Brasil, mostra a sua cara…
Constado dia 27/02/08 às 8h16 em Resenhas | 
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Sou uma verdadeira amante daquilo que é produzido aqui no Brasil, musical, literária e cinematograficamente falando. Até porque, se eu não gostasse, não teria um blog como esse. Há cerca de um ano, quando assisti a O Cheiro do Ralo, sai da sala de cinema quase sem ar devido a originalidade e densidade do filme. Primeira coisa que pensei: não me restam dúvidas, o Selton Mello é mesmo foda, seja lá o que tiver pela frente, ele manda muito bem… Segunda coisa que me passou pela cabeça: acho que definitivamente, a produção nacional abriu os olhos e resolveu parar de produzir filmes só sobre a probreza e a violência, ambos com uma boa carga de glamorização. Haja visto Central do Brasil, Carandiru e Cidade de Deus — excelentes filmes, mas todos com esse mesmo tipo de apelo. Ou então com alguma ligação com literatura nordestina, caso de O Auto da Compadecida e similares, ou mesmo as comédias-românticas “globo-filmes”. Parece que uma abertura de leque definitivamente estava se impondo.

A primeira vez que senti isso, de verdade, foi em Ãrido Movie, também estrelado por Selton Mello, onde abriu-se um novo caminho e vimos um filme que nada tem a ver com esse lance de “ode à pobreza e à violência”. E com O Cheiro do Ralo é a mesma coisa. É impossível não perceber a crítica moral e social que há nessa trama, mas de uma maneira muito diferente de tudo que já se viu.

Partimos de Lourenço (Selton Mello), um homem infeliz, amargo, solitário, ressentido, que é dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele vai desenvolvendo um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Os preços são sempre negociados muito mais pelo juízo de valor de Lourenço, do que pelo que o objeto em si vale. Em tempo, Lourenço é o único personagem do filme que tem nome próprio, ele se refere a todos por substantivos comuns, o que mostra a indiferença que sente pelos outros. A partir de então ele passa a ver as pessoas como se estivessem a venda e achar que cada uma delas tem um preço. Esse é, de longe, o personagem mais maduro e complexo que Selton Mello já interpretou em toda a sua carreira e, como já era de se esperar, se saiu muito bem nessa empreitada.

No começo ele se incomoda muito com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe no banheiro de seu escritório, e mais ainda com o fato de as pessoas pensarem que o odor vinha dele, o que lhe levava a explicar a todos que o cheiro era do encanamento. Depois de um de seus clientes dizer que o cheiro, na verdade, vinha dele, uma vez que apenas ele usava aquele banheiro e que toda a merda contida ali vinha de dentro dele, pouco a pouco, Lourenço passa a ter uma relação diferente com aquele odor, que acaba tornando-se um vício, do qual ele não consegue mais viver sem e a partir do qual ele passa a conduzir toda a sua vida, e onde faz questão de estar nos seus últimos instantes.

Com um elenco numeroso e de peso, seria difícil um projeto desses não dar certo. O filme conta com nomes como Flávio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Fabiana Guglielmetti, André Frateschi (que fazia o namoradinho corno da Grazi na novela), Silvia Lourenço, Paula Braun, Martha Neola, Milhem Cortaz, Suzana Alves, a voz do Paulo César Peréio, além do Tobias da Vai-Vai e do próprio autor do livro, Lourenço Mutarelli e por aí vai. Todos eles encararam esse projeto sem nenhum tipo de retorno financeiro, e a princípio trabalharam de graça, já que o filme teve um orçamento de pífios R$300.000 (orçado originalmente em R$ 2,5 milhões, acabou sendo rodado com apenas R$ 315 mil, reunidos entre sócios privados e produtores executivos). Eles receberiam alguma coisa de acordo com o desempenho do longa nos cinemas. E de cara já tenho que tirar meu chapéu, pois essa foi uma tacada de mestre do diretor, Heitor Dhalia, que conseguiu unir um bom roteiro com um excelente elenco e a partir disso trazer uma reflexão sobre como a lógica do capitalismo (que nos faz escravos do dinheiro) acaba por nos transformar em pessoas frias e gananciosas.

O legal é que, embora seja uma crítica social, o filme também é uma comédia repleta de humor-negro e de tudo aquilo que nós consideramos politicamente incorreto. E por tudo isso não restam nem dúvidas… É claro que CENA BRASILIS RECOMENDA!, e muito. Pode assistir com gosto, porque você não vai se arrepender.

