Bingo: o rock star das manhãs brasileiras | Judão

Conversamos com o diretor Daniel Rezende e o protagonista Vladimir Brichta sobre a tragicomédia inspirada na vida de Arlindo Barreto, um dos caras que viveu o palhaço Bozo no Brasil

O cinema brasileiro é mais do que PRÓDIGO em comédias geralmente estreladas por Leandro Hassum ou Paulo Gustavo, ou então em obras sobre nossos problemas sociais e a respeito de culturas regionais mais específicas. E não tem nada de errado nisso. Mas o que Daniel Rezende quis, em sua estreia na cadeira de diretor, foi fazer uma parada diferente. “Queria demais poder olhar pra nossa cultura pop. Nosso cinema olha pouco pra isso”, explicou ele, em entrevista ao JUDÃO, sobre Bingo: O Rei das Manhãs – obra inspirada na vida de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo, aquele que adorava uma bitoca no nariz.

“Eu também fui criança nos anos 80, a TV pra mim era um troço mágico e eu era muito interessado no que tava rolando por trás das câmeras”, conta Daniel. “Por mim, eu entrava naquela caixinha só pra ver do outro lado. Então trouxe muito da minha vivência pessoal nos detalhes”.

Detalhes, aliás, que o filme trata com inteligência e delicadeza ao retratar um período que se inicia no comecinho da chamada ‘década perdida’, aquela da qual podemos lembrar como uma fase em que o exagero comandava, uma linha tênue a produção não chegou a cruzar em momento algum, sabendo fazer as cores do centro de São Paulo e até a aparição do finado Mappin contribuírem ativamente para a ambientação e não serem apenas gimmicks.

“A direção de arte do filme tinha que ser estupenda, brutal, mas não podia aparecer. Só vai aparecer se não aparecer, se estiver nos detalhes. Roupa, cabelo, atitude, era tudo exagerado. A TV era um exagero. Isso tem que ser incrível, mas não pode estar na frente dos personagens”. E nisso, Daniel acertou na mosca. “Eu fazia questão que a fitinha BASF fosse um personagem do filme, porque eu quando era moleque vivia fazendo mixtapes. E eu preferia gravar o lado B mais do que o lado A. Então a gente achava que o Augusto também tinha que ouvir o lado B”.

Por mais B que a gente possa considerar Humanos, do Supla, Tudo Pode Mudar, do Metrô, ou Serão Extra, do Doutor Silvana (responsável, aliás, por uma sequência inesquecível, que marca a virada definitiva do Bozo ianque pro Bozo Brasil da Zoeira Sem Limites), dá pra entender que Daniel tá mesmo falando é de coisas como The Killing Moon, do Echo & The Bunnymen, que rola no toca-fitas do Opala laranja que Augusto compra quando começa a ganhar uma grana.

“Augusto” é Augusto Mendes, a ALCUNHA que o filme preferiu adotar para Arlindo – assim como Bozo virou Bingo, a Globo se tornou a TV Mundial, o SBT de tornou a TVP e até a o Xou da Xuxa virou o Show da Lulu. “O que a gente sempre quis foi ficcionalizar esta história pra ter total controle criativo para fazermos a história do jeito que queremos. Inclusive do próprio Arlindo. É um filme inspirado na vida dele, mas criamos o nosso próprio personagem. A gente queria poder contar a história do nosso jeito”. Mas, por mais que ainda tenha muita coisa ali que não condiz com a realidade e que tenha sido criada apenas para a trama do filme, a história deste Bozo único em todo mundo, com suas características tipicamente brasileiras, está claramente retratada.

Afinal, em nenhum lugar do mundo era possível imaginar uma cantora rebolativa como a Gretchen (que foi namorada de Arlindo Barreto na vida real, aliás) fazendo a festa com a molecada, entre muitas piadinhas de duplo sentido e um humor sacana e subversivo, né?

