Brasil, mostra a sua cara…

Arquivo de April/2008

Constado às 20:47 em Entrevistas, Especial | 8 Comentários | 

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Recentemente os mais assíduos leitores e telespectadores de sites e programas de fofoca, ouviram falar do filme Ouro Negro, porém, sem ter mais o que fazer (como sempre), esses tipo de veículos trouxeram o nome do longa até nós não pelos seus méritos como produção nacional e sim por conta de uma fofoca mentirosa, em que diziam que os atores Danton Mello e Luiza Curvo, que atuam no filme, estavam tendo um affair (tudo por conta de fotos tiradas num barzinho onde todo o pessoal do filme estava reunido celebrando o lançamento do filme, em que os dois aparecem abraçados) - fato que já deu muito buchicho para a vida pessoal da atriz, que é casada, e exigiu uma retratação pública da notícia. Mas, como isso aqui não é Fofoca e Bolachas, é claro que eu não ficaria falando de um fake-affair entre dois dos protagonistas de Ouro Negro, o motivo que me traz aqui é muito mais nobre.

Nós do Judão conversamos um pouquinho com a diretora do longa, Isa Albuquerque e falamos sobre sua carreira e sobre sua nova produção, que deve estar chegando aos cinemas de todo o Brasil em breve. Confira o que rolou nesse nosso bate-papo com a diretora e saiba um pouco mais sobre sua vida e seus projetos.

E pra quem é de Pernambuco e imediações, Ouro Negro será exibido no CinePE, no dia 02 de Maio em primeiríssima mão. Não deixem de conferir! =D

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Judão -Você é maranhense e lá mesmo construiu uma carreira sólida e bem sucedida. O que a levou a sair de São Luiz e se mudar para o Rio de Janeiro?

Isa - Em São Luís do Maranhão eu fazia jornalismo televisivo e realizei alguns documentários premiados em festivais. O sonho de fazer cinema me acompanhava desde muito criança, quando meu pai teve uma sala de projeção em Lago do Junco (sertão do Maranhão), onde nasci e vivi até mudar para capital, com minha família, aos seis anos. Após dirigir o Núcleo de Jornalismo da TVE por três anos, saí de São Luís em 1991, em busca de novos horizontes profissionais. Precisava aprender a escrever roteiro, a dirigir filmes. No Maranhão dos anos 80, mal conseguíamos assistir a um filme de arte e a produção cinematográfica consistia em alguns curtas em super 8. Nossa mais pulsante janela para o mundo audiovisual era o Festival Guarnicê, que se encontra atualmente em sua 30ª. edição, onde tive os meus primeiros documentários para TV premiados e onde comecei a acreditar que o meu projeto de vida era possível.

Em 1991, mudei-me para o Rio, com toda a família: estava casada, dois filhos pequenos, mas não tive dúvidas de que precisava começar tudo de novo. A mudança de rumo foi aos poucos se consolidando. Conhecer pessoas, criar histórias, desenvolver projetos, fundar uma produtora e captar recursos. O meu sonho custa muito caro e o tempo gasto na realização do primeiro filme, as dificuldades de realizá-lo, levou todo o meu grupo de criação de histórias a buscar outros caminhos: a Duba Elia está na Globo, a Diana Nogueira, na PUC, a Ana Lúcia Andrade foi para o exterior. Eu não desisti porque sempre quis fazer cinema. O que me levou a concretizar o meu sonho foi a fé inabalável de que tudo iria dar certo.

Judão -Você também tem trabalhos literários publicados. Conte-nos um pouco dessa sua vertente. Além de Histórias do Olhar você tem mais algum livro publicado? Pretende escrever outras obras?

Isa - Estou tentando publicar o livro-roteiro de Ouro Negro, completamente ilustrado com as fotos de still, contendo os comentários de todo o processo da produção, através da Editora Escrituras. O projeto foi inscrito na lei Rouanet e estou em busca de patrocínio.

O primeiro livro chama-se Histórias do Olhar, composto por contos escritos por 26 autores, roteiristas de cinema e TV, com o mesmo conceito do filme. Foi publicado em 2003, pela Editora Escrituras, como produto paralelo ao filme. Ainda pretendo transformá-lo numa série televisiva.

Judão - Um de seus projetos mais recentes é o longa Ouro Negro, onde você assina a direção, produção e também é uma das roteiristas. De onde surgiu a idéia e o interesse em fazer um filme sobre o início da exploração do petróleo no Brasil? Qual fase do processo o filme está e qual a previsão de lançamento?

Isa - O lançamento de Ouro Negro irá ocorrer no mesmo ano em que Sangue Negro, a produção americana vencedora de vários Oscars, chegou aos cinemas com o mesmo assunto. É importante constatar a atualidade e a longevidade do tema, já que ambos os filmes são montados em tramas sobre a cobiça humana. Mas nós abordamos a história do petróleo através de um viés político e Sangue Negro, ou There will be Blood (Haverá Sangue - título original em inglês) detém-se sobre a questão ética e moral do nascente capitalismo selvagem americano, personificado em Daniel Day-Lewis.

A perfuração do poço do Lobato, no Recôncavo baiano, ocorreu entre 1933 e 1934. Mas as pesquisas de petróleo no Brasil começaram a ocorrer há mais de cem anos, em diversas partes do país, com todos os ingredientes de intriga e espionagem que sempre marcaram a trajetória do Ouro Negro. Por uma questão de síntese, escolhemos narrar a história em 1918 e 1940, seguindo os passos do pioneiro alemão José Bach, radicado em Alagoas desde 1904, e morto em 1918 em circunstâncias misteriosas, após desenvolver estudos sobre o potencial petrolífero da Bacia de Carmona, onde estão assentados os Estados de Alagoas e Sergipe. A sugestão partiu de Ana Lúcia Andrade, uma das integrantes do meu antigo grupo de roteiro. Começamos a pesquisar sobre o tema e à medida em que nos aprofundávamos, encontrávamos um universo de contradições e mortes mal explicadas. Escolhemos desenvolver um roteiro de ficção livremente inspirado em fatos reais.

