RESENHA! Blade Runner 2049 é tudo isso mesmo.

Uma continuação mais que digna para o clássico, uma conquista técnica maiúscula para o cinema e um filme que será eternamente lembrado

Você pode achar chato, parado, longo pacarai, escuro demais ou qualquer outra coisa, mas não dá para negar que Blade Runner é um dos alicerces mais importantes da tal Cultura Pop. Desde que agraciou as telas de cinema pela primeira vez, num corte bizarramente retalhado pelos engravatados da Warner Bros. em 1982, o filme mudou a forma de se ver e fazer cinema, moda e música, além de ter moldado o gosto e o pensamento de toda uma geração. Por isso tudo, exigir que Blade Runner 2049 repita essa trajetória mais de 30 anos depois, quando já vimos e vivemos tudo isso, é simplesmente absurdo.

Se você espera sair da sala do cinema com a sensação de ter assistido a algo tão inovador e revolucionário quanto o original, esqueça. Mas se espera sair com a certeza de ter assistido a uma das melhores sequências de todos os tempos, de um dos maiores clássicos do cinema... Só vai. :)

Blade Runner 2049 é a melhor versão possível da ideia potencialmente ruim de retomar a história de Deckard e os replicantes. Um filme tecnicamente impecável (que deve fazer uma festa nessas categorias no Oscar 2018), narrativamente denso, inteligente, e ainda criativo. Um longa que, em cenas que poderiam facilmente ser enquadradas e penduradas para embelezar os cômodos de sua residência, retoma as discussões existencialistas trazidas à tona em 1982 e as evolui de forma natural, passando para uma nova fase absolutamente lógica, mas ainda criando surpresas dentro desse percurso.

Ryan Gosling é o Officer K, um Blade Runner a serviço da Polícia de Los Angeles encarregado de caçar e exterminar replicantes sem tempo de vida pré-determinado, frutos de uma tiragem mais recente que a de Roy Batty e os outros humanos bio-projetados vistos no filme original. Quando não está trabalhando, K está em sua casa, interagindo com um programa de realidade virtual, tipo a Samantha de Ela, só que com representação física, chamado Joi (a cubana Ana de Armas). Fica logo claro que este é um homem focado, de poucas palavras, gestos e sorrisos, mas que guarda um tipo de nobreza, esperança e romantismo que o fazem diferente.

Diferente porque o mundo de Blade Runner 2049 é um lugar frio, distante, cruel. Tão ou mais que o de 2019, do filme original. Pouca coisa mudou (Atari e Pan-Am continuam existindo), mas muita coisa aconteceu nos 30 anos que separam uma trama da outra – motivo pelo qual eu sugiro que você assista aos três curta-metragens lançados antes da estreia do filme, 2022, 2036 e 2048 – mas, em resumo, é o seguinte: com um atentado organizado por replicantes e uma consequente proibição aos ditos-cujos, as indústrias Tyrell foram varridas do mapa. Isso fez com que o (que restou do) mundo mergulhasse numa crise econômica FODIDA, até que um tal Niander Wallace (o ator de método™ Jared Leto) começou a produzir comida bio-projetada. Já todo picudo, o rapazote (que é cego, provavelmente porque o Mr. 30 Seconds to Mars exige alguma peculiaridade para explorar) decidiu esticar a produção para novos replicantes, de vida virtualmente ilimitada, mais força física e muito menos livre arbítrio – passando por cima da proibição e, assim, começando a realmente ditar as regras do jogo.

Os caminhos de K e Wallace enfim se cruzam quando o Blade Runner da LAPD descobre uma caixa, cujo conteúdo põe em cheque a sua própria existência AND as estruturas da sociedade em que vive e que, POR ACASO, também interessa ao magnata. Sim, exatamente da forma que se espera de um filme Blade Runner. :D

Como K, Gosling é perfeito. Sua típica cara de paisagem, somada à qualidade inquestionável como ator, caem como uma luva para um personagem que é a EPÍTOME da concentração e do foco, até que uma sucessão de merda o fazem perder um pouco a cabeça. Nos poucos momentos em que isso acontece, Gosling enfim explode e muda seu semblante virtualmente imutável, garantindo o dobro de energia para a cena. Além disso, não prejudica que o cara tenha uma fisicalidade invejável para colocar em prática nas cenas mais agitadas.

Leto é outro que, por incrível que pareça, também foi muito bem escalado. Wallace é um babaca de marca maior, o típico empresário com complexo de Deus que Tyrells e Weilands nos fizeram esperar de qualquer coisa envolvendo Ridley Scott. No papel, a afetação constante e os exageros e peculiaridades do ator/”cantor” são mais que justificáveis, ainda que seu tempo em tela e, sendo sincero, atuação efetiva na trama, sejam pífios.

ALIÁS, falando em Ridley Scott, o velhinho batuta serve aqui apenas como produtor, mas sua marca pode ser sentida ao longo de toda a trama, especialmente quando ela se cruza de forma mais direta com o clássico de 1982. É interessante ver como, no caso de um filme tão ambicioso, deixar na mão de outro diretor enquanto se mantém ali, presente, fez tão bem. Se ao menos isso fosse pensado para uma outra franquia capitaneada pelo cara... Mas divago!

