Ceci n’est pas un Batman | Judão

No entanto, isso não quer dizer que o segundo volume de Batman: Terra Um, finalmente publicado no Brasil, seja ruim

“Ceci n’est pas une pipe”. Ou, em português, “Isto não é um cachimbo”. Foi isso que o pintor belga René Magritte escreveu em um quadro no ano de 1929, justamente abaixo de um cachimbo. O nome da obra? A Traição das Imagens.

É curioso pensar que em uma das passagens de Batman: Terra Um vol. 2, lançado no Brasil pela Panini agora em dezembro (um ano e meio depois do lançamento nos EUA), os personagens estão justamente visitando uma exposição de Magritte em Gotham. Talvez seja uma mensagem do roteirista Geoff Johns: “Isto não é o Batman”.

Lá em 2012, quando a DC lançou o primeiro volume – parte de uma série que reinventa os super-heróis da editora em histórias publicadas em encadernados fechados com foco em livrarias – essa impressão já tinha ficado clara. Johns tentou desconstruir alguns elementos clássicos do Homem-Morcego, olhando para lados que os roteiristas anteriores nunca deram muita atenção enquanto reciclava algumas ideias de outros autores (ou filmes).

Este Bruce Wayne perdeu os pais, claro. A diferença é que a Martha, a mãe, era herdeira do clã Arkham, taxado de louco por toda a sociedade. Além disso, Bruce não se aventura pelo mundo para buscar treinamento. Na verdade, ele é apenas um garoto mimado, que passa a viver recluso e eventualmente descobre que o cara que se diz “mordomo” da casa é, na verdade, um segurança habilidoso contratado por Thomas Wayne antes de morrer. É esse cara – Alfred – que vai lá e treina Bruce, que resolve se vestir de morcego para vingar a morte dos pais.

O segundo volume começa pouco depois do primeiro, após o Batman conseguir se vingar do prefeito Oswald Cobblepot, mas apenas para descobrir que ele não tem relação direta com o assassinato dos Wayne. Então Bruce meio que vai descarregando a sua frustração nos bandidos de Gotham, socando a cara de todos. Isso tudo sem muito planejamento ou entendimento de suas ações.

E é aqui que a metáfora e Magritte se encaixa. “Isto não é um cachimbo” porque, por mais que pareça um, ainda é um desenho, uma representação gráfica dele. Este aqui não é Batman, apesar de ter orelhas pontudas, morcego no peito e atender pelo nome civil de Bruce Wayne. A diferença é que o cachimbo de Magritte nunca será um cachimbo. Já o Homem-Morcego da Terra Um tenta ter um destino melhor a partir deste segundo volume.

Johns faz questão de mostrar o tempo todo o quanto o Batman dele não é Batman. Ele pisa em provas, não faz planos e chega a até confiar cegamente em outras pessoas. Aliás, nem o Alfred é muito o Alfred. Ele não sabe cozinhar direito, se irrita ao ser chamado de mordomo e reprova as atitudes de Bruce Wayne – não por ele querer sair por aí atacando bandidos, mas por fazer isso usando um collant ridículo e por não os deixar morrer, eventualmente. Soa um pouco como o Alfred de Batman vs. Superman, mas com um passo a mais.

A mesma linha segue pelos vilões dessa segunda história. O Crocodilo é exatamente o oposto da versão tradicional, algo que é de fato interessante. O Charada também não é nada do que estamos acostumados, mas é em Harvey Dent que as mudanças ficam ainda mais claras.

O único ponto conhecido é Jim Gordon. Ele ainda não é comissário, mas soa muito como o Gordon que conhecemos e confiamos. Talvez ele pudesse ser um policial corrupto, mas, hey, Geoff Johns já brincou com muitos elementos por hoje.

De qualquer forma, o segundo volume de Terra Um traz uma HQ bem interessante, com um certo ar de suspense e mistério – nada de muito incrível, mas o CHEIRINHO está lá. A arte de Gary Frank também segue incrível, com 160 páginas cheias de sequências de ação incríveis e ótimas splash pages.

O ruim é que Frank – obviamente seguindo o roteiro do Johns – troca o uniforme do Batman no meio do volume. Se antes tínhamos, pra mim, um dos melhores uniformes do herói na última década, agora temos um visual no mínimo esquisito. Tudo porque resolveram tirar a oval amarela do morcego no peito, substituída por um escudo no formato de diamante, praticamente igual ao do Superman. Não precisava.

Mesmo com tanto tempo de atraso, a edição brasileira não faz feio. Segue quase o mesmo formato da americana, perdendo apenas a capa fosca com detalhes em verniz (aqui é totalmente envernizada, o que é um imã pra marcas de dedo), além de trazer um papel mais brilhante no miolo, o que, particularmente, me irrita um pouco. A diferença por melhor é que, por aqui, foram adicionados os nomes do arte-finalista Jon Sibal e do colorista Brad Anderson na capa, coisa que não acontece na versão gringa.

No final, Batman: Terra Um vol.2 é uma boa história. Só não espere encontrar o Batman nela. Talvez no terceiro volume...