O petróleo é um dos recursos naturais mais importantes do mundo. Sua descoberta costuma ser, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição, já que atrai os mais competitivos grupos empresariais internacionais. Um dia as reservas irão acabar, mas enquanto descobrirmos os supercampos, como o Tupi, e todos precisarem deste produto, precisamos tratá-lo como reserva estratégica do país. A riqueza advinda desse extraordinário recurso natural deve ser revertida em benefícios sociais e culturais para o Brasil. E não para aumentar o poder dos trustes internacionais a custa do nosso petróleo. É bom lembrar que, recentemente, informações sigilosas da Petrobrás foram roubadas na Bacia de Campos, às vésperas de um leilão de áreas petrolíferas. O Governo fala em restringir as licenças de prospecção pelas companhias privadas. Creio que o Brasil precise agora de uma outra campanha do tipo “O Petróleo é Nosso”. Não podemos entregar as nossas reservas ao capital estrangeiro.

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Judão - Quanto tempo de pesquisa foi consumido para montar esse roteiro?

Isa - A idéia germinal surgiu em 1994. Começamos a pesquisar por conta própria, cada co-roteirista levantando a bibliografia sobre o tema. Uma delas, a Duba Elia, é historiadora e nos ajudou a organizar os fatos históricos. Aos poucos, fomo criando uma trama para ser vivida por uma personagem fictícia, o João Martins, interpretado por Danton Mello – que sintetiza a trajetória de pelo menos seis pioneiros. Escrevemos, juntas, os quatro primeiros tratamentos, sob a orientação do mestre Luís Carlos Maciel. Depois que o grupo se desfez, continuei trabalhando no aperfeiçoamento do roteiro, às vezes, com a parceria de Duba Elia que a essa altura já era contratada da Rede Globo. De 1997 a 2005, desenvolvemos cerca de 15 tratamentos. A costura entre os fatos históricos e a trama fictícia foi refinada com o auxílio da pesquisadora Rosa Almeida. Como eu tive que lidar com muitas informações técnicas, recorri a uma consultoria especializada indicada pela diretoria de comunicação da Petrobrás: o ex-dirigente da unidade de Alagoas e Sergipe, Eduardo Pereira, concordou em analisar as informações técnicas. O último tratamento dramático foi realizado sob a consultoria do experiente roteirista Leopoldo Serran (O Quatrilho). Mas o roteiro continuou sofrendo pequenas mudanças, inclusive durante a montagem. Depois de muito tempo envolvida nos diversos níveis de criação e produção, foi importante contar com o olhar distanciado dos demais profissionais contratados. De todos os processos de elaboração de um filme, o roteiro é um dos mais complexos. O tratamento definitivo de Ouro Negro ficou bem diferente das primeiras versões.

Judão - Além da parte de pesquisa, uma outra parte muito complexa do processo de criação de um roteiro é compor as histórias humanas que servirão de pano de fundo para o enredo principal. No caso de Ouro Negro, como foi esse processo?

Isa - Jorge Luís Borges dizia que só existem 4 histórias possíveis: o amor entre duas pessoas, o amor entre três pessoas, uma viagem e a conquista do poder. Usamos o clássico recurso do triângulo amoroso para desenvolver o lado humano das personagens principais. E ao acrescentar, livremente, uma vida privada conturbada, na composição da trajetória das personagens reais, outros nomes foram adotados, pois já não eram mais aqueles homens e mulheres da história que estavam ali em nosso roteiro. Um roteirista é todas as personagens. Como éramos quatro, tínhamos muitas referências pessoais para pesquisar entre as nossas próprias experiências. Todo filme tem muito de auto-revelação.

Judão - Na criação dos personagens, vocês foram montando a personagem já imaginando o ator ou primeiro concluíram o roteiro para só depois pensar no casting?

Isa - A realização do filme aconteceu muitos anos depois da fase de criação. Deixei, portanto, para pensar no elenco somente na pré-produção, quando tive certeza de que iria filmar. O elenco foi escolhido em sessões de testes, entre os melhores atores jovens do momento. Tenho muito orgulho do elenco de Ouro Negro que tem o Danton Mello como protagonista, Luísa Curvo, Thiago Fragoso, Maria Ribeiro, Odilon Wagner, Chico Diaz, Daniel Dantas, Mallu Galli e Felipe Kannemberg, em papéis de destaque.

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Judão - Por ser um filme de época, há também a ambientação e caracterização do contexto retratado, que é uma parte complexa e cara. Vocês usaram muitas locações para o filme? Como foi esse processo de caracterização de época?

Isa - Usamos, exatamente, 48 locações. Seria muito mais caro elaborar os cenários em estúdio e o perfil financeiro do filme levou-nos a optar por locações próximas ao Rio de Janeiro, para caracterizar os quatro Estados onde as ações se desenrolam: Alagoas, Rio de Janeiro, Acre e Bahia. Embora 60% do filme se passe em Alagoas, montamos o campo de petróleo em um coqueiral pertencente à Fundação Darcy Ribeiro, localizado em Maricá, há 40 minutos do Rio de Janeiro, e graças ao apoio de Tatiana Memória, sua presidente, trouxemos Alagoas para o Rio. A direção de arte coube ao experiente Alexandre Meyer, uma garantia de qualidade à reconstituição dos ambientes. Solicitei a Alexandre que se concentrasse na elaboração de dois cenários básicos: o campo de prospecção de petróleo e a usina de destilação do xisto pirobetuminoso. O trabalho da arte foi facilitado por uma pesquisa realizada anteriormente: um levantamento de imagens fotográficas e vídeos antigos resgatados de bibliotecas e do Arquivo Nacional. Esse material reduziu, sensivelmente, o tempo de trabalho da equipe de arte e figurino. Quando se faz um filme de época é importante saber que todos os objetos de cena serão construídos ou alugados. Não basta apontar a câmera em qualquer direção, como em um filme contemporâneo. Cada detalhe é importante para criar a ilusão do passado, no presente. O figurino, a cargo de Rosângela Nascimento, elaborado sob medida, também foi inspirado nos filmes e arquivos fotográficos. Assim, tivemos uma reconstituição de cenários e de figurinos, genuinamente brasileira.