O personagem, originalmente surgido nos EUA apenas como protagonista de uma coletânea de discos e livros infantis e que em 1949 se tornou um verdadeiro sucesso televisivo por lá, rapidamente transformou-se em uma franquia global graças ao olhar empreendedor do ator Larry Harmon, que comprou os direitos do personagem. O palhaço acabou se tornando atração em mais de 240 estações de televisão em 40 países, incluindo o Brasil, na telinha da TVS (pré-SBT). O primeiro intérprete brasileiro escolhido e treinado pessoalmente por Harmon, assim que o programa estreou aqui em setembro de 1980, foi o comediante Wandeko Pipoka — que depois acabou sendo substituído por Arlindo Barreto, o Bozo que virou pastor evangélico e hoje aparece nos cultos vestido de palhaço.

Além dele, nacionalmente, apenas Luís Ricardo (o homem da Telesena) assumiu a peruca vermelha, mas alguns outros atores chegaram a encarnar o palhaço nas retransmissoras locais do SBT, sem grande destaque posterior. No entanto, nenhum deles teve uma história tão trágica e complicada quanto Arlindo, com um histórico vício em cocaína. “É a história do palhaço triste. Por que o Robin Williams se matou? Ou por que o Jim Carrey se deprime? O cara que faz a alegria das pessoas e que tem um lado tão sofrido, tão desajustado”, explica Vladimir Brichta, que dá vida ao ator/apresentador. “Aquela cara, aqueles olhos, aquela boca, são lentes de aumento sobre ele. Uma super projeção daquela alegria mas, naquela mesma proporção, dá a impressão de que ele pode se afundar na tristeza, na amargura, na incompreensão, nos seus dilemas. Isso é humano. A gente pode ir tão longe nestes dois espectros”.

E Vladimir vai. E se joga de cabeça. Sem um grande papel no cinema até o momento pra chamar de seu, ele finalmente conquista um momento de virada que vai lhe colocar ombro a ombro com os amigos e conterrâneos Lázaro Ramos e Wagner Moura – este último, aliás, aquele que seria o intérprete original do personagem mas acabou declinando, trazendo Vlad para o seu lugar. Ainda bem.

Vladimir Brichta consegue transitar da gargalhada ao sofrimento com maestria. O filme vale especialmente pelo ator, que sabe te fazer rir e emocionar na medida certa, algumas vezes até na mesmíssima cena

É um papel intenso, poderoso, de um homem que fez sucesso nas chanchadas mas queria mais, queria seu lugar ao sol, buscava os holofotes tanto quanto a mãe famosa teve um dia. “É quase como uma dinastia de vampiros, é uma maldição, eles precisam disso pra sobreviver”, brinca Daniel. E por contrato, Augusto não podia revelar, sob hipótese alguma, que ele era o Bingo, o que o deixava ainda mais frustrado. Sob a maquiagem, ele viveu uma vida de excessos. E Vladimir consegue transitar da gargalhada ao sofrimento com maestria. Não apenas Bingo, o personagem principal, é ele. Bingo, o filme, é inteirinho Vladimir Britcha. O filme vale especialmente pelo ator, que sabe te fazer rir e emocionar na medida certa, algumas vezes até na mesmíssima cena.

Sem sombra de dúvidas, este é o grande momento da vida do cara como ator. A sequência na qual ele recebe o maior prêmio da TV (claramente, uma alusão ao Troféu Imprensa) mas tem que comparecer vestido de palhaço para não revelar sua “identidade secreta”, apenas para sair e depois tentar voltar de cara limpa e smoking, devidamente barrado pelos seguranças como um “zé ninguém”, é uma mistura de sentimentos, de risos e lágrimas. Brilhante. Se te lembrou um pouco do Michael Keaton em Birdman, acertou na referência.

“A energia, a voltagem, é muito maior do que eu já senti em qualquer coisa que já fiz no cinema. Me lembra um pouco do que fiz no teatro, é ininterrupto, te desgasta”, conta o ator, pontuando que a entrega deste trabalho tem um pouco dele mesmo no início de carreira, no teatro, quando as pessoas o paravam e diziam pra ele relaxar na loucura, pra respirar um pouco mais.

