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O prazer é algo que está sempre permeando a vida do homem, seja lá de que maneira ele venha. Tem gente que foca todo seu prazer no sexo, outros a voltam para uma outra atividade, como ouvir uma música, praticar esportes, dançar… E há ainda os que voltam seu prazer todinho para a comida (o que, cá pra nós, é mesmo bom pra caramba). É essa a idéia central de Estômago, filme que marca a estréia de Marcos Jorge como diretor de longas de ficção, baseado no conto “Presos pelo Estômago”, do livro Pólvora, Gorgonzola e Alecrim, de Lusa Silvestre. Raimundo Nonato (João Miguel) é um paraibano que chega a São Paulo com uma mão na frente e outra atrás pra tentar a vida por aqui. Sem dinheiro ele anda a pé da rodoviária por todo o Minhocão, à região do Pacaembu até cair num desses botecos pé-sujo, que vende ovo-colorido (Oi, Mó! =D). Como não tem nenhum centavo, ele pede apenas um copo de água da torneira, até que, morrendo de fome, pede as duas coxinhas que estão na estufa (de péssima aparência por sinal) e as devora. Depois de comer acaba cochilando no balcão, sendo acordado pelo dono do boteco, na hora em que vai fechar o bar. Sem dinheiro pra pagar, Nonato fica pra limpar a cozinha e a louça, e acaba virando empregado de Zulmiro (Zeca Cenovicz), que o ensina a fazer coxinha, pastel etc. Com mão boa para cozinhar, Nonato faz com que o boteco de Seu Zulmiro fique conhecido por suas coxinhas. Uma das clientes do boteco é a prostituta Íria (Fabíula Nascimento), que pra alegria do Borbs, enfim, é a primeira gordinha a ser “mocinha” de um filme nacional (e, conseqüentemente, aparecer pelada). Ela é uma comidófila (essa fui eu que inventei, mas o que eu quero dizer é que ela era tarada por comida, e tarada no sentido literal da palavra, uma vez que focava todo seu prazer na comida, muito mais do que no ato sexual em si), e acaba se envolvendo com Nonato, por conta do talento do nordestino para a culinária. Paralelo a isso, ficamos sabendo que Nonato está preso — a chegada dele a São Paulo aparece como uma espécie de flash-back — e que precisa “mudar” de nome, uma vez que Raimundo Nonato não é nome de cadeia, e acaba optando por Nonato Canivete. A hora em que ele se apresenta para o pessoal da cela é uma das sensações do filme, impossível não ir às gargalhadas. =D Na cadeia ele acaba conquistando o respeito dos poderosos e subindo na hierarquia justamente por conta de seu talento culinário. Já que ele sempre fala em temperos etc. acaba ficando conhecido como Alecrim. Ele fica chegadíssimo ao chefão da cadeia, Bujiú (Babu Santana), e cresce ali ao ponto de chegar a ser o único abaixo do chefe. Voltando à trama do boteco: um dos clientes do boteco, Giovanni(Carlo Briani), fica inconformado com o crescimento na qualidade das coxinhas do lugar e vai conversar com Nonato, e o chama pra trabalhar em seu restaurante, uma renomada cantina da cidade. Lá, Raimundo vai aprendendo todos os segredos da culinária requintada, além de passar a conhecer melhor sobre vinhos, sobremesas etc., enquanto isso o relacionamento com Íria vai ficando cada vez mais sério, por conta da tara culinária da moça, até que, Nonato, completamente apaixonado, pede a prostituta em casamento. A trama toda fica passeando entre os prazeres que a comida desperta nas pessoas — Bujiú fala que quando come uma comida boa, só falta gozar (”É melhor que buceta“), além de despertar nele uma certa ojeriza pela maneira que vemos alguns pratos serem preparados. O filme conta ainda com a participação do titã Paulo Miklos, na pele do chefão do crime, Etcetera, que por sinal é excelente — aliás, desde O Invasor ele vem mostrando que além de músico, é um ótimo ator. Estômago é o primeiro filme produzido através do acordo de co-produção Brasil-Itália, que apsar de existir desde 1974, nunca tinha sido utilizado. A produtora executiva Cláudia da Natividade levou um ano para elaborar e formalizar o contrato entre a brasileira Zencrane Filmes e a italiana Indiana Filmes. Com uma direção impecável e um elenco louvável, Estômago é, sem trocadilho infame, um filme pra mexer com o nosso estômago, em todos os sentidos. E um dos melhores filmes que eu vi nos últimos anos (que para o meu deleite, ao lado do Borbs, tive a honra de assistir à estréia mundial do longa, no Festival do Rio, junto com o diretor do filme, elenco e a nata cultural carioca). Posteriormente ao Festival do Rio, o filme veio trilhando uma muito bem sucedida carreira em todos os lugares onde foi exibido, tornando-se sucesso de crítica e público ao redor do mundo, cativando platéias na Mostra Internacional de São Paulo, no Berlinale, no Festival de Rotterdam, no Festival de Punta del Este e agora em Miami, no Festival Internacional de Cinema da cidade. Esse é um filme que, decididamente, você não deve perder. Judão RECOMENDA! e com louvor. Premiações e Indicações- Troféu Redentor de Melhor Filme - Voto Popular, , no Festival do Rio 2007 - Troféu Redentor de Melhor Diretor para Marcos Jorge, no Festival do Rio 2007 - Troféu Redentor de Melhor Ator para João Miguel, no Festival do Rio 2007 - Prêmio Especial do Júri para o ator Babu Santana, por suas interpretações em Estômago e Maré - Nossa História de Amor, no Festival do Rio 2007 - Prêmio de melhor ator para João Miguel, no 11º Festival Internacional de Cinema de Punta del Este - Foi premiado em sua estréia internacional no Festival de Rotterdam, Estômago recebendo o Lions Award, de melhor filme da seção Sturm und Drang. Além disso, foi considerado o segundo melhor filme no julgamento do público, entre 196 filmes (SPC: as quatro sessões do longa estavam completamente lotadas, e um público de aproximadamente 2000 pessoas viu o filme durante o festival).
8 comentários sobre "Estômago"
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