Quem realmente deixa uma marca em nome da companhia de Wallace, na real, é a impressionante Sylvia Hoeks, vivendo a braço direito de Wallace, Luv. Uma replicante implacável, ela é tão elegante quanto ameaçadora, mas ainda cheia de fragilidade. Uma das muitas mulheres que se destacam no elenco, junto de Ana De Armas e Robin Wright, de Mackenzie Davis (San Junipero <3) e Carla Juri. Essas duas últimas cativam instantaneamente ao pintarem em cena: a primeira, como uma replicante do ~distrito do prazer de Los Angeles; a segunda, como uma melancólica designer de implantes de memória.

Harrison Ford demonstra uma entrega ao papel que nem eu, nem você e muito menos JJ Abrams víamos há alguns bons anos

Até Dave Bautista tem seus momentos de brilho para além dos curtas pré-lançamento, mostrando que, se nunca será a estrela-guia que The Rock se tornou em Hollywood, definitivamente se sagrará o melhor ator entre ambos. Só que eu, você e o departamento de marketing do filme sabemos que quem realmente interessa ao público ~das antigas é um tal de Harrison Ford, né? De volta como Deckard – e sem pretensões de por fim à grande pergunta “seria Deckard um replicante?” (embora o filme tenha um direcionamento implícito ;D) – o cara pode não ter tanto tempo assim para brilhar (o que, acredite, é ótimo), mas deixa claro que é só Star Wars que detém seu desgosto, mostrando uma entrega a um papel que nem eu nem JJ Abrams víamos há uns bons anos.

Tudo isso melhora sob a lente do francês Denis Villeneuve. Se cada cena do filme parece milimetricamente pensada, do enquadramento, à iluminação, à movimentação dos elementos em tela, isso é mérito, ao menos num primeiro momento, desse que já é um dos maiores cineastas ativos em Hollywood. Fã confesso do filme original, ele não tenta recriar diretamente a estética visual de seu herói, Ridley Scott, preferindo homenageá-la com uma espécie de releitura.

Sylvia Hoeks, Denis Villeneuve e Roger Deakins no set de Blade Runner 2049

A direção de Blade Runner 2049 é mais fluida, mais variada, explorando diferentes movimentos de câmera, ambientações e composições a cada segmento da história – e dando um escopo maior e mais épico ao filme. Enquanto isso faz com que nos percamos na atmosfera noir, intimista e ocasionalmente claustrofóbica do clássico oitentista, nos faz ganhar ao trazer coisas novas para o jogo, deixando claro que, embora estejamos vendo um derivado, eis aqui o fruto do trabalho de gente com uma visão artística aguçada, capaz de deixar sua marca de originalidade sem ferir o passado.

Num segundo momento, entretanto, fica claro que Blade Runner 2049 não seria a obra prima visual que é sem as mãos do britânico Roger Deakins. Vocal sobre o desafio de CINEMATOGRAFAR o filme, o cara conseguiu materializar um esforço hercúleo com disposições de iluminação deslumbrantes, que saltam aos olhos e enriquecem até a mais estática das cenas. A luz, em Blade Runner, sempre foi um personagem à parte. Agora, isso não só permanece o mesmo, como até se eleva.

Pondo o áudio antes do visual, a dobradinha Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch faz bonito, com poderosos efeitos sonoros milimetricamente pensados para te arrepiar a nuca e prender na beirada da cadeira, mesmo que não alcance o mesmo nível de elegância e ambientação de Vangelis. As músicas do compositor grego para o longa de 1982 chegam até a ser aproveitadas pela dupla, retrabalhadas e inseridas em certos momentos do filme, mas seria mais interessante ter tido, efetivamente, essa colaboração.

Com ou sem Vangelis, Blade Runner 2049 é uma conquista maiúscula em seus aspectos técnicos, ao mesmo tempo em que ainda consegue, com brilhantes e inesperadas escolhas narrativas, brincar com as espectativas do espectador antes, durante e até depois do filme. É uma história contada lentamente, com uma atenção até demasiada a certos detalhes (quem não curte esse tipo de ~prolixidade cinemática pode revirar os olhos algumas vezes) que podem ou não ter qualquer relevância para o destino final. Uma das passagens mais interessantes do filme, inclusive – uma cena de sexo diferente de tudo que você já viu no cinema – não é em nada crucial para a trama. Ainda assim, se tesourada, faria o filme ser um pouco menos Blade Runner. Saca? :D

Contra o pessimismo de muita gente, Blade Runner 2049 é um dos melhores filmes, do verbo cinema, desse e de vários outros anos

Existe uma dificuldade muito grande em mergulhar na profundidade das discussões filosóficas levantadas por esse novo filme sem revelar spoilers, de tão intrínsecas aos menores elementos que ela é. O que você precisa saber é só que: tudo o que foi discutido anteriormente permanece na teia do filme, mas agora com desdobramentos e mudanças que te farão questionar suas próprias convicções. Mais o do que isso, trabalhando uma imersão total em seus personagens e universo, o filme ainda esbarra em novas discussões, abordando questões como a solidão, a imaginação e as relações familiares. Coisa de gênio.

Contra o pessimismo de muita gente, Blade Runner 2049 é um dos melhores filmes de 2017. Como deveria ser, não é para todo mundo, mas certamente agradará a maioria esmagadora dos fãs da (agora) saga e de bom cinema, em geral. Se dará a grana esperada pelo estúdio, ou se virá a render mais filmes (o que eu espero que não, já que o desfecho está ótimo do jeito que está), já não sei.

O que sei é que, mesmo sem lançar moda ou revolucionar o que entendemos como arte, será eternamente lembrado, discutido e amado.