Judão - Quanto tempo duraram as filmagens?

Isa - Quando se trabalha com um filme grandioso, com um orçamento pequeno, é preciso controlar o tempo de execução do projeto, com muito rigor. Nossa estratégia foi dedicar mais semanas à preparação, quando a equipe é menor e o planejamento é maior, e reduzir, ao máximo, o período de filmagem, quando o set passa a comportar até 150 profissionais, que precisam ser alimentados e remunerados. Os equipamentos são alugados por semana, alguns por diária. Tudo precisa estar sob controle e a solução óbvia consiste em reduzir o número de semanas de filmagem. Portanto, antecipei ao máximo a preparação leve. Tivemos cerca de 10 semanas de preparação dura e seis semanas de filmagem. Como conseguimos rodar com 50% do orçamento, a pós-produção foi muito demorada, pois tive que captar recursos para viabilizar essa etapa. Então, todo o processo de elaboração de Ouro Negro tomou cerca de dois anos e meio.

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Judão - Como você vê o aumento de produções de filmes nacionais? E o que você acha que falta para que o cinema brasileiro possa competir (em termos de bilheteria) em pé de igualdade com os filmes que vêm de fora, principalmente as produções norte-americanas?

Isa - Realizamos cerca de 80 filmes por ano no Brasil, atualmente, graças à política de incentivos fiscais promovida pelo Governo Federal. Mesmo com todos os defeitos, as leis de incentivo democratizaram o acesso de novos realizadores ao mercado. O diretor executivo da TV Brasil e ex-secretário do Audiovisual, Orlando Senna, afirmou, recentemente, que esta nova geração de cineastas brasileiros é a mais original, criativa e talentosa de todos os tempos. De fato, há um esmero na produção e o roteiro tornou-se um ponto forte na elaboração de um filme. O cuidado do realizador com o seu filme é um fator novo. O estilo inaugurado pelo Cinema Novo, de absoluto despojamento na produção, tinha o seu charme e fez escola pois era inovador e o público estava disposto a ser desafiado pelo diretor, considerado uma espécie de néo-profeta do século XX, mas as novas gerações passaram a exigir assimilação imediata da proposta do filme, deixando pouco espaço para a subjetividade na linguagem.

Hoje, um filme só surpreende pela extrema delicadeza, posso mencionar A Via Láctea, de Lina Chamie e O Banheiro do Papa, de César Charlone, ou pela crueza e impacto extremo, como é o caso de Tropa de Elite, de José Padilha. Como já alcançamos a excelência na elaboração do filme, desde que não se exijam os efeitos especiais que caracterizam as produções hollywoodianas e aquele marketing poderoso que acompanha cada produto, além do monopólio quase absoluto das salas, temos filmes muito competentes para atrair qualquer público. Entretanto, o mercado de distribuição está cada vez mais restrito. Temos poucas salas para a dimensão do país: são cerca de 2.000 concentradas nas grandes cidades. Dos cinco mil municípios brasileiros, pelo menos 3.000 são desprovidos de salas de cinema. E no ano passado, em alguns meses, a taxa de ocupação por filmes americanos chegou ao preocupante índice de 80%, com apenas três títulos: Piratas do Caribe 3, Shrek Terceiro e Homem-Aranha 3. Por outro lado, com as facilidades oferecidas pela plataforma digital, o público anda cada vez mais escasso nas salas de todo o mundo. Assim como a música, estamos vendo os nossos filmes fluírem para a internet ou para a pirataria, sem nenhum controle. Ainda é difícil descobrir como o produtor/realizador brasileiro poderá ocupar dignamente o seu posto na cadeia produtiva.

O cinema não sobrevive sozinho. A interferência dos Governos Federal, Estadual e Municipal para a consolidação da indústria é muito importante, com a manutenção das leis de incentivo. Agora que a etapa da produção está dando certo, com a realização de, pelo menos, 80 filmes por ano, urge uma interferência reguladora na distribuição, pois uma média de 70 títulos por ano, fica nas prateleiras, sem mercado exibidor.

Judão - Você dirige uma produtora. Como é o dia-a-dia de uma produtora independente no Brasil, uma vez que o cinema é uma arte bem cara de se produzir? Como funciona a captação de recursos? É fácil conseguir investimentos público e privado? Se há dificuldades, quais são os principais entraves e o que você acha que poderia ser feito para mudar a visão dos empresários no sentido de investirem mais no cinema nacional?

Isa - A produção cinematográfica gera múltiplos problemas que precisam ser resolvidos todos os dias. Até hoje recebo comunicados da Ancine sobre o Histórias do Olhar que tenho de resolver rapidamente. O filme está pronto, lançado, prestação de contas aprovada, o Condecine pago e me exigem sempre novos documentos, novos relatórios, etc. Ouro Negro é o projeto em curso, preciso lançar o filme, fazer prestação de contas e isso me exige uma atividade constante e diária, pois estou também acompanhando, pessoalmente, toda a finalização. Um mar de burocracia precisa ser atravessado todos os dias. Estou empenhada, agora, na distribuição de Ouro Negro. Tive algumas distribuidoras interessadas e acabei optando pela proposta da Pandora Filmes, que poderá desenvolver um lançamento diferenciado para o meu filme.

