Brasil, mostra a sua cara…
Constado dia 05/09/08 às 4h09 em Resenhas | 
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Depois de Sandra Corveloni ter recebido o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes por sua atuação em Linha de Passe, essa passou a ser uma das estréias mais aguardadas do circuito nacional.

Centrando sua história na cidade de São Paulo, que segundo o diretor Walter Salles, é o 6º personagem do filme, a metrópole transparece toda sua grandiosidade e variedade. E dentro desse mundo tão imenso e diferente conhecemos uma família de uma mãe e quatro filhos homens, sendo, cada um deles, de um pai diferente. Reginaldo (Kaique de Jesus Santos) é o mais novo, no início da adolescência, é o único dos filhos que não sabe quem é seu pai, o que o faz virar motivo de chacota entre os irmãos, e transformar a busca por esse pai numa verdadeira obsessão (sendo que a única informação que ele tem é que o pai é motorista de ônibus). Dario (Vinícius de Oliveira) é o craque da casa, e insuflado por todos, alimenta o sonho de se tornar um grande jogador de futebol. Porém, quando chega aos 18 anos, vê a idéia ficar cada vez mais distante. Dinho (José Geraldo Rodrigues), ao lado da mãe, é arrimo de família. Trabalha como frentista de noite e se dedica a pregação de uma igreja evangélica durante o dia. Dênis (João Baldasserini) é moto-boy, e num descuido com namorada, acaba arrumando um filho, a quem tem dificuldades para sustentar. Os quatro irmãos foram criados apenas pela mãe, Cleuza (Sandra Corveloni), corintiana fanática, trabalha como empregada doméstica e está grávida, pela 5ª vez, de mais um pai desconhecido.

Exceto Vinícius de Oliveira - que ficou famoso em todo Brasil, quando há 10 anos, protagonizou o grande sucesso Central do Brasil (também dirigido por Walter Salles) - todos os outros atores estavam estreando em cinema. Esse tiro no escuro, acabou se revelando uma sábia decisão, uma vez que, sendo estrelado por atores desconhecidos, a expectativa em torno do filme acaba sempre sendo menor, e isso conta a favor, uma vez que fica muito mais difícil você decepcionar alguém que já não esperava nada do filme. É legal, porque de fato essa pressão inexistente fez com que o elenco principal estivesse todo muitíssimo bem em seus papéis, e, mesmo sendo chover no molhado, é necessário ressaltar que o prêmio recebido por Sandra Corveloni é merecidíssimo, ela está primorosa no papel de mãe suburbana.

Mas, apesar de vários pontos contando a favor, como um diretor muito famoso, um prêmio prévio num dos mais respeitados festivais de cinema do mundo, um elenco estreante e um roteiro com muitos conflitos e viradas a serem explorados, o filme não conseguiu ser muito mais do que um filme bom. É isso e ponto. Os prós não se bastam…

A edição, que pareceu nas primeiras tomadas, que iria me ganhar, se revelou cansativa e um pouco perdida. Apesar de ter pouco mais de 100 minutos, o ritmo se perde e o filme fica longo e massante.

Isso sem falar que o foco não é a história da família, e sim a história de cada um como indivíduo - ou seja, são cinco histórias paralelas acontecendo, que, em algum momento se cruzam, aí se separam, e voltam a se cruzar. Mas são 5 tramas. É muita coisa pra acontecer em menos de uma hora, e aí o roteiro dá suas derrapadas e não consegue dar um final satisfatório para cada uma delas. Você sai do cinema com a cabeça cheia de “será que?!”. As tomadas finais de cada personagem, terminam todas, com você cheio de pontos de interrogação na cabeça. Muita coisa fica em aberto e você fica com aquela cara de paisagem e fala: “ué, acabou assim?!”. Me lembrou imediatamente o final dos filmes produzidos aqui no início da década de 1980.

Mas, ainda assim, na falta de programa melhor para o fim de semana, vá conferir. Não vai ser nenhum filme daqueles que você sai do cinema gritando: “iuhu!”. Tampouco será daqueles que você sai torcendo o nariz. É um filme bom que não consegue passar muito disso.

Linha de Passe
(Brasil, 2008)
108 minutos

Direção: Walter Salles e Daniela Thomas

Roteiro: George Moura e Daniela Thomas, com colaboração de Bráulio Mantovani

Elenco: João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique de Jesus Santos, Sandra Corveloni, Ana Carolina Dias

Nota do CENA BRASILIS

10 comentários sobre "Linha de Passe"

Junior

5 de September de 2008
15h58

“…que segundo o diretor Walter Salles, é o 6º personagem do filme…”

Personagem é uma palavra feminina… deriva do latim persona.

=)

Diego Miranda

7 de September de 2008
14h11

Gostei muito do filme e não achei cansativo.

Recomendo!

