “poderes”, por conta da medicação ilegal ministrada por um médico ambicioso. Mas nada da telecinese do livro: ele passou a ser uma espécie de “presença” que influenciava as mentes mais fracas dentro das quais conseguia entrar. O jeito que tudo foi retratado não era exagerado, quase X-Men, o que ajudou de alguma forma a manter o clima de tensão policial da 1a temporada.

Mais um ponto positivo aí.

Foram mais uma vez espertos ao aumentar o papel do Dr. Felix Babineau, que virou bem mais do que um boneco de carne para o Brady, criando um relacionamento ampliado com sua mulher, que de breve aparição no livro agora se tornou representante do laboratório farmacêutico que queria a todo custo testar ilegalmente um coquetel de drogas para negociar com um conglomerado chinês. O mesmo vale pro livreiro do hospital, Al, que ganhou mais contornos e do qual a gente passou a sentir pena genuína por conta de seu destino terrível (mas palmas pro ator Mike Starr, que conseguia alternar a inocência do personagem com a expressão cruel de quando Brady o estava influenciando de maneira incrível).

Apareceram com um representante da procuradoria, Antonio Montez, que ajudou a dar uma carga emocional ainda maior e gerou bons conflitos com Bill. E a aproximação do ex-policial com a ex-mulher, Donna, uma relação que também não existe nas páginas do livro, fez todo o sentido aqui. Não pesaram a mão no lado humorístico da vizinha Ida, que até ganhou um relacionamento pra chamar de seu, mas pesaram na treta entre Jerome, cheio de dúvidas sobre seu destino em Harvard, e seu pai.

Tudo isso dava o espaço devido para tanto o protagonista Brendan Gleeson quanto sua principal parceira em cena, uma Justine Lupe entregando uma interpretação lindíssima para Holly Gibney e seus múltiplos tiques e toques, brilharem um bocado. Foi lindo demais, mesmo.

Pois então que a construção narrativa toda do que parecia ser o plano original de Brady conforme o livro, com as pequenas mudanças necessárias, vinha indo muito bem. Dava a impressão de que uma “cama” estava sendo construída nos primeiros seis, sete episódios, preparando então para que a coisa da “rede de suicídios” que o desgraçado influenciaria usando aqueles malditos tablets genéricos fosse ser mais eficientemente contada ao longo de uma terceira temporada, sem muita correria.

Só que o bicho começou a pegar já no final do episódio 7, quando Al, com Brady rondando sua mente, ataca Bill em sua casa, numa cena sufocante, brutal, e que termina com um desfecho que é um verdadeiro soco no estômago: um tiro no testa do pobre sujeito. Mas aí veio o episódio 8 e, bom, a loucura tinha tomado conta da bagaça, porque os produtores seguiram por um caminho total e completamente diferente do livro. Não, Brady não dominou completamente seu médico, depois de deixar o Al pra lá. Na verdade, o Brady retomou completamente a consciência, levantou da cama e saiu do hospital pela porta da frente.

Não apenas os personagens todos ficaram boquiabertos como os espectadores — e não só quem já leu os livros e pensou “caralhos, como assim?”, o que já seria uma surpresa legal demais. Mas também foi pra quem apenas acompanhava a série, justamente porque isso parecia algo completamente impossível de acontecer, eles não tinham dado qualquer pista a respeito. Confesso que me incomodou e, ao mesmo tempo, agradou um bocado. Simplesmente não estava esperando.

O nono episódio, Walk Like Man, só ajudou a virar tudo ainda mais de pernas pro ar. Porque Brady procura o médico e a esposa e, apesar de parecer ainda bastante ameaçador, começa a mostrar um lado diferente. Aparentemente, a última cirurgia cerebral à qual foi submetido teria servido como uma espécie de lobotomia, criado um “novo” Brady, alguém com mais compaixão, alguém que se “arrepende” de seus crimes. Eis que então ele se entrega à polícia. E pede um julgamento. E a segunda temporada de Mr. Mercedes se torna, nos dois últimos episódios, de uma série policial com uma pitada sobrenatural em um drama de tribunal.