Realizo um festival de cinema ibero-americano no Brasil e na Europa, anteriormente chamado Festival de Cinema Hispano Brasileiro e agora intitulado Ibero Brasil Cine Festival, que já está em sua quinta edição. Temos um intercâmbio com o festival Premis Tirant, da Espanha que acaba de homenagear o ator Paulo Betti e premiar os longas: Histórias de Trancoso, do diretor paulista Augusto Sevá, e Hércules 56, do diretor carioca Sílvio Da Rin, além do curta de animação cearense Vida Maria, de Márcio Ramos. O festival está se transformando em uma janela muito ativa para o cinema brasileiro no exterior. Mantenho na produtora uma ilha de finalização em Final Cut na qual acabamos de montar um making of de Ouro Negro e agora vamos desenvolver o trailer. A equipe agora está reduzida a uma assistente e um editor.

A burocracia gerada pela produção cinematográfica é muito grande e dá muito trabalho manter todos os impostos e contas em dia, bem como desenvolver novos projetos. Além do festival que exige uma rotina de escola de samba: mal termina um já é preciso começar o próximo, estou projetando um longa metragem de animação intitulado O Tourinho Encantado e um longa de ficção sobre o período da Ditadura Militar.

Os recursos para financiamento à produção são sempre raros. Atualmente os recursos oriundos da Lei Rouanet para a cultura estão cada vez mais concentrados em produções maiores e não necessariamente no cinema: grandes shows, como os de Ivete Sangalo, circos internacionais com o Cirque du Soleil, além das fundações criadas pelas grandes empresas estão concentrando os recursos da Rouanet. Os projetos independentes estão tendo grandes dificuldades de captação enquanto o business consolidado toma conta das leis de incentivo. Alguma coisa está errada e o Ministério da Cultura precisa intervir.

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Judão - Qual a sua visão do panorama atual do cinema nacional? Cite alguns nomes que você acha que devemos prestar uma atenção especial (seja ator, diretor, produtor, roteirista etc.).

Isa - Um diretor precisa ter bagagem de vida. Surpreendeu-me a sensibilidade com que o braso-uruguaio César Charlone, um fotógrafo cinquentão, conduziu o seu primeiro filme, O Banheiro do Papa. Nem sempre grandes diretores de fotografia como ele, dão bons roteiristas e diretores. Eduardo Belmonte, de Brasília, tem uma marca autoral muito forte, assim como Lina Chamie, que transita mais pela poética da linguagem. Marcos Prado, diretor de Estamira, surpreende pelo compromisso social que assume ao abordar um tema ou uma personagem. De todos, os mais jovens talentos são Heitor Dhalia, com o seu olhar ferino para as relações sociais e Eduardo Gomes. Em geral, prefiro os diretores autorais. Entre os produtores, destaco o Fabiano Gullane, de São Paulo, que tem um trabalho independente e dialoga com todos os CEOs do audiovisual. Um grande produtor de conteúdo que vem realizando até quatro longas por ano.

Na última edição do nosso festival, homenageamos o veterano Ruy Guerra, diretor moçambicano que faz uma brilhante carreira no Brasil. Tivemos o prazer de exibir os filmes Ópera do Malandro e Veneno da Madrugada, na última edição do Festival de Cinema Hispano Brasileiro. Seus filmes são verdadeiras lições de direção e estão se deteriorando com o tempo. É preciso uma ação urgente dos organismos de cultura para preservar a obra deste grande diretor. Entre os atores, destaco Alice Braga e Danton Mello. Cada um com seu estilo, tem muita densidade dramática. Prestem atenção também na Luísa Curvo e no Thiago Fragoso, do elenco de Ouro Negro, que são atores de muitos recursos.

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Judão - Na última década o nosso cinema abriu o leque, diversificando bastante os temas das produções. Qual (is) filme (s) você acha que é um marco do nosso cinema na década de 2000?

Isa - Posso mencionar Tropa de Elite, do José Padilha, e Cidade de Deus, do Fernando Meirelles, pela capacidade de movimentar público com filmes bem elaborados sobre a difícil questão social brasileira. Admiro muito o trabalho de Walter Salles com dois grandes filmes: Central do Brasil e Diários de Motocicleta.
O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, e Cidade Baixa, de Sérgio Machado, também devem ser mencionados entre os títulos significativos desta década, pela originalidade das personagens. A diversidade da cultura brasileira está sendo vislumbrada, por esta nova geração de diretores que não teme em investigar a complexa e precária sociedade em que vivemos.

Judão - Você foi a responsável por trazer ao Brasil as duas últimas edições do Festival de Cinema Hispano-Brasileiro, sendo que antes ele acontecia na cidade espanhola de Valência. Como surgiu essa idéia? Você teve algum receio de que essa empreitada não emplacasse, uma vez que boa parte do público brasileiro, quando conhece cinema espanhol mal sabe nomes como Pedro Almodóvar, Antonio Banderas e Penélope Cruz? Qual foi o feedback do festival? Há planos de realização de uma 5ª edição do evento em 2008?

Isa - Eu sou diretora e fundadora do Festival de Cinema Hispano Brasileiro que, desde o ano passado, está ampliando o enfoque para toda a cinematografia iberoamericana. A idéia do festival começou a ser concebida em 2003, quando o meu filme Histórias do Olhar foi premiado em Valência, Espanha, no Festival Premmis Tirant, através de um protocolo firmado entre a Íris Cinematográfica, o Premmis Tirant e o Festival Guarnicê do Maranhão. Como proponente do projeto, fui alinhavando acordos e apoio para viabilizar essa cabeça de negócios pioneira entre Brasil e Espanha.