Patricia

7 de September de 2008
17h44

E quem disse que é ruim sair do cinema cheio de “será que?..” ? Confesso que essa foi minha primera reação ao final do filme, mas depois, percebi que esse é um ponto instigante e que, provavelmente, era a verdadeira intenção do Walter Salles. O filme é de uma sensibilidade incrivel; recomendadíssimo.

Tayra

8 de September de 2008
0h37

@Junior

Se eu, Tayra Vasconcelos, falasse, você ia continuar teimando, achando que eu sou arrogante, teimosa e acima de tudo burra, pois então, vamos lá. Segundo o Houaiss:

“personagem

{verbete}
Datação
c1560 cf. JFVascUlis

Acepções
■ substantivo de dois gêneros
1 pessoa que é objeto de atenção por suas qualidades, posição social ou por circunstâncias
2 papel representado por um ator ou atriz a partir de figura humana fictícia criada por um autor
3 Derivação: por extensão de sentido.
figura humana imaginada pelos autores de obras de ficção
3.1 Derivação: por extensão de sentido.
figura humana representada em várias formas de arte
Ex.: o principal p. do quadro é um pastor de longas barbas
4 Derivação: por extensão de sentido.
o homem definido por seu papel social ou comportamento

Etimologia
fr. personnage (1250) ‘dignatário eclesiástico’, (1384) ‘pessoa fictícia posta em ação numa obra dramática’, (1403) ‘cada uma das pessoas que figura numa obra teatral e que deve ser encarnada por um ator, uma atriz’, (1422) ‘imagem ou estátua que representa uma pessoa’, (1461) ‘representação teatral de pessoas tiradas da história ou da imaginação’, (c1500) ‘papel que se representa na vida’, (1754) ‘personagem que figura numa obra narrativa’, der. de personne ‘pessoa, indivíduo’ + suf. -age; o fr. personne < lat. persóna,ae ‘máscara de ator, figura’, donde, na época cristã, ‘face, rosto; papel (no teatro), personagem, personalidade, pessoa, indivíduo’; ver person(i)-”

E se for difícil compreender, substantivo de dois gêneros significa que pode ser O personagem, como também pode ser A personagem. Apesar de os metidos a letrados sempre falarem no feminino, eu acho que fica pedante e não gosto, uso no masculino e sempre vou usar! ;)

Diego Miranda

8 de September de 2008
4h09

Ah, também não achei que o filme deixa interrogações no final. Não creio que para deixar claro tenha que se explicar tudo detalhadamente, as vezes da para ser claro sem ter que mastigar a informação, e é isso que o acontece. Dá para saber claramente o futuro de cada personagem.

Na verdade achei meio injusta tua crítica, o filme não é espetacular, mas passa sim da categoria de BOM.

Tayra

8 de September de 2008
13h11

@Diego Miranda

Não há como considerar uma crítica como justa/injusta, certa/errada, porque ela é pura e simplesmente baseada no gosto e na opinião da pessoa que a escreveu. E é aí que reside toda a graça da vida, na divergência de opiniões. Eu ter achado que o filme é apenas bom, não impede que você o ache muito bom e que um outro o ache horrível (coisa que aconteceu com a maioria das pessoas que estava comigo - ninguém gostou, só eu!).

Um bom exemplo disso é o blockbuster Cloverfield. Aqui no Judão, tanto a equipe da redação, como grande parte dos leitores, adorou o filme, acho ótimo etc. etc. etc. E eu não gostei, não vi graça, achei desnecessário. Mas isso é gosto. Bem como eu adorei O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e boa parte dos leitores disse que o filme é sem graça e repetitivo. O que se pode fazer?! Gosto é gosto… ;)

Diego Miranda

12 de September de 2008
2h14

Pois é, infelizmente você tem razão. Apesar de não achar justo alguém usar um espaço público e que ajuda a formar opiniões para simplesmente falar o que achou do filme, desconsiderando outros fatores. Mas, o espaço é seu e você fala o que quiser.
Enfim, é assim que funciona uma democracia.

Paulo Eduardo

1 de October de 2008
13h12

Gostei do filme, especialmente das cenas no estádio e dentro da igreja, pois mostra a intensidade do filme e quanto ele se assemelha a realidade.
RECOMENDO……..

josi paz

3 de October de 2008
4h51

um amigo disse que o cinema do walter salles, embora brilhante, é clean demais, e a vida não é clean. acho que até concordo com ele, mas em linha de passe, a impressão que tive é que alguém abriu câmera no meio do cotidiano de uma família e deixou lá, gravando. a naturalidade é o que mais impacta nesse filme. gostei e muito.

danniel

4 de November de 2008
4h36

não concordo com o “questão de gosto”. A opinião crítica sempre deve vir sempre com embasamento teórico e ser fundamentada no “conhecimento crítico” e não apenas uma questão de gosto pessoal, o que torna a crítica (geralmente) vazia e injusta. Recomento o filme. De uma incrível sensibilidade para os poucos apreciadores do gênero “será que?”.

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