Cangaço Overdrive: dá pra fazer gibi de gênero no Brasil SIM | JUDAO.com.br

Num ano em que falamos bastante de HQ nacional, um dos textos sobre quadrinhos mais lidos do site foi justamente de uma produção brasileira que faz uma mistura inusitada e que funciona lindamente, contrariando expectativas

“Ou a gente para com essa vida ou ela vai parar a gente”. Esta é a frase que o cangaceiro Capitão Cotiara, protagonista do gibi Cangaço Overdrive, diz para a sua amada Flor de Lis pouco antes do momento sangrento que mudaria a sua vida e ditaria os rumos da história daquela região, em pleno Ceará. O cangaço, este fenômeno do banditismo que se espalhou pelo Nordeste do país graças a diferentes grupos de homens em busca de justiça com as próprias mãos contra a falta de emprego e comida, encarando as autoridades da época e gerando uma classe tipicamente brasileira de personagens que caminham numa linha fina entre o vigilante e o sanguinário... É difícil de explicar e mais difícil ainda de exemplificar.

“O contraste social pode também tornar frágeis os limites entre bem e mal”, explicou pra gente o roteirista Zé Wellington em maio, numa entrevista que foi um dos textos mais acessados da área de quadrinhos do JUDAO.com.br. O que ele faz na história é justamente tentar mostrar os dois lados, fazendo de Cotiara um herói improvável, alguém disposto a abandonar, em nome do amor, a vida que tanto sofrimento lhe trouxe. Mas um alguém que não é um Superman, um santo mitológico intocado. Muito pelo contrário, aliás. Tanto é que seu único pensamento ao ser acordado muitos anos no futuro, numa realidade cyberpunk de altíssima tecnologia, ainda é encontrar o feladaputa do Capitão Avelino para enfim marcar com sangue sua vingança.

O grande segredo deste gibi, na real, é justamente a conexão maravilhosa que ele faz entre os dois lados da mistura. O cyberpunk, enquanto gênero, bebe pra caramba no cinema e na literatura noir ao ser repleto de personagens de moral duvidosa, fazendo com que heróis e vilões sejam conceitos um tanto ultrapassados. Neste sentido, buscar um cangaceiro como o elemento de estranheza não apenas combina idealmente ao dar o sabor brasileiro mas também ao criar esta conexão com a nossa história.

Mas, pelo outro lado, mesmo com comunicadores de última geração, conexões neurais e implantes cibernéticos, o que a resistência da periferia faz ao tentar impedir o que os macacos, a polícia, tomem conta da sua região é o que, bem ou mal, os cangaceiros faziam muitos anos atrás e o que um monte de gente ainda se vê obrigada a fazer em morros, ladeiras, córregos, becos e favelas, como já dizia a Nação Zumbi na música Banditismo Por Uma Questão de Classe: “Acontece hoje e acontecia no sertão / Quando um bando de macaco perseguia Lampião / E o que ele falava outros hoje ainda falam / Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala / Em cada morro uma história diferente / Que a polícia mata gente inocente”.

Ou, como bem deixa claro pra um Cotiara agora praticamente ciborgue (mas ainda pistola da vida) a Rosa, praticamente a líder do movimento de resistência em Preá: “Como tu acha que a gente mantém as visitas desagradáveis fora desse morro? Com beijo e abraço? Ninguém é santo aqui também”.

O cyberpunk é um futuro que fala pra caralho sobre o presente, é aquilo que a gente sempre fala sobre a ficção científica ser um reflexo dos nossos tempos. O grande tesão de Cangaço Overdrive, portanto, é ser certeiro ao falar do NOSSO presente. Ao usar os excessos do cyberpunk com a mitologia dos cangaceiros pra falar do Brasil DE HOJE.

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Depois de uma década sem chuva, o Ceará também ficou vazio de pessoas. O Brasil se partiu em dois e enquanto o sul se tornou aquele estereótipo clássico das megalópoles cyberpunk tipo Blade Runner, ultraconectadas, ultratecnológicas e ultralotadas, o Nordeste foi esquecido, tornando-se um imenso deserto prestes a ser entregue para uma grande corporação num programa de incentivo fiscal. Se você precisa de mais informação do que isso pra juntar 2 com 2, talvez precise ler com mais atenção algo que vá além das manchetes dos jornais.

Os desenhos de Luiz Carlos B. Freitas, que materializam os layouts do co-criador Walter Geovani, não apenas ajudam a caracterizar o grupo bastante diverso de personagens como a dar a agilidade necessária à ação, às ótimas cenas de luta (sejam elas com armas laser ou facões), além de também reforçar a familiaridade do cenário, este tal cyberpunk bem próximo da gente.

As luzes, hologramas e neons de Ghost in the Shell ficaram reservados pra São Paulo e Rio de Janeiro: neste Ceará futurista, o ambiente noturno que alterna entre o azulado e o violeta traz uma violência recorrente entre prédios caindo aos pedaços, pichados e descascados, com drones circulando pelos becos e fios/antenas improvisados, instalados como dá aqui e ali num armengue que, à luz do dia, tem tons de marrom que lembram uma favela.

O Nordeste cyberpunk, no fim das contas, é como se fosse uma gigantesca versão extrapolada, empoeirada e ainda mais assustadora do que os bairros da periferia dos filmes do gênero que rolam numas Los Angeles, Nova York ou Las Vegas futuristas. “A covardia é muito grande, mas ninguém tá desistindo. Morre cem de quando em quando, mil vai substituindo”, diz o narrador em tom cordelista.

Aliás, toma aí, outra sacada genial que eu acho que queria ter visto até ser usada ainda mais ao longo da história, talvez de maneira mais extrema: os flashbacks da história de Cotiara contados como se fosse literatura de cordel, tudo rimado de maneira melodiosa e numa linguagem popular. “O leitor provavelmente gosta de coisa futurista. Mas pra contar a história, confie nesse cordelista. Vamos voltar uns cem anos pra um tempo saudosista”, afirma o contador desta jornada de um século de sangue e vingança, num texto delicioso.

As cores do goiano Tiago Barsa ajudam a dar o tom diferente, a inserir a quebra narrativa, tornando tudo mais amarelado/sépia, mas se fosse para ser ainda mais provocador, eu teria inclusive mudado o traço naquele momento, deixando pelo menos os recortes mais próximos das xilogravuras que são tão comuns a este tipo de narrativa.

De qualquer maneira, isso não diminui em nada a força desta história, fácil, fácil um dos melhores gibis nacionais que tive a chance de ler no ano de 2018. E o tal do final aberto, que em outros casos eu poderia muito bem cravar como sendo uma saída fácil de quem quer tentar te convencer a acompanhar uma potencial continuação, é certeiro justamente porque é impossíveis chegar nas páginas derradeiras e não querer ver um pouco mais da missão final de Cotiara, a promessa que ele ainda tem de cumprir antes de finalmente pendurar o gibão.

Cangaço Overdrive daria um puta filme, uma ótima série, opção ainda mais interessante, curiosa e naturalmente nossa do que outras que tão pululando por aí. Mas, antes de tudo, Cangaço Overdrive daria uma senhora série em quadrinhos. Do tipo que pode até ganhar um spin-off contado apenas e tão somente em formato cordel. Este conceito eu compro DEMAIS.