Prêmios e Indicações

- Prêmio de Melhor Filme - longa-metragem de ficção (júri popular) - Festival do Rio 2006
- Prêmio Especial do Júri - Festival do Rio 2006
- Prêmio de Melhor Ator para Selton Mello - Festival do Rio 2006
- Prêmio Bandeira Paulista de Melhor Filme - Júri Oficial na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
- Prêmio da Crítica na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
- Menção Honrosa ao Elenco na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

O Cheiro do Ralo
(Brasil, 2006)
112 minutos

Direção: Heitor Dhalia

Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em livro de Lourenço Mutarelli

Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Flávio Bauraqui, Fabiana Guglielmetti, Sílvia Lourenço, Martha Meola, Suzana Alves, Alice Braga, Tobias Vai Vai, Milhem Cortaz, Leonardo Medeiros, André Frateschi e Paulo César Pereio (voz)

Site Oficial: OCheiroDoRalo.com.br

Nota do CENA BRASILIS

5 comentários sobre "O Cheiro do Ralo"

Gin Guilt

28 de February de 2008
0h34

Queria ver muito o filme,mas uma amiga/namorada/ex-namorada que também estava curiosa e tem o mesmo gosto que eu viu e odiou.Ainda assim,pretendo ver um dia.Desde que esteja sozinho,claro.Cenas de masturbação são muito constrangedoras para se assistir acompanhado por familiares e amigas do sexo oposto =D

V

28 de February de 2008
5h20

É aí que eu vejo que eu não entendo nada de cinema. Eu devo ser muito burro mesmo.
Assisti Cheiro do Ralo, me diverti e achei o filme uma das coisas mais loucas e sem noção que eu vi (e olha que eu assisti Evil Dead). Porra, é um filme de louco e para louco. Não estou falando que o filme é ruim, mas sim maluquete pra dedéu. Mas também não é um filmaço como os citados Cidade de Deus e Alto da Compadecida.
Eu juro que um dia vou entender a cabeça de críticos de cinema. Entender, não concordar.

Julia

28 de February de 2008
6h54

Bem, primeiro gostaria de te dar os parabéns pelo blog, que apesar de novinho, tem mostrado muita qualidade. Aliás, desde o anúncio do blog no Judão eu já fiquei bem empolgada, porque a Cena Brasilis é algo que eu sempre meio que “me culpei” por não conhecer o bastante (já que sou viciada em cultura pop de outros países) e acho que esse blog pode ser um bom começo, não só pra mim, mas pra muita gente que talvez não dê a atenção devida ao que vem sendo produzido no nosso próprio país.

Quanto ao filme, infelizmente não via ainda, mas já li o livro que é muito bom. Aliás, quase tudo que eu li até hoje do Lourenço Mutarelli eu gostei muito. Não vejo a hora de ver Jesus Kid na telona, afinal esse é o assunto principal do livro.

Quanto ao Selton Mello… Nossa! Pra mim ele é o ator mais interessante da geração dele. Não digo que é o melhor, mas com certeza é o que mais faz as coisas acontecerem. De uma certa forma me lembra o George Clooney, nessa fase da carreira dele, aonde ele consegue um equilíbrio entre projetos mais comerciais e mais “artísticos”, isso tudo sem desaparecer da mídia e fazendo o que gosta. Seria bom de tivéssemos mais Seltons Mellos aqui no Brasil.

Tayra

28 de February de 2008
11h23

@V

Em primeiro lugar: vc é apaixonado por mim? Parece aquelas obsessões de 5ª série, se ficar perseguindo a pessoa, tudo que ela diz, vc ir atrás só pra ter o prazer de dizer o contrário…

Em segundo, eu não sou crítica de cinema. Sou uma jornalista que escreve sobre o que gosta e ponto - e pelo que tenho visto, graças a Deus que os meus gostos nunca batem com os seus!

Mais uma vez vou repetir, gosto é gosto - tem quem goste de Quarteto Fantástico, eu detesto, tem quem goste de comédias do naipe de Vovó Zona, eu abomino. Até aí, quem tá certo? Ninguém. Gosto é gosto.

E quando vejo pessoas que se acham super cultas ou superiores aos outros só porque tem acesso a uma merda de internet, e são incapazes de entender um filme como O Cheiro do Ralo, proclamando-o como filme de louco, juro que consigo entender melhor porque esse país tá desse jeito… Tome guaraná e abra a sua mente, OK! =D

V

29 de February de 2008
17h56

@Tayra
Esse tópico já tá lá embaixo no Blog, mas eu vu responder.
Como vc disse, gosto é gosto, eu não tô perseguindo ninguém. Eu sei que você não é crítica de cinema, mas a opinião dos críticos é a mesma que você tem sobre esse filme. Por isso eu disse que não consigo entendê-los.
Eu realmente achei o filme louco, pois de fato o personagem central é louco e as situções mais ainda, só poderia sair um filme louco. Mas em momento nenhum eu disse que é ruim.
Esse blog é seu, ou seja, você escreve o que bem entender nele, mas se tem esse espaço aqui embaixo para comentários você deve respeitar (e claro, exigir respeito) dos leitores.
Respeito sua opinião e não faço menos de você por ter uma diferente da minha, muito pelo contrário.
Desculpe se em algum momento eu te tirei do sério ou qualquer coisa do gênero, não foi minha intenção.
Eu tomo guaraná e minha mente está escancarada.

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