Assassinato no Expresso Oriente: modernizando a boa e velha história de detetive de Agatha Christie | Judão

Um dos mais famosos livros da “Rainha do Crime” é mais uma vez é levado às telas, com ares de superprodução, elenco estelar e um entretenimento classudo

É quase impossível que alguém nunca tenha ouvido falar de Agatha Christie. Mesmo que não tenha lido nenhuma obra da escritora inglesa, com certeza sua fama a precede, como uma das mais populares e importantes escritoras de mistério de todos os tempos. Isso porque os contos de detetive da “Rainha do Crime”, além de inspirar um sem número de autores e histórias, também já foram dezenas de vezes adaptados para o cinema, televisão e teatro, como Assassinato no Expresso Oriente, um dos seus mais famosos livros, cuja mais recente incursão chega nesta quinta aos cinemas brasileiros.

Dirigida pelo bardo Kenneth Branagh, que também interpreta o perspicaz detetive Hercule Poirot — criação máxima de Christie — a adaptação é um tentativa classuda de modernizar e trazer para uma nova audiência o famoso livro que conta a história de um crime que acontece no suntuoso trem que ligava Constantinopla até Paris, mesmo que permaneça ambientado na década de 30.

Um infame MARCHAND, Edward Ratchett, interpretado por Johnny Depp, é assassinado durante a parada forçada do trem devido a uma forte nevasca. Cabe a Poirot, que estava a bordo, junto de seu suntuoso bigode, massa cinzenta altamente desenvolvida e brilhante capacidade de dedução — além do TOC, é claro — desvendar quem foi o responsável por ceifar a vida do pobre diabo (que, pra alguns, pode ser só diabo. E que, pra alguns, pode ser na realidade um momento catártico).

A investigação é colocada em curso e todos que pernoitaram no vagão onde ocorreu a morte são suspeitos, principalmente quando descoberta a verdadeira identidade da vítima: Lanfranco Cassetti, responsável pelo sequestro e assassinato de Daisy Johnson, um bebê de três anos de idade, que conseguiu escapar impune pelo seu crime (mais uma vez, pra alguns, a realidade pode bater forte).

Todos ali presentes, direta ou indiretamente, tiveram alguma ligação com o ocorrido e, portanto, motivo para cometer o ato. Interrogando, extraindo informações importantes, buscando pistas, descobrindo mentiras, ligando os pontos e fazendo suas deduções, ao melhor estilo “Coronel Mostarda matou a Dona Branca com um castiçal no hall”, o brilhante Poirot chega a sua conclusão em uma narrativa clássica da história de detetive, com a reviravolta da revelação final, sem nenhum tipo de moda inventada.

Direção precisa de Branagh, com algumas sequências e plano de câmera dignas de nota, excelente design de produção, figurino e ambientação de época, contando com pesos pesados no elenco, de Penélope Cruz à Willem DaFoe, de Judi Dench à Michelle Pfeiffer, Assassinato no Expresso Oriente é daqueles entretenimentos faceiros com o qual você pode muito bem gastar duas horas da sua vida na boa, e ainda consegue, intencionalmente ou não, levantar diversas questões sobre preconceito racial, étnico e de classe, jogando na nossa cara que, mesmo depois de 80 anos, a sociedade, principalmente elitista, ainda mantém mesmos vícios e pensamentos retrógrados.

Apesar disso, sofre por apostar na batida fórmula do whodunit que, depois de ser explorada amplamente em absolutamente todas as mídias — dos livros, filmes, jogos de tabuleiro, séries de televisão à paródia — acaba não trazendo nada de novo para o front, entregando uma produção bem careta e convencional, até enlatada em certo sentido, mesmo que de qualidade, e pode não agradar tanto assim essa nova audiência.

Mas, para os fãs de Christie, de Poirot e seu bigode de respeito, os saudosistas e os amantes das boas e velhas histórias de detetive tradicionais, Assassinato no Expresso Oriente é aquele passatempo certeiro e descompromissado que o cinema pode proporcionar.

E, elementar, isso não é nenhum crime!