Ben Stiller, ator de drama | Judão

Como o fracasso de A Vida Secreta de Walter Mitty jogou Ben Stiller na melhor fase da sua carreira – e, ironicamente, o tem levado mais e mais perto do Oscar

O ano era 2013 e Ben Stiller levava aos cinemas o seu projeto mais ambicioso até então: a dramédia A Vida Secreta de Walter Mitty, produzida, dirigida e estrelada por ele e inspirado num conto do escritor norte-americano James Thurber. O projeto do filme vinha havia mais de uma década se arrastando por Hollywood e, agora que finalmente alçaria voo, estava agitando o MEIO do entretenimento com a junção constante de três alcunhas: Walter Mitty + Ben Stiller + Oscar. :D

Foi justamente fascinado pela possibilidade do filho do Seu Jerry pintar numa disputa por um careca dourado que nosso querido Thiago Borbolla, vulgo Borbs (ou BORBOLLOVE, pros bem íntimos) sentou-se cara a cara, tete a tete, com o próprio Ben Stiller e perguntou se rolava alguma pressão com todo esse hype pintando. “Não, eu nunca tive de me preocupar com isso. Nunca foi um problema para mim, então não vou começar a me preocupar com isso agora, sacomé?”, respondeu ENTRE RISOS o já grisalho rapazote.

Que bom, porque assim que A Vida Secreta de Walter Mitty chegou aos cinemas...

Ostentando um nada elogioso SCORE de 51% de aprovação no Rotten Tomatoes, o filme não poderia ter passado mais longe da corrida do Oscar. Criticado por deturpar o sentido da obra de Turber, trazer mais uma história sobre um homem branco de classe média tornando-se um herói por viajar e, principalmente, por jogar fora seu principal atrativo (as fantasias loucas de seu protagonista) na metade do filme, o tour de force de Stiller acabou relegado apenas ao coração do público, que o transformou num hit do tumblr e de posts motivacionais em redes sociais, alçando a nota do IMDb da criança para surpreendentes 7,3 – entre outras coisas.

É curioso, porque, de uma certa forma, A Vida Secreta de Walter Mitty é um bom filme. Sua fotografia é brilhante. Algumas de suas cenas são contagiosamente memoráveis e as atuações tanto de Stiller quanto de Kristen Wiig carregam uma sinceridade e um charme realmente marcantes. Porra, eu mesmo gosto bastante do filme. Só que eu sou exatamente o público dessa história elitista, milimetricamente projetada para trazer conforto a pessoas que podem, se quiserem, se dar ao luxo de viajar para “se encontrarem”. É uma narrativa batida, mas embalada num pacote tão lindo de sentimentalismo e carisma que, garoto, como engana.

E aí tem o problema das PROPAGANDAS. Este clipe protagonizado por um jovem George Clooney, em O Retorno dos Tomates Assassinos, sintetiza bem o espírito.

Além de todo o hype, Walter Mitty também chamou muita atenção, na ~sua época, por marcar um papel mais sério de Stiller nos cinemas, depois de sete filmes que foram ou comédias, ou infantis. É fácil esquecer, até porque os besteirois dos anos 90 foram extremamente marcantes para Stiller (tanto quanto para Adam Sandler, Jim Carrey e outros grandes atores que se fizeram com comédias), mas o primeiro papel de destaque do ator rolou no drama de época O Império do Sol, de Steven Spielberg – a partir do qual, mesmo que entre três comédias ali e quatro filmes infantis aqui, Stiller sempre conseguiu encaixar um drama independente, um filme mais sério.

Dentro dessa INTERMITÊNCIA, Walter Mitty quebrava uma sequência e fazia isso duma forma única até então (com Stiller à frente e atrás das câmeras). Nada menos que lógico, portanto, perguntar como ele via seus projetos dali para frente. E foi exatamente o que o Borbs fez. “Eu adoraria fazer mais filmes sérios, de diferentes gêneros, com certeza, filmes nos quais eu não esteja atuando. Eu tou ansioso por isso. E também fazer comédias, claro”, disse Stiller, antes de afirmar que, apesar disso tudo, esperava dirigir mais que atuar, nos anos PORVIR.

Ben Stiller em O Estado das Coisas

Bom, alguns desses anos vieram e, desde então, apenas um filme levou a assinatura de Stiller por trás das câmeras: a sequência para o clássico cult homônimo, Zoolander 2. Em contrapartida, no entanto, o número de atuações do cara — bem como os filmes nos quais elas rolaram — mostram uma mudança bem interessante.

Há alguns dias, aqui no Brasil, chegou a alguns cinemas o filme O Estado das Coisas. Ele conta a história de um pai neurótico (Stiller), com crise de meia-idade, que vive numa constante medição patrimonial psicológica (entre ele e ele mesmo) com seus amigos da época de escola, todos altamente ricos e bem-sucedidos. Frustrado, ele passa a projetar na busca do filho (Austin Abrams) por uma universidade toda a sua esperança num futuro de sucesso maior, fazendo com que uma viagem dos dois se transforme numa lição de redescoberta não só da sua relação com o garoto, mas também de si mesmo e de sua visão de mundo.

Não preciso dizer que não se trata de uma comédia, mas sim de uma ~dramédia né? E daquelas que, em certos momentos, podem parecer pessimistas e lamentáveis demais até para o mais carrancudo dos espectadores — mas que trabalha isso para fortalecer um impacto que, quando bate, bate BEM forte. Só que o mais interessante é que ela é a segunda dramédia do ano, de dois filmes com Stiller (o outro sendo Os Meyerowitz).

