Black Sabbath: enfim, o fim | Judão

Convidamos o músico e produtor Fabiano Negri para falar sobre sua relação com a banda SEMINAL do rock pesado, que neste final de semana fez a última apresentação de sua turnê final

Eu me lembro exatamente do dia em que eu ouvi pela primeira vez o álbum Sabbath Bloody Sabbath. Em 1986, eu era uma criança de 10 anos, que estava descobrindo a música. Mais especificamente, o rock. Até esse momento, eu ainda era mais fascinado pelas assombrosas histórias contadas pela imprensa sobre Ozzy Osbourne do que pela sonoridade propriamente dita. Seduzido pela capa do álbum – que lembrava as histórias de horror que nessa idade eu adorava – eu pus o vinil para tocar na minha velha vitrola.

Após a primeira audição completa, tive uma sensação estranha: “Caramba! Já ouvi isso em algum lugar”. Eu tinha certeza de que já ouvira aquelas canções em algum momento da minha vida. O disco não parou de tocar por dias, até que eu chegasse à conclusão final. Não! Eu jamais ouvira aquelas canções. Na verdade, aquelas músicas eram o que eu sempre quis ouvir na minha banda de rock perfeita.

Os riffs de guitarra malignos; o baixo e a bateria pesados, mas cheios de swing; uma voz aguda, melódica e com personalidade ímpar. Tudo envolto em uma atmosfera mística. Foi então que eu descobri a minha banda favorita. Eu estava diante do meu primeiro disco ideal. O meu paladar musical estava começando a se formar. Desde então, eu ouvi diversos “discos perfeitos” de artistas diferentes, mas jamais tirei o Sabbath Bloody Sabbath do topo do meu “Olimpo do rock”.

Com o passar dos anos, adquiri tudo que pude sobre a banda, tendo hoje uma coleção bastante respeitável. Diga-se de passagem que, justamente à época em que eu comecei a ouvir Black Sabbath, a formação passava por um momento bastante turbulento. Após a saída do grande Ronnie James Dio, as diversas mudanças fizeram com que o Sabbath fosse jogado para uma espécie de série B do metal. Todas as pessoas com quem eu conversava se referiam à banda como a um animal pré-histórico, que reinou durante anos na Terra, mas que só era lembrado nos livros de história.

Mas eu seguia no meu propósito de fã, prestigiando cada álbum lançado ano a ano. Não posso negar: meu cantor favorito no Sabbath é Ozzy Osbourne. Por mais que eu idolatre Ronnie James Dio e Ian Gillan – que gravaram álbuns soberbos com a banda – eu não posso mentir. O SOM do Sabbath precisa da voz do Ozzy para ser genuíno. Mesmo assim, eu fiquei muito empolgado quando a banda lançou o álbum Dehumanizer e tive a chance de assisti-la ao vivo em duas ocasiões nessa turnê.

Foram meus primeiros shows e, rapaz, que emoção! Depois, fiquei ainda mais empolgado com a reunião da banda original no suposto último show da carreira solo de Ozzy no fechamento da No More Tours, em 1992. Os boatos sobre uma reunião definitiva perduraram pelo ano de 1993, mas foram por água abaixo.

No ano seguinte, eu pude assistir a banda ao vivo mais uma vez. Tony Martin não é um cantor tecnicamente ruim, mas não possui as credenciais necessárias para estar à frente de uma banda desta estatura. O show no Monsters of Rock só serviu para eu ter o prazer em ver o mestre Bill Ward comandando as baquetas, mesmo que ele estivesse em péssima forma física. Foi um pouco decepcionante ver a banda abaixo do Slayer e do Kiss na escalação do festival. Será que o Sabbath estaria acabado?

Em 1997, veio o grande anúncio: a banda estava de volta, com Ozzy Osbourne! Da noite para o dia eles voltaram a ser gigantes. E daí pra frente foi só alegria! :D

Fiz essa PEQUENA introdução para vocês terem uma ideia da minha relação com a banda. Sou assumidamente um fanático por Black Sabbath e me mantive assim mesmo nos momentos mais sombrios da carreira do grupo. Mas claro que, aqui dentro, do fundo do coração, sempre torci para que eles ocupassem seu lugar merecido como a maior instituição de heavy metal da história.

E veio o Rock and Roll Hall of Fame, apresentações lotadas por todo o mundo, e centenas de homenagens. Ainda houve tempo para uma espetacular reunião com Dio, sob a alcunha de Heaven and Hell, que deu muitas alegrias para o pequeno gigante antes que ele deixasse a Terra, e que eu pude conferir por duas vezes no Credicard Hall, na turnê do álbum The Devil You Know. Foi demais! Mas estava faltando alguma coisa. Eu ainda não havia visto o Sabbath com meu cantor predileto.

O bom é que veio mais do que isso. Em 2013, o álbum 13 abalou as estruturas do mundo. Quem diria que esses senhores emplacariam o primeiro lugar nas paradas dos EUA, da Inglaterra, e em muitas outras? Tive o prazer de realizar meu sonho, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e os shows foram espetaculares.

Aliás, muita coisa passou pela minha cabeça durante as apresentações. Afinal, se hoje eu sou músico e vivo da minha música, os “Mestres da Realidade” são os principais culpados. O mundo estava definitivamente reconquistado, e eu achei que seria o fim. Mas os deuses do rock me deram mais uma oportunidade de assisti-los ao vivo.

A The End Tour teve 81 apresentações, para aproximadamente 1,6 milhão de espectadores. Eu estive, na noite de 4 de dezembro de 2016, lá no Morumbi, para me despedir da minha amada banda. Pude ver 70 mil pessoas entoando cada acorde. Pulando, dançando, mesmo debaixo de uma chuva torrencial. A cortina se fechou em definitivo no último final de semana com uma apresentação histórica em sua cidade-natal, Birmingham, dia 4 de fevereiro de 2017.

Não fico triste em ver a banda encerrar as atividades. Muito pelo contrário. O poderoso Black Sabbath sai de cena no auge. Lugar de onde nunca deveria ter saído. Infelizmente, Bill Ward não esteve na última turnê, mas ele pode ter certeza de que está no coração de todos os fãs.

Devemos, isso sim, agradecer a todos os músicos que mantiveram a chama acesa, mas devemos nos curvar perante Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. Quatro caras de famílias humildes, sem muita instrução, sem dinheiro, totalmente desacreditados, que saíram de uma Inglaterra pós-guerra. Eles não tinha quase nada... Só talento. Foi apenas o que eles precisaram para conquistar o mundo.

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Aos 41 anos, Fabiano Negri, natural de Campinas, toca bateria, baixo, guitarra, violão e teclado. Durante 14 anos, atuou como vocalista da banda Rei Lagarto, um dos mais importantes nomes do hard rock no Brasil. Atualmente, segue em carreira solo — seu mais recente disco é o experimental Z.3.R.O., lançado em 2016.