Iniciamos o intercâmbio levando 5 longas e cinco curtas e trazendo uma mostra dos filmes espanhóis ao Brasil com o apoio do Guarnicê, em 2004, e do Festival do Recife, em 2005. Nestes primeiros dois anos, premiamos em Valência os filmes Amarelo Manga, de Cláudio Assis, e o Homem que Copiava, de Jorge Furtado. Em 2006 realizamos a primeira edição independente no Rio, com o apoio da Cinemateca do MAM, do Ministério da Cultura, da Ancine e da Agência de Cooperação Espanhola. Ainda com foco na Espanha, homenageamos o diretor espanhol Fernando Trueba, exibindo O Milagre do Candial e Sedução, com a presença do diretor. Da mostra competitiva, foram premiados os filmes Proibido Proibir, de Jorge Duran e La Casa de mi Abuella. Em 2007 fizemos quatro projeções por dia no Odeon da qual saíram vencedores o braso-uruguaio O Banheiro do Papa, de César Charlone, e o brasileiro A Via Láctea, de Lina Chamie. O espanhol Las Alas de la Vida, de Toni Cannet, foi contemplado com menção especial do Júri.

Este ano renovamos nossa participação nos Tirant com 5 longas e cinco curtas e estamos apoiando o desenvolvimento de um plano de trabalho institucional entre Espanha e Brasil. Agora que ampliamos a abrangência do Festival, tornando-o ibero-americano, multiplicamos as oportunidades de negócios entre produtores e diretores das diversas nações envolvidas. Nosso foco é sobre novos realizadores. Os consagrados já garantiram o seu espaço no mercado. A próxima edição já está marcada para 27 de novembro a 02 de dezembro, no Cine Odeon. Tenho confiança nos projetos que desenvolvo porque são sérios e muito consistentes. Tenho vencido todas as dificuldades desta carreira e estou feliz com as minhas realizações.

Constado às 18:19 em Notícias | 01 Comentário | 

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O nove filme de Heitor Dhalia, À Deriva, já conta com nomes como Vicent Cassel e Camilla Belle. Agora, a atriz Débora Bloch também confirma sua participação no longa.

A atriz acabou de interpretar a personagem Lena, de Queridos Amigos, na Globo. E ela vai repetir a temática e já ficar ambientada lá pelos anos 80, porque, assim como na minissérie global, a trama do filme se passa nessa mesma década. Ela rodará em Búzios.

Qualquer novidade a respeito você confere aqui.

Constado às 07:38 em Resenhas | 8 Comentários | 

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Pouquíssimas vezes o Judão fez resenhas de curta-metragem, e essa foi a primeira que fizemos, e por motivos óbvios, também vai ser a primeira a aparecer aqui no Cena Brasilis. Já criticamos uma única cena de filme, produções pornô… Mas um curta-metragem é a primeira vez. Mas precisamos fazer isso e simplesmente porque o filme merecia.

Ópera do Mallandro conta a história de Chico (Michel Joelsas, o garoto de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), um menino que está de recuperação e precisa fazer uma redação criativa em 15 minutos. Ele começa a imaginar o que colocaria no papel e, então, viaja por um monte de ícones musicais dos anos 80 — todos cantando versões divertidíssimas de músicas de Sérgio Mallandro.

Além de os principais temas musicais do Mallandro (Glu-Glu, Bilu-Tetéia, Farofa - interpretada por Sidney Magal - e Um Capeta em Forma de Guri), o menino viaja por outras referências ao apresentador, como a porta dos desesperados e por aí vai. Com um elenco incrível que conta com Wagner Moura, Lázaro Ramos, Jair de Oliveira, Lúcio Mauro Filho, Angelo Paes Leme, Luciano Szafir, Taís Araújosem falar no próprio Sérgio Mallandro, o filme transparece uma enorme brincadeira, que conseguiu reunir os melhores atores dessa “nova geração” em torno de um filme de apenas 16 minutos. Não sei se foi o caso, mas se trabalharam de graça, ao menos eles se divertiram pra caramba, e quem se dá bem com isso, no fim das contas, somos nós. =]

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Ópera do Mallandro é genial e merece aplausos de pé, sem dúvida nenhuma Cena Brasilis RECOMENDA! e muito. Dê uma fuçada na internet, argentina, guias de cinema pra tentar assistir ao filme completo, ou se empolgue assaz com o trailer e informações no site oficial do filme.

É uma pena que aqui no Brasil não haja uma cultura de se exibir curtas nos cinemas, a não ser em festivais, porque há muita coisa boa sendo produzida e a maior parte das vezes, a gente nem acaba tomando conhecimento. Há iniciativas na internet como o Porta Curtas, mas ainda assim, não é o espaço merecido por tantos bons diretores e produtores que fazem coisas muito legais e o grande público nem fica sabendo que existe.

De qualquer modo, nós aqui do Judão estamos prestando atenção nesse nicho e prentendemos dar a eles o merecido espaço. E a respeito de Ópera do Mallandro, ficaremos de olho nas novidades sobre esse filme.

Ópera do Mallandro
(Brasil, 2007)
16 minutos

Direção: André Moraes

Roteiro: André Moraes

Argumento: André Moraes, Lázaro Ramos e Taís Araújo

Elenco: Sérgio Mallandro, Michel Joelsas, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Lúcio Mauro Filho, Edmilson Barros, Adriano Nascimento, Jair Oliveira, Ângelo Paes Leme, Luciano Szafir, Thogun, Taís Araújo, Sérgio Tadeu, Fernanda Rozman, Anna Sophia Folch, Rafael Greyck, Silvia Lourenço

Site Oficial: OperaDoMallandro.com.br

Nota do CENA BRASILIS

Constado às 13:24 em Notícias | 5 Comentários | 

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Antes de mais nada, gostaria de pedir mil desculpas aos meus leitores pela repentina ausência aqui no meu blog, mas é que o QG do Judão estava de mudança na semana passada e ainda está tudo na maior confusão. Por isso eu fiquei sem escrever sequer uma linha. Apesar de ainda estarmos colocando as coisas nos eixos, a bagunça se estabilizou e por isso voltamos com força total.

Hoje, também, não poderia ser diferente, uma vez que ontem aconteceu o Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro e hoje eu venho aqui, não só para publicar a lista dos vencedores, mas também, para comentar os resultados, como já é uma característica nossa aqui do Judão.

