Blindspot: quando Greg Berlanti não tem uma super-heroína, ele inventa uma! | Judão

Jaimie Alexander chega chutando bundas e promete dinamitar traseiros. Mais, no caso. E sem saber quem é. :D

O produtor executivo Greg Berlanti tem feito um trabalho e tanto com os super-heróis da DC na televisão. Começou com Arrow, ampliou com Flash e agora chamou as minas pra brincar também em Supergirl. Mas sua mais nova série, Blindspot, não é baseada numa personagem e/ou conceito vindo dos gibis, sejam eles da Distinta Concorrência ou da Casa das Ideias.

Só que, Berlanti, desculpa aê cara, eu já saquei qual é a tua. A Jane Doe vivida por Jaimie Alexander (ironicamente, a Lady Sif dos filmes do Thor e que já deu as caras em Agents of SHIELD) pode não existir nos gibis. Mas, em nome de Stan Lee, ela poderia MUITO bem ser uma heroína de quadrinhos. Aliás, ela até DEVERIA ser uma heroína de quadrinhos. Porque o ritmo da trama caberia muito bem nas páginas de uma revista.

Tudo começa na Times Square, quando uma bolsa é deixada misteriosamente no meio da multidão – com uma tag dizendo explicitamente “chame o FBI”. Como era de se esperar da América pós 11 de setembro, a região é inteiramente evacuada, apenas para que se descubra que dentro da bolsa está uma mulher nua, inteiramente tatuada da cabeça aos pés e sem qualquer lembrança de como foi parar ali. Aliás, a moça não tem lembrança alguma. Qualquer que seja. Nem sequer seu nome ela sabe. Seu DNA não consta em qualquer banco de dados, seu rosto não é encontrado pelos programas de reconhecimento facial, suas impressões digitais não aparecem nos registros...

E, de acordo com os cientistas do FBI que a analisam, sua memória foi artificialmente apagada utilizando doses cavalares de uma substância proibida. E todas as suas tatuagens são recentes, como se tivessem sido feitas ao mesmo tempo, depois que ela perdeu a memória. Mas, afinal, quem é ela? E por que diabos ela tem tatuado, bem no centro das costas, o nome do agente especial Kurt Weller (Sullivan Stapleton)? Ele também não sabe. Mas fica puto o bastante para tentar descobrir.

Blindspot

Você sabe como é essa história. As tatuagens terão algum significado, ela vai saber um monte de coisa que não faz ideia que sabe — tipo FALAR CHINÊS. Jason Bourne.

Mas Jaimie está ótima no papel. Aos poucos, vamos percebendo que ela combina uma aparente fragilidade com uma força que não esperava ter. E o bacana é que fica claro que ela não sabe o que fazer com isso. Ou seja, ela não se torna uma heroína foderosa do dia pra noite. Ela ainda tá assustada, ainda tem medo de quem possa ser e do que possa se tornar. Apesar de Jaimie estar lindíssima toda tatuada, em nenhum momento é explorado um lado mais sensual da personagem. E isso é ótimo. Quando ela se despe e se olha no espelho, ela começa a chorar e se dobra no chão, sofrendo, sem entender o seu presente, o que dirá seu passado e seu futuro. A câmera sabe fazer um uso da profundidade de seus olhos verdes. Cada vez que ela é interrogada, mais vazios e amargurados eles parecem.

Neste primeiro episódio de Blindspot, nada acontece devagar. É tudo acelerado, imediato, pra ontem, com uma boa injeção de adrenalina a cada frame. Mas com um timing conduzido de maneira bastante inteligente, que não deixa barrigas no roteiro e constrói uma ótima história de ação, que ainda consegue deixar três ganchos no ar – incluindo uma pista sobre o treinamento de Jane – fazendo que o espectador tenha água na boca o suficiente pra voltar na semana seguinte. Não é pra isso que servem os primeiros episódios de séries que não começam em serviços como Netflix, afinal? ;)

Blindspot só poderia, se possível fosse, evitar incorrer num clichê básico e banal: fazer a nossa Jane Doe se envolver com Kurt. Alguns olhares entre os dois, alguns toques, já dão a entender que este é um caminho possível e provável. Mas não é, nem de longe, necessário. A Jane Doe pode tranquilamente chutar traseiros de todas as formas e tamanhos sem precisar depender do namoradinho, do príncipe encantado. Deixem a moça ter a vida dela em paz e distribuir bordoadas só porque ela pode – e não porque precisa deixar o vilão irritado para ser salva pelo herói da vez.