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Baseado na história de Miguilim, do livro Campo Geral, de Guimarães Rosa, Mutum marca a estréia da brilhante Sandra Kogut como diretora de filmes de ficção e consegue figurar entre os filmes mais sensíveis já produzidos nesse país. Infelizmente, na maratona que foram as nossas duas semanas de cobertura do Festival do Rio de 2007, esse foi um filme que acabei não tendo a oportunidade de ver lá, embora sua sinopse me agradasse muito, e depois que acabou sendo aclamado pela crítica e vencendo o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Oficial, fiquei ainda mais aflita por não ter conseguido ver o longa. Mas, assim que cheguei em São Paulo, abri meu e-mail e tava lá, o convite para a cabine do mesmo. Ufa! Eu estava salva da minha auto-condenação… =D Antes de começar a rodar Mutum, Sandra Kogut fez teste com aproximadamete mil crianças para a seleção dos intérpretes-mirins do filme. Dessas quase mil, sobraram 25, que, posteriormente, viraram apenas 7. Numa sacada extremamente inteligente e pedagógica, para facilitar o seu próprio trabalho e o processo de criação desses pequenos atores, Sandra acabou mudando o nome de todos os personagens-mirins, e deixando de lado a fidelidade à obra de Guimarães Rosa, acabou chamando-os pelos nomes dos próprios atores. Outra curiosidade é que como no caso de Cidade de Deus, a imensa maioria do elenco está fazendo o seu primeiro papel. No caso dos pequenos, todos os atores não eram profissionais, e foram escolhidos na própria região das filmagens (nas chapadas de Minas Gerais) - por isso a sacada da mudança dos nomes. Pra se ter uma noção, a maior parte das crianças e dos vaqueiros que atuam no filme nunca tinham ido ao cinema.
No elenco principal, de conhecido temos apenas o sensacional João Miguel, que faz o papel do pai do protagonista. Mas o incrível nesse filme não é nem a atuação dele no papel do pai (que, obviamente, está maravilhosa), e sim o elenco como um todo, repleto de excelentes atores (principalmente as crianças). O longa conta a história de Thiago (interpretado pelo sensacional Thiago da Silva Mariz), e a sua percepção de mundo e do local que vive. Diferente da maior parte dos filmes que já vi, nós, espectadores, vemos apenas as coisas e cenas que ele já viu e viveu — não há nenhuma cena no filme em que Thiago não esteja presente no fato - ou ele é mostrado pela câmera para o entendermos naquele contexto, ou vemos aquilo que ele está vendo (através dos olhos do menino); não existe o recurso de uma cena alheia a ele pra explicar melhor a história, é sempre ele e apenas ele. Thiago é um menino de 10 anos, que vive no interior de Minas Gerais, isolado do resto do mundo, em Mutum. Lá, ele vive com seus pais, a avó, um tio, uma espécie de empregada/amiga da família e seus quatro irmãos, com ênfase para Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso) que além de irmão é também seu melhor amigo. E aí a trama se desenrola dentro dos conflitos dessa família, o pai que é seco e violento, a mãe carinhosa, um suposto adultério, morte, dor, abandono, injustiça, tudo isso sob o olhar de uma criança que vive no meio do nada.
Lindo de assistir, sensível, tocante e mais uma infinidade de adjetivos louvatórios (?! o_O) podem definir Mutum, o que torna claro o porquê de este ter sido eleito pelo Júri Oficial como o Melhor Filme do Festival do Rio 2007. Diferentemente de Estômago que foi o vencedor do Júri Popular, unânime, apreciado por homens, mulheres, cults, pipoqueiros, adolescentes e idosos, Mutum é um filme mais lírico, mais emotivo, que vai agradar aos verdadeiros amantes de cinema, seja ele nacional, europeu, asiático ou o velho e bom norte-americano. Um filme para quem ama a experiência cinematográfica em si.
Premiações e Indicações- Prêmio Redentor de Melhor Filme pelo Júri Oficial no Festival do Rio de 2007 - Filme de encerramento da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2007
3 comentários sobre "Mutum"
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