Grande fenômeno do ano passado, não é nada surpreendente o fato de Tropa de Elite ter sido o grande vencedor da noite, angariando nove prêmios. Porém, endossando o que eu venho dizendo desde o nascimento desse blog, reconhecendo o valor e qualidade de Tropa de Elite, ainda assim, ele está longe de ser a melhor obra já produzida pelo nosso cinema - mesmo se nos restringirmos apenas aos filmes feitos no ano anterior. E trazendo novamente a tona tudo que já foi debatido na época do Oscar, quem acabou levando o prêmio de melhor filme (e muito merecidamente, diga-se de passagem), foi O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

Os prêmios do Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro é escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, e apesar do filme de José Padilha ter ganhado o maior número de prêmios, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias acabou levando os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte - ou seja, gostando o público ou não, está comprovado que O Ano… é mais filme que Tropa de Elite e por isso foi o escolhido do Ministério da Cultura para nos representar no Oscar. Marcos Prado, produtor do filme do Capitão Nascimento comentou o resultado:

Não me surpreendeu; o resultado confirmou o que aconteceu na indicação ao Oscar. ‘O ano…’ é um filme sensacional, e ‘Tropa’ é acima de tudo um fenômeno midiático e popular

Confirmando a predileção do público, Tropa de Elite levou pra casa os prêmios de Melhor Filme pelo Voto Popular; Melhor Direção para José Padilha (que estava gripado e não pode comparecer - levantou-se até mesmo a suspeita de que ele estivesse com dengue - suspeita essa descartada); Melhor Ator para Wagner Moura, Efeitos Especiais, Montagem, Som, , Melhor Direção de Foto, Melhor Maquiagem e Melhor Ator Coadjuvante para Milhem Cortaz (que é fantástico e fai ficar marcado por interpretar personagens de caráter duvidoso).

Um dos destaques da noite foi a homenagem prestada a Renato Aragão, por um “conjunto da obra” de sua carreira no cinema - apesar de ultimamente ter estreado muita porcaria, não há como negar que, ao lado d’Os Trapalhões, ele protagonizou filmes épicos. E pra completar a minha alegria, o meu queridíssimo Pequena Miss Sunshine levou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Estrangeiro. =D

Confira aqui a lista completa dos vencedores:

    Melhor Filme
    O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

    Melhor Diretor
    José Padilha (Tropa de Elite)

    Melhor Ator
    Wagner Moura (Tropa de Elite)

    Melhor Atriz
    Hermila Guedes (O Céu de Suely)

    Melhor Ator Coadjuvante
    Milhem Cortaz (Tropa de Elite)

    Melhor Atriz Coadjuvante
    Silvia Lourenço (O Cheiro do Ralo)

    Melhor Longa-Metragem de Animação
    Wood & Stock, Sexo, Orégano e Rock’n'roll

    Melhor Longa-Metragem Estrangeiro
    Pequena Miss Sunshine, de J. Dayton e V. Farias (EUA)

    Melhor Longa-Metragem de Documentário
    Santiago

    Melhor Curta-Metragem de Documentário
    A Cidade e o Poeta

    Melhor Roteiro Original
    O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

    Melhor Roteiro Adaptado
    O Cheiro do Ralo

    Melhor Direção de Arte
    O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

    Melhor Direção de Fotografia
    Tropa de Elite

    Melhor Som
    Tropa de Elite

    Melhor Trilha Sonora
    Cartola Música Para os Olhos

    Melhor Figurino
    Zuzu Angel

    Melhor Maquiagem
    Tropa de Elite

    Melhor Curta-Metragem de Animação
    Vida Maria

    Melhor Curta-Metragem de Ficção
    Beijo de Sal

    Melhor Efeito Especial
    Tropa de Elite

    Melhor Montagem de Ficção
    Tropa de Elite

    Melhor Montagem de Documentário
    Santiago

Constado às 14:08 em Resenhas | 8 Comentários | 

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O prazer é algo que está sempre permeando a vida do homem, seja lá de que maneira ele venha. Tem gente que foca todo seu prazer no sexo, outros a voltam para uma outra atividade, como ouvir uma música, praticar esportes, dançar… E há ainda os que voltam seu prazer todinho para a comida (o que, cá pra nós, é mesmo bom pra caramba). É essa a idéia central de Estômago, filme que marca a estréia de Marcos Jorge como diretor de longas de ficção, baseado no conto “Presos pelo Estômago”, do livro Pólvora, Gorgonzola e Alecrim, de Lusa Silvestre.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um paraibano que chega a São Paulo com uma mão na frente e outra atrás pra tentar a vida por aqui. Sem dinheiro ele anda a pé da rodoviária por todo o Minhocão, à região do Pacaembu até cair num desses botecos pé-sujo, que vende ovo-colorido (Oi, Mó! =D). Como não tem nenhum centavo, ele pede apenas um copo de água da torneira, até que, morrendo de fome, pede as duas coxinhas que estão na estufa (de péssima aparência por sinal) e as devora. Depois de comer acaba cochilando no balcão, sendo acordado pelo dono do boteco, na hora em que vai fechar o bar. Sem dinheiro pra pagar, Nonato fica pra limpar a cozinha e a louça, e acaba virando empregado de Zulmiro (Zeca Cenovicz), que o ensina a fazer coxinha, pastel etc. Com mão boa para cozinhar, Nonato faz com que o boteco de Seu Zulmiro fique conhecido por suas coxinhas.

Uma das clientes do boteco é a prostituta Íria (Fabíula Nascimento), que pra alegria do Borbs, enfim, é a primeira gordinha a ser “mocinha” de um filme nacional (e, conseqüentemente, aparecer pelada). Ela é uma comidófila (essa fui eu que inventei, mas o que eu quero dizer é que ela era tarada por comida, e tarada no sentido literal da palavra, uma vez que focava todo seu prazer na comida, muito mais do que no ato sexual em si), e acaba se envolvendo com Nonato, por conta do talento do nordestino para a culinária.