Aliás, quando se estica a janela temporal da carreira do cara até o lançamento de Walter Mitty, dos seis filmes nos quais atuou, quatro eram dramas cômicos (Não Pense Duas Vezes, Enquanto Somos Jovens, Os Meyerowitz e O Estado das Coisas), enquanto um era uma comédia (oi de novo, Zoolander 2) e o outro, um infantil (Uma Noite no Museu: O Segredo da Tumba).

Se Stiller não conseguiu parar para dirigir os filmes que disse querer lá em 2013, ao menos conseguiu trabalhar em projetos diferentões de lá pra cá, inclusive voltando aos gêneros que o tornaram meio que um clichê humano de Hollywood apenas para fazer duas sequências – e se dedicando a projetos originais em um gênero muitas vezes mais artístico. E isso, acidental ou não, é ótimo.

Porque por mais que seja um bom diretor, Ben Stiller é muito melhor ator. :D

Vamos analisar a carreira do cara por trás das câmeras, começando por Caindo na Real. Lançado em 1994, o primeiro longa-metragem do cara foi recebido de forma mista pela crítica e realmente mereceu. Numa pegada MUMBLECORE na qual Stiller viria a tornar-se um muso graças a Noah Baumbach, o filme perdia o tom ao parecer muito livre, muito informal, funcionando muito mais com um exercício do que propriamente um... filme. Pelo menos, com um elenco estelar que incluía Ethan Hawke, Winona Ryder e o próprio Ben, o longa se deu bem nas bilheterias, garantindo uma segunda chance para seu diretor dois anos depois com…

O Pentelho. Sim, o filme que, segundo Homer Simpson, quase destruiu a carreira de Jim Carrey. Aqui, Stiller começava a mostrar uma capacidade impressionante de controle sobre estilo, e fugia da fluidez do filme anterior para contar uma história bem mais estruturada, rígida, mas que falhou em conectar tanto com crítica, quanto com público. Apesar de cenas maravilhosas, como esse pesadelo que se transforma num episódio insano de Scooby-Doo, o filme não fez suce$$o. Mas virou cult. :D

Stiller ficou longe da direção por meia década, até que Zoolander chegou aos cinemas, em 2001, e mais uma vez conquistou o público. Os críticos, porém, só viriam a abraçar a direção de Stiller com a obra prima da comédia norte-americana da década passada Trovão Tropical — de fato, um raio de luz em meio à filmografia do diretor.

Só que era A Vida Secreta de Walter Mitty o predestinado a ser o divisor de águas. Deixar todos os filmes marromenos dirigidos por Stiller para trás e abrir alas a uma nova era para sua persona de diretor. Mostrando uma experiência incrível para conduzir cenas extremamente elaboradas, tinha tudo para conseguir. Tirando o roteiro. Zoolander 2, três anos depois... melhor nem falarmos sobre.

Meu ponto é: enquanto os filmes dirigidos por Stiller chegam apenas a raspar no que entendemos como boa qualidade de cinema, suas atuações em filmes dramáticos quase sempre são foco de elogios. Os Excêntricos Tenenbauns, em 2001; Greenberg em 2010; Enquanto Somos Jovens em 2014; e agora, principalmente, Os Meyerowitz, em 2017: todos esses filmes, ambiciosos às suas maneiras, tiveram a atuação de Stiller como destaque. O cara é bom. Muito bom.

E é igualmente muito bom em O Estado das Coisas. Stiller é dotado de duas capacidades, dois dons, que fazem dele o protagonista perfeito de dramédias existencialistas. Primeiro: um carisma fácil, que domina a linha fina entre alegria e tristeza e joga com ela para criar uma melancolia doce e relacionável. Segundo: uma ORDINARIEDADE marcante. Stiller é um cara comum. Transparece a aura dum cara comum. E, nisso, se transforma num bróder, num primo, num conhecido, te sugando para o universo do filme, contanto que esse universo não quebre essa natureza.

O Estado das Coisas é um filme sobre a nossa falta de visão do mundo. Sobre como a modernidade nos leva a um isolamento que nos cega para os problemas dos outros, nos deixando mesquinhos ao mesmo tempo que nos tortura e desespera. Stiller pega tudo isso e personifica com maestria — mas nunca assume uma aura antipática. Na realidade, nós passamos a sentir por esse cara, tão mergulhado num sofrimento que ele mesmo causa a si.

(Vale a pena um PARENTESE para louvar o diretor, que também atua no filme, Mike White, bem como o elenco de apoio, começando pelo incrível e jovem Austin Abrams e seguindo pelos igualmente sensacionais Martin Sheen, Jemaine Clemént e Luke Wilson — além da onipresente Jenna Fischer)

Atores especializados em comédia, quando desafiados a mergulharem em tons mais dramáticos, tendem a trazer consigo uma melancolia própria de quem entende que, para conseguir o riso, é NECESSÁRIO ter tristeza. Robin Williams foi certamente o maior nesse sentido, mas Carrey, Murray, Wiig e, claro, Stiller, também são incríveis. E num ano que Ben conseguiu roubar a cena de Dustin Hoffman e um absurdamente competente Adam Sandler, isso é dizer muito.

Não sei se, com A Vida Secreta de Walter Mitty, Ben Stiller estava mesmo tentando ABOCANHAR um Oscar. Acho possível, mas o filme me parece tão distante do que a Academia tende a premiar, ao menos com base nos últimos anos, que isso só faria os erros dele ainda maiores.

O que eu sei é que, desde que lançou aquele filme, a carreira de Stiller tem seguido pelo caminho mais interessante que poderia – e seus trabalhos têm ficado mais e mais ricos, artística e emocionalmente. Se de repente o cara pintar com uma estatueta dourada dentro dos próximos anos, não me surpreenderei.

E, de uma forma ou de outra, Walter Mitty terá desempenhado um papel nisso. ;D