Pensado desde o início pra ser uma tragicomédia, desde que Daniel teve acesso a uma matéria da revista Piauí a respeito da vida de Arlindo, Bingo é uma daquelas histórias clássicas de ascensão e queda de um rock star — que, neste caso, era um palhaço. “Um personagem infantil. É esta dicotomia, este paradoxo, que faz este filme ser o que é”, conta o cineasta. “Eu vi ali uma história surreal, absurda, de um cara que viveu muitas vidas em uma só. Queria mostrar o cara que estava por trás da máscara, alguém que tava convivendo com crianças e começa a se desconectar do filho. Eu que sou pai, que viajo pra burro e que passo tempo longe do meu filho”.

Além de Vladimir, paradoxalmente, Bingo: O Rei das Manhãs acerta muito nos aspectos técnicos, em especial na montagem – justamente a função na qual Daniel fez sua carreira no cinema, trabalhando em filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e a nova versão do Robocop, de José Padilha. “Desde que comecei a sair da cadeira de montador, decidi que não ia montar nenhum filme que eu dirigisse. Como montador, sempre gostei de trazer uma outra visão, de poder contestar o diretor, trazer um olhar fresco”, afirma, reforçando que não queria perder isso na relação com o editor Márcio Hashimoto. “Óbvio que participei desta montagem como diretor — mas foi muito prazeroso poder olhar pro material sendo transformado por outra pessoa”.

E a transformação deve ter sido, de fato, tão intensa quanto é a vida do própria Augusto. Porque o filme tem timing, tem dinâmica, tem uma fluidez narrativa que o tornam até, com o perdão do PEDANTISMO, digno de qualquer bom blockbuster americano, daquele tipo ao qual o espectador médio brasileiro está mais do que acostumado.

Era o que Daniel queria. Queria que fosse entretenimento, que se comunicasse com o público, que emocionasse, mas também queria que fosse um filme de muita qualidade, queria trabalhar com a melhor equipe possível, queria poder exigir coisas como uma complexa tomada na qual a câmera viaja da janela da cobertura de Augusto até a janela de um hospital. “A dramaturgia brasileira preza por muitas coisas mas às vezes não preza tanto pela qualidade técnica. Preza pelo conteúdo, pelo acesso fácil. E eu queria que o filme tivesse também um refinamento técnico. Não queria um blockbuster americano. Eu queria um blockbuster. Ponto”, confessa. “Não importa se é um filme brasileiro ou não. Se a pessoa fosse ficar feliz por ver um filme nacional com qualidade, melhor ainda. Isso foi pensado e planejado, inclusive no tom da atuação, que é diferente do tom de televisão. “E não me incomoda em nada esta comparação. É um atestado do que a gente se propôs a fazer deu certo”.

Leandra Leal, Vladimir Brichta e o diretor Daniel Rezende no set de Bingo: O Rei das Manhãs

Embora tenha construído uma história que tem elementos que seriam facilmente compreensíveis em qualquer país, garantindo-lhe certa força para tentar uma carreira internacional, talvez um dos momentos mais emocionantes da trama não seja exatamente compreensível para públicos gringos. É quando Augusto, ainda tentando encontrar o tom para o seu papel, vai buscar o auxílio de um palhaço veterano, tradicional, de picadeiro. E encontra um mentor em Domingos Montagner, que interpreta quase que a si mesmo, porque era sim um palhaço profissional na vida real.

Além de consultor do roteiro ao lado do parceiro Fernando Sampaio, da companhia circense LaMínima, ele também foi o responsável por fazer Augusto entender o real papel do palhaço como subversivo, que questiona figuras de autoridade, que chuta a bunda quando te pedem pra abaixar. “Era uma coisa que eu tinha pudor de dizer”, revela Vladimir. “Eu venho de um universo acadêmico, do teatro tradicional. Mas eu não queria me assumir palhaço, ainda que pagasse as contas da minha vida fazendo humor”. Pra ele, a pesquisa do clown, método de interpretação que te faz encontrar muito de si, não é muito diferente de você ser jogado no picadeiro, como ele acabou sendo em seu laboratório. “Você vai ter que sobreviver, vai ter que ficar absolutamente exposto, vai ter que buscar alguma coisa sua engraçada pra se descobrir”.

Vladimir Brichta agora diz, de boca cheia, sem rodeios, que é PALHAÇO. E isso pode ter feito com que ele se tornasse algo ainda muito maior do que apenas Bingo. Veremos nos próximos anos – e nos próximos filmes.