Paralelo a isso, ficamos sabendo que Nonato está preso — a chegada dele a São Paulo aparece como uma espécie de flash-back — e que precisa “mudar” de nome, uma vez que Raimundo Nonato não é nome de cadeia, e acaba optando por Nonato Canivete. A hora em que ele se apresenta para o pessoal da cela é uma das sensações do filme, impossível não ir às gargalhadas. =D

Na cadeia ele acaba conquistando o respeito dos poderosos e subindo na hierarquia justamente por conta de seu talento culinário. Já que ele sempre fala em temperos etc. acaba ficando conhecido como Alecrim. Ele fica chegadíssimo ao chefão da cadeia, Bujiú (Babu Santana), e cresce ali ao ponto de chegar a ser o único abaixo do chefe.

Voltando à trama do boteco: um dos clientes do boteco, Giovanni(Carlo Briani), fica inconformado com o crescimento na qualidade das coxinhas do lugar e vai conversar com Nonato, e o chama pra trabalhar em seu restaurante, uma renomada cantina da cidade. Lá, Raimundo vai aprendendo todos os segredos da culinária requintada, além de passar a conhecer melhor sobre vinhos, sobremesas etc., enquanto isso o relacionamento com Íria vai ficando cada vez mais sério, por conta da tara culinária da moça, até que, Nonato, completamente apaixonado, pede a prostituta em casamento.

A trama toda fica passeando entre os prazeres que a comida desperta nas pessoas — Bujiú fala que quando come uma comida boa, só falta gozar (”É melhor que buceta“), além de despertar nele uma certa ojeriza pela maneira que vemos alguns pratos serem preparados. O filme conta ainda com a participação do titã Paulo Miklos, na pele do chefão do crime, Etcetera, que por sinal é excelente — aliás, desde O Invasor ele vem mostrando que além de músico, é um ótimo ator.

Estômago é o primeiro filme produzido através do acordo de co-produção Brasil-Itália, que apsar de existir desde 1974, nunca tinha sido utilizado. A produtora executiva Cláudia da Natividade levou um ano para elaborar e formalizar o contrato entre a brasileira Zencrane Filmes e a italiana Indiana Filmes.

Com uma direção impecável e um elenco louvável, Estômago é, sem trocadilho infame, um filme pra mexer com o nosso estômago, em todos os sentidos. E um dos melhores filmes que eu vi nos últimos anos (que para o meu deleite, ao lado do Borbs, tive a honra de assistir à estréia mundial do longa, no Festival do Rio, junto com o diretor do filme, elenco e a nata cultural carioca). Posteriormente ao Festival do Rio, o filme veio trilhando uma muito bem sucedida carreira em todos os lugares onde foi exibido, tornando-se sucesso de crítica e público ao redor do mundo, cativando platéias na Mostra Internacional de São Paulo, no Berlinale, no Festival de Rotterdam, no Festival de Punta del Este e agora em Miami, no Festival Internacional de Cinema da cidade. Esse é um filme que, decididamente, você não deve perder. Judão RECOMENDA! e com louvor.

Premiações e Indicações


- Troféu Redentor de Melhor Filme - Voto Popular, , no Festival do Rio 2007
- Troféu Redentor de Melhor Diretor para Marcos Jorge, no Festival do Rio 2007
- Troféu Redentor de Melhor Ator para João Miguel, no Festival do Rio 2007
- Prêmio Especial do Júri para o ator Babu Santana, por suas interpretações em Estômago e Maré - Nossa História de Amor, no Festival do Rio 2007
- Prêmio de melhor ator para João Miguel, no 11º Festival Internacional de Cinema de Punta del Este
- Foi premiado em sua estréia internacional no Festival de Rotterdam, Estômago recebendo o Lions Award, de melhor filme da seção Sturm und Drang. Além disso, foi considerado o segundo melhor filme no julgamento do público, entre 196 filmes (SPC: as quatro sessões do longa estavam completamente lotadas, e um público de aproximadamente 2000 pessoas viu o filme durante o festival).

Estômago
(Brasil/Itália, 2007)
112 minutos

Direção: Marcos Jorge

Roteiro: Marcos Jorge, Lusa Silvestre, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito, baseado em argumento de Lusa Silvestre e Marcos Jorge

Elenco: João Miguel, Fabíula Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani, Zeca Cenovicz, Paulo Miklos

Site Oficial: EstomagoOFilme.com.br

Nota do CENA BRASILIS

Constado às 12:00 em Notícias | 19 Comentários | 

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Eu sinto medo de seqüências, em geral. A coisa vai legal no primeiro filme, vira sucesso e aí inventam de fazer mais um, pra ganhar mais dindim… Agora é a vez de Se Eu Fosse Você ganhar uma seqüência.

Já estão rolando os ensaios de Se Eu Fosse Você 2, lá no Rio de Janeiro, com Tony Ramos, Maria Luísa Mendonça, Cássio Gabus Mendes, Marcos Paulo e Daniel Filho. Glória Pires, que agora vive em Paris com toda a sua prole - que não é nada pequena - está a caminho para também iniciar os ensaios. Repetindo a dose, Daniel Filho será o diretor novamente (além de atuar) e terá Cininha de Paula e Cris D’Amato como assistentes de direção.

Trocadilhos toscos a parte, se eu fosse você ficaria com o seu pezinho atrás em relação a esse filme - mesmo o primeiro tendo sido muito legal, além de ser o nacional com maior público em 2006. Qualquer novidade a gente vai te avisando. Mas, medo!!! o_O

Constado às 13:04 em Notícias | 8 Comentários | 

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A bonitinha que todo mundo pensa que tem olho azul Camilla Belle (que estreou recentemente 10.000 a.C.) vai virar estrela do nosso Cinema Nacional e vai ser dirigida por Heitor Dhalia (do excelente O Cheiro do Ralo) no longa À Deriva (Adrift). O roteiro do filme também leva a assinatura de Heitor Dhalia.

