O Cheiro do Ralo é meu filme de maior importância desde Lavoura Arcaica e O Auto da Compadecida. É um divisor de águas na minha carreira. É meu primeiro personagem realmente adulto no cinema. É o mais complexo que já fiz para a telona.
Como foi o processo de construção do personagem?
Foi enlouquecedor e enriquecedor. O Lourenço é desprezível, mas você acaba entendendo seus porquês e se torna impossível não gostar dele. Costumo dizer que esse é meu Taxi Driver por causa do processo de enlouquecimento dele.

O Lourenço, ao mesmo tempo que vive um drama existencial intenso, é um cara assaz engraçado. É complicado interpretar um personagem assim?
O personagem não poderia ser um escroto completo senão as pessoas sairiam no meio do filme, mas também não podia ser leve, divertido demais, senão perderia sua força. A linha é tênue. Minha própria persona como ator emprestou algo de bom ao personagem.
Ajudou o fato de eu ter feito filmes queridos do público, sobretudo os com o Guel Arraes. As pessoas têm uma simpatia comigo que ajuda o filme. A gente odeia o personagem, mas, ao mesmo tempo, adora. Eu entendi a solidão dele, o lado B da vida desse sujeito. Acho que a gente conseguiu transmitir toda essa complexidade. Este é um filme a que eu gostaria de assistir. É engraçado e trágico ao mesmo tempo. A pegada, que tem parentesco com Fargo, dos irmãos Coen, e Cães de Aluguel, do Tarantino. É um tipo de cinema que me interessa como espectador. Se eu puder fazer um filme assim, então, aí é a satisfação total. Amo cada fotograma desse filme.

Além de protagonista você também é um dos produtores do filme. É complicado ter essas duas “funções” ao mesmo tempo?
Já tinha feito isso com Garotas do ABC, mas com O Cheiro do Ralo é diferente. É um divisor de águas… Todo mundo trabalhou de graça. Todo mundo é sócio do filme. E isso é que é legal, ninguém estava lá batendo um cartão, todo mundo estava ali porque estava muito apaixonado pelo projeto. E isso foi pra tela. Ficou um filme muito vivo, muito pulsante. Você vê a direção de arte, figurino, fotografia, tudo impecável. O acabamento, trilha sonora, som, um acabamento técnico de R$5 milhões. E custou R$ 330 mil para rodar. Ou seja, dinheiro pouco e criatividade a flor da pele. Foi assim: um casaco emprestado, relógio de um, um brechó, um sapato, e assim foi o filme. Eu sou muito apaixonado por esse filme. Se eu não tivesse feito O Cheiro do Ralo, é um filme que eu gostaria de assistir.
Qual é o sentimento de ser o protagonista de um filme com um elenco tão numeroso e de peso?
Eu fui um defensor ferrenho da gente encontrar caras novas. E não foi só pelo fato da gente não ter grana para pagar o que os atores mereciam. Muitos atores famosos teriam topado trabalhar sem cachê também. Sobretudo na TV, há uma preguiça muito grande de se ir atrás de gente boa que está escondida por aí. Fizemos testes com cerca de 60 atrizes. E a quantidade e a qualidade de bons atores é surpreendente. Pudemos nos dar ao luxo de escolher e debater com calma quem seria ideal para cada perfil. E chegamos a atores incríveis, com quem eu pude contracenar durante o filme todo.
Em Árido Movie e Cheiro do Ralo, você faz personagens completamente distintos daqueles que interpretou nas produções da Globo Filmes. Qual “estilo” te agrada mais?
Todo personagem leva um pouco do intérprete. Tenho coisas do Lourenço, como tenho do Chicó, do Leléu e de tantos outros. Porém esse é o personagem mais complexo que já fiz. Ele é desagradável, divertido, sarcástico, mesquinho, irônico. Ele é muita coisa. Mas, sobretudo é um camarada que vive num buraco cavado por ele mesmo. É um pobre diabo.

Entre seus próximos projetos, há mais trabalhos como ator ou como diretor? Como está sendo essa incursão nessa área?
Acabei de rodar Meu Nome não e Johnny, do Mauro Lima, ano passado participei do Federal, de Eric de Castro e estou me preparando para dirigir meu primeiro longa-metragem, com o título provisório de Feliz Natal. Sem contar o Tarja Preta, programa que dirijo e produzo no Canal Brasil.
Pretende, algum dia quem sabe, voltar a fazer televisão?
Eu não saí da televisão. Continuo fazendo especiais de final de ano para a TV Globo, só não tenho nenhuma novela programada.
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