As muitas cores, sensações e narrativas de Tungstênio, o filme | Judão

Adaptação da premiada HQ de Marcelo Quintanilha tinha um desafio incrível que era levar a progressão e ritmo do material original para as telonas — e conseguiu superar com maestria.

Quando falamos sobre adaptações cinematográficas, explicações sobre mudanças narrativas sempre são necessárias. Tungstênio, a HQ, é uma obra incrível e o autor Marcelo Quintanilha faz sua história acelerar e ganhar força à medida que a trama se intensifica. Para levá-la ao cinema, o grande desafio do diretor Heitor Dhalia e dos roteiristas Fernando Bonassi e Marçal Aquino era encontrar uma forma de adaptar uma progressão narrativa envolvente como o material original. E, para nossa sorte, eles conseguiram.

Meu primeiro pensamento enquanto assistia a Tungstênio, o filme, foi Faça a Coisa Certa, clássico escrito e dirigido por Spike Lee. Na trama de 1989, diferentes grupos sociais de um bairro no Brooklyn entram em uma espiral de violência durante o dia mais quente do ano. Assim como no filme de Lee, a narrativa de Tungstênio também se desenvolve a partir de um evento aparentemente casual.

Tungstênio acompanha quatro personagens centrais: o policial Richard (Fabrício Boliveira), que faz suas escolhas movido por seus instintos; sua esposa Keira (Samira Carvalho), que está firme em sua decisão de se separar do marido; o garoto Cajú (Wesley Guimarães), um pequeno traficante que tenta sobreviver com o que a vida lhe oferece; e Seu Ney (Zé Dumont), um ex-sargento do exército saudosista dos tempos da ditadura.

De forma muito orgânica, os quatro buscam por caminhos que lhes pareçam corretos, o que não quer dizer que sejam necessariamente certos fora da realidade dos personagens. Os dois materiais de Tungstênio, HQ e filme, sabem explorar a nossa realidade brasileira – tensões, exclusões sociais e a habitual violência urbana. Mas, ao mesmo tempo, a narrativa também sabe explorar como essas exclusões sociais e falta de relações saudáveis afetam cada um deles e a suas maneiras de lidar com o mundo.

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Inevitavelmente, analisamos qualquer filme ou livro a partir das nossas visões, experiência de vida e estrutura sociais. É muito difícil nos afastarmos do pensamento egoísta sobre o que faríamos se estivéssemos na situação dos personagens. Por exemplo: aos meus olhos, a relação entre Richard e Keira é complexa e abusiva, tanto na HQ, quanto na versão cinematográfica; mas existiu uma óbvia preocupação em não transformar Richard em um vilão, já que essa relação destoa do material original. Enquanto na HQ Richard é bem mais agressivo com Keira, no filme o relacionamento ganha mais espaço e tem tons mais passionais.

Fabrício Boliveira e Samira Carvalho – que DEBUTA como atriz – entregam uma química evidente e souberam frisar as óbvias diferenças entre os personagens. Enquanto Fabrício segue seu instinto e tem mais vivacidade, Samira é quem menos fala, mas mais entrega em termos de dramaticidade. O desejo e o medo de abandonar aquela vida são evidentes em cada olhar da personagem. Em um filme recheado de homens que falam e fazem o que querem, Keira é oprimida – e se oprime – por não ter sua voz ouvida.

Mas a relação entre Cajú e Seu Ney é o que impulsiona essa narrativa. Em suas vidas, ambos seguiram caminhos a partir das oportunidades oferecidas pela vida. Em lados opostos, a linha fina entre a convivência pacífica e o confronto se torna nebulosa quando as frustrações de Seu Ney explodem. Como um sargento reformado do exército, o sujeito tenta usar as lembranças do passado da ditadura para contestar qualquer opinião diferente da sua.

Cajú cresceu em uma realidade diferente da desejada por Seu Ney e trilhou caminhos que a vida foi apresentando. Enquanto o ex-militar acredita na disciplina e na hierarquia, o jovem crê na lei do mais forte, apesar de ainda manter certo nível de moralidade, um fator importante nesse filme, porque cada um tem sua própria dinâmica, seja pela forma como eles veem o mundo ou pela forma como lidam com ele.

Por sinal, a excelente narração é um ótimo exemplo dessas diferenças morais. Fugindo da terceira pessoa, onde alguém relata de forma distante o que vê ou o que sabe do futuro e quer apenas nos guiar durante a história, o narrador de Tungstênio (Milhem Cortaz) tem tons “machadianos”. Aqui, ele é um personagem importante ao assumir o papel de provocador, torcedor, instigador, incentivador e, por vezes, profeta. Ele sabe mais do que você e os próprios personagens, e isso é genial.

Existe uma óbvia diferença sobre o jeito como respondemos à narrativa desenhada e a versão cinematográfica. E a produção encontrou formas interessantes de driblar essas dificuldades. O primeiro é o ritmo, um fator essencial para que a narrativa de Tungstênio funcione. Com quatro pontos de vista que se desenrolam de forma simultânea, a narrativa se desenvolve naturalmente.

A escolha do diretor de fotografia Adolpho Veloso por um estilo cartunesco também foi um belo acerto. Durante minha conversa com Dhalia (mais dela em breve aqui no JUDAO.com.br), ele afirmou que se preocupa bastante com a fotografia dos seus filmes e que existe certa dificuldade em criar cenas que não são esteticamente belas. Essa preocupação do diretor foi refletida em uma fotografia muito bonita do início ao fim e que, diferente da HQ, escolheu cores vivas e muita luz para valorizar os tons de pele e das paisagens, expondo todos os seus traços.

Tungstênio terá um caminho desafiador a percorrer, já que o filme pode soar difícil para o público acostumado com um ritmo frenético das grandes produções baseadas em quadrinhos. Mas se o público se aventurar e decidir dar uma chance para a história, a recompensa será incrível.

Ah, e como prometido para o Dhalia, lhes informo que nenhum peixe morreu.