O filme vai se passar na década de 1980 e conta a história de uma menina de 14 anos que se vê extremamente insatisfeita com sua vida, principalmente depois de descobrir os casos extra-conjugais de seu pai (vivido por Vincent Cassel), além de ter que lidar com todas as mudanças sofridas pela puberdade. E a zóio azul vai ser uma das amantes do pai dessa adolescente problemática.

O filme tem previsão de estréia, aqui no Brasil, em 2009. Estamos de olho! =D

Nota da Redação: o Vincent Cassel só pega mulherão, né!

Constado às 09:34 em Resenhas | 6 Comentários | 

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Pra quem acompanha sempre o Judão, já deve ter visto esta resenha por aqui. Isso porque o filme foi assistido por nós no Festival do Rio. Como éramos apenas dois para cobrir uma quantidade enorme de filmes, eu fui escolhendo os que eram mais do meu agrado, enquanto Dom Borbs preferiu os mais pipocas e mais famosos (óbvio). Esse filme foi selecionado por mim logo de cara por que era dirigido pela Lúcia Murat, que é uma diretora que eu admiro muito, seja por sua história de vida (da qual ela não faz uso para se promover), seja de seu trabalho no cinema. E assim, Maré - Nossa História de Amor acabou fazendo parte da lista dos assistidos pelo Judão lá no festival da Cidade Maravilhosa.

A idéia central do filme é tranportar o enredo de Romeu e Julieta para o dia-a-dia das favelas do Rio de Janeiro, mais especificamente para o Complexo da Maré. E para isso, numa iniciativa muito similar a Cidade de Deus o filme não conta com atores conhecidos do grande público, a exceção de Marisa Orth (e Flávio Bauraqui e Elisa Lucinda, que fazem um papel que é mais uma participação do que um papel propriamente dito), e trabalha com a população que estuda dança e teatro na comunidade. Conta também a com a presença de Babu Santana - que apesar de já ter feito muita coisa no cinema (inclusive Cidade de Deus) e agora fazer a novela Duas Caras, ainda não é muito conhecido pelo grande público - e Jefchander Lucas, que interpreta o Alicate de Cidade de Deus, membro do trio protagonista da primeira fase.

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O trabalho é muito interessante, bonito de ver. Um monte de gente nova (em todos os sentidos), com toda aquela energia pulsante da juventude, feliz de estar fazendo um puta trabalho e de estar estreando no cinema. Deu pra sentir isso, quando eles subiram ao palco para apresentar o filme, antes de esse ser exibido, lá no festival, a sala do Odeon tava lotada de atores/bailarinos que fizeram parte do filme.

A trama se passa na favela da Maré, e Analidia (Cristina Lago) e Jonatha (Vinicius D’Black) se conhecem num baile funk e se apaixonam. Porém, ele não sabe que ela é filha do chefão da facção rival a de seu irmão Dudu (Babu Santana). Como a favela vive dividida, fica muito difícil pra eles levarem esse romance adiante. Porém, há um campo neutro, que é o barracão de dança, onde os interessados têm aulas com Fernanda (Marisa Orth — que está em um de seus melhores papéis). O filme se desenrola assim. É um musical e a música e a dança estão presentes em todo o filme e em boa parte das cenas.

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Eu, como bailarina e coreógrafa, fiquei encantada com as coreografias (que levam a assinatura de Graciela Figueroa), porque, ao contrário de muita bailarina clássica, sou apaixonada por dança e ponto. E os movimentos da Dança de Rua me encantam, são fortes, mas nem por isso deixam de ser técnicos. E o grupo do filme é fantástico.

A história é um drama, como já se sabe, por ser uma livre-adaptação de Romeu e Julieta. A idéia é a mesma, mas o final não é aquela coisa igual onde Julieta finge que morreu, Romeu não fica sabendo que é fingimento e vai atrás dela, e ao constatar que a amada está morta, se mata. Julieta desperta logo depois e vê que Romeu se matou, e, usando o punhal do amado, põe fim à própria vida. O desfecho é muito bonito e muito menos fantástico que o final dado por Shakespeare, mas, ainda assim, é muito semelhante, apesar de diferente.

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De certa maneira, podemos dizer que esse é o primeiro musical brasileiro, e que talvez ele abra as portas para esse novo nicho. Acho que vale muito a pena conferir. É um filme bem executado e bonito de ver, apesar de toda a miséria que o cerca. E é por isso que
De certa maneira, podemos dizer que esse é o primeiro musical brasileiro, e que talvez ele abra as portas para esse novo nicho. Acho que vale muito a pena conferir. É um filme bem executado e bonito de ver, apesar de toda a miséria que o cerca. E é por isso que Judão e Cena Brasilis RECOMENDAM. Lembrando que o filme também foi elogiadíssimo no último Berlinale, por isso, pra quem gosta de filme brasileiro e de musical, essa, com certeza, é a pedida da semana.

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Premiações e Indicações


- Prêmio Especial do Júri para o ator Babu Santana, por suas interpretações em Estômago e Maré - Nossa História de Amor, no Festival do Rio 2007

Maré - Nossa História de Amor
(Brasil, 2007)
105 minutos

Direção: Lúcia Murat

Roteiro: Lúcia Murat e Paulo Lins

Elenco: Cristina Lago, Vinícius D’Black, Babu Santana, Marisa Orth, Anjo Lopes, Flávio Bauraqui, Elisa Lucinda, Jefchander Lucas, Malu Galli, Deize Tigrona, Monique Soares, Rafael Mariano, Alessandro Portugal, Janaína Carvalho, Sônia Lino

Site Oficial: MareOFilme.com.br

Nota do CENA BRASILIS

uv