Caraca, gente! UAU.

Passamos dois episódios sendo questionados por uma interessante questão ética: como este “novo” Brady pode ser julgado pelos crimes do “antigo” Brady, cuja personalidade foi apagada à sua própria revelia? Ele não deveria, talvez, ser realmente estudado para que estas drogas pudessem ajudar outras pessoas com graves problemas cerebrais e de recuperação motora? E também ficamos nos questionando: “este cara é muito filho da puta, certeza que ele tá fingindo tudo isso, ele planejou cada etapa desta merda”. Mas... será mesmo? Nunca fica de verdade claro. E só aí a coisa já tava se desenvolvendo e desenrolando muito bem. Até a OUTRA virada inesperada no final do último episódio.

No julgamento, depois de um diálogo emocionante e um depoimento tenso, Lou Linklatter, a melhor amiga de Brady, aquela que ele esfaqueou no final da temporada 1, sussurra em seu ouvido: “eu nunca vou perdoar você” e saca uma arma com a qual dá um tiro no olho do camarada, que morre na hora. Uma arma feita com uma impressora 3D e com munição coberta de cerâmica, numa técnica que ELE ensinou para ela, que nunca seria apanhada pelo detector de metais e outro pulo na cadeira. Outro desfecho completamente inesperado. Outra surpresa incômoda da qual não sei se gosto por completo, que ainda tô digerindo. Mas que foi, justamente por isso, simplesmente incrível.

Não foi a surpresa pela surpresa, o pulo na cadeira em si. Mas também é uma surpresa que faz sentido, com o restante da trama, no fim. Só você (e eu) é que não tava esperando.

Se a gente quiser considerar a série finalizada por completo, até dá, porque a bola amarela e o carrinho de sorvete que cruzam o caminho de Bill Hodges nos últimos segundos do season finale meio que ajudam a amarrar tudo com o começo da primeira temporada. Tá bom, tá bom, teve um MONTE de subtramas que ficaram soltas, que podiam ser retomadas num eventual terceiro ano, o lance da faculdade do Jerome, o relacionamento da Holly com o sujeito do grupo de apoio... Mas vamos combinar, de verdade, que ninguém ali tava REALMENTE muito focado nisso. O embate entre Bill e Brady era mais importante do que tudo. E, em termos de encerramento, dá pra dizer que funcionou bem, ainda que não tenha sido Bill que o matou — e, de verdade, foi MUITO mais legal assim, porque ajuda a subverter esta coisa toda de herói e vilão.

Mas tem uma coisa ali, depois da morte de Brady, que é o estranho sorriso que se forma no seu rosto, pouco antes de morrer. Teria ele concluído uma parte do seu novo plano? Talvez transferido sua consciência para o corpo do Felix quando morreu? O incômodo e inesperado beijo na esposa do médico (aliás, que cena, ARREMARIA) poderia significar uma válvula de escape caso tudo dê errado? Talvez ele tenha alojado parte de sua consciência dentro do cérebro DELA? “Ele tá espalhando a presença dele pelas máquinas, deixando uma pegada digital”, disse a Lou, numa fala que pode ter passado meio despercebida quando a moça é procurada por Bill depois que o “amigo” foge do hospital.

As possibilidade são INFINITAS para uma terceira temporada, que pode ser totalmente nova, totalmente livre dos livros, abraçando MESMO este conceito mais pirado. Pode ser uma bosta. Mas e se não for...?

A gente sempre diz aqui que livro é livro, gibi é gibi, filme é filme. E isso os produtores e roteiristas de Mr. Mercedes entenderam melhor do que muuuuuita gente. Caso uma terceira temporada realmente se concretize, a estrada tá livre, leve e solta pra eles fazerem o que quiserem. Pensa em como isso é legal pra eles, enquanto criadores, e pra gente, que tá aqui do outro lado, esperando pra consumir conteúdo de qualidade.

Pra mim, só vem.