Resenhas
Provavelmente, antes de ver qualquer coisa nos jornais, revistas, televisão etc. sobre Podecrer!, esse filme ficou interneticamente famoso por ser o filme onde a Fernanda Paes Leme aparece de biquini e chifrinho. Todo mundo já deu uma conferida nos “orfanatos” da vida nas fotos da atuação da moçoila nesse filme, mas não se sabia muito coisa além disso. Porém, é filme nacional e, em se tratando de filme Brasileiro, tirando Antônia, lá está a Dona Tayra. No Rio de Janeiro, no ano de 1981, acompanhamos a história de uma turma que está no último ano de colégio e, conseqüentemente, vivendo todos os dramas, conflitos e diversões que essa época da vida traz pra cada um. É nesse amabiente que conhecemos Carol (Maria Flor), que é filha de exilados políticos e que acabou de voltar da França devido à Anistia.
Ela logo se torna amiga de Melissa (Fernanda Paes Leme) e Silvinha (Liliana Castro, que forçaram ao colocá-la como estudante de colegial. Aos 28 anos, ela está longe de ser uma Daniela Suzuki, que com seus trintinha nas costas, pode se dar ao luxo de interpretar adolescentes. Já a Liliana Castro não convence nem a minha avó). As duas vão apresentando a garota ao resto da turma: João (Dudu Azevedo), PP (Sílvio Guindane), Marquinho (Gregório Duvivier) e Tavico (Marcelo Adnet), que formam juntos uma dessas bandas de rock de colégio. E como em todo lugar, existem as meninas vacosas, patricinhas, que se acham e que não se dão bem com as outras garotas — nesse grupo estão Ana Cláudia (Érika Mader) e Duda (Júlia Gorman). João se apaixona de cara por Carol, e vivem aqueles namoros que fazem inveja ao mundo, em plena sintonia, sem brigas ou discussões. Mas… =]
O filme é uma delícia, sensacional, divertido e sem forçar a barra. Além disso, conseguiu ser fidelíssimo aos anos 80, não há gafes de caracterização - e olha que eu fiquei caçando pelo em ovo… O que derruba um pouco a produção é aquela virada, típica de filme americano, onde tá tudo indo tão bem que precisa acontecer aquela big-merda para bagunçar a situação de tal maneira que tudo perca o sentido, até que no final as coisas se ajeitam e todo mundo fica feliz para sempre. Acho que se não fosse isso o filme teria conseguido um 8, porque eu adorei… E recomendo muito. As atuações estão ótimas, o Sílvio Guindane, como sempre, tá um show. Divertidíssimo e com suas eternas tiradas. Maria Flor está mostrando que é uma atriz versátil, capaz de interpretar os papéis mais diversos possíveis (e olha que ela começou como elenco de apoio da Malhação!). Sem falar no Gregório Duvivier, que está genial de maluco-beleza com as suas teorias sobre a Babilônia (impossível não gargalhar). A caracterização da banda, quando começa a fazer sucesso, é a coisa mais anos 80 que eu já vi - meio Titãs/Paralamas em início de carreira. Além disso, há a presença de Malu Mader, José de Abreu, Lulu Santos e Patrícia Travassos em participações especiais, sem falar no fantástico Stepan Nercessian, na pele do impagável inspetor Fleury.
O filme é muito bem dirigido, com excelentes atuações e merece muito ser conferido por todos, seja pra ver mais um filme diferentão do cinema nacional, ou pra ver a Fernanda Paes Leme (e a Maria Flor, Liliana Castro, Érika Mader, Júlia Gorman etc.)de chifrinho e biquini. =D
Eis aqui mais uma boa pedida do Cinema Nacional, que ainda que não seja um mega primor da produção brasileira, merece seus louros por estar trilhando o caminho de uma vertente diferente das temáticas dos filmes brasileiros. Com uma temática totalmente diferente do “pobreza-favelas-problemas sociais-ditadura militar- nordeste”, Sem Controle, apesar de tratar de internos em um instituto psiquiátrico, não se parece em nada com Bicho de Sete Cabeças, que tem um ar de denúncia, de protesto contra o sistema manicomial brasileiro. Sem Controle é um filme que não é leve, mas é intrigante e interessante. O longa conta a história de Danilo (Du Moskovis), um diretor de teatro, que está em depressão por conta de seu enorme fracasso com a peça a qual se dedicou durante anos, sobre Mota Coqueiro (o caso que foi responsável pelo fim da pena de morte no Brasil - já passou até um Linha Direta Justiça sobre ele, pra quem não lembra de ter aprendido na história) e acaba surtando. Pra ajudá-lo a sair dessa inércia, sua amiga Márcia (Vanessa Gerbelli), que é diretora de um instituto de psiquiatria, o interna apenas para poder ficar de olho nele. Márcia e Danilo conversam muito sobre ele, e ela ressalta o fato de que Danilo é um homem obcecado pela injustiça e luta contra isso com todas as armas que tem (por isso a peça sobre Mota Coqueiro, que consumiu anos e anos de sua vida na parte da pesquisa). Segundo ela, tudo isso se deve à história de vida dele e da injustiça cometida contra seu pai (que fica no ar o filme todo). No instituto ele conhece uma menina linda, Aline (Milena Toscano), que está sempre lendo algum livro interessante e acompanhada de um amigo, Felipe (Pablo Sanábio)que está em tratamento e a quem ela chama de Doidinho/Maluquinho. Após muitas conversas literárias, de descobrirem gostos e interesses parecidos Danilo e Aline acabam se envolvendo. Depois de um tempo, Márcia convida Danilo para fazer uma Oficina de Teatro para os internos, e ele acaba se animando com a idéia. Quando a oficina começa, cheia de interessados, surge também Aline, que confessa que é uma paciente e que já está em tratamento há três anos. Chocado e revoltado, ele diz a ela que não podem continuar se envolvendo porque não seria ético e blá-blá-blá. E aí que surge o grande conflito do filme: quão normal é Aline e como ela pode reagir a esse rompimento? O filme é tenso e intrigante, te deixa o tempo todo apreensivo e é, sem dúvida alguma, o papel da vida de Milena Toscano, que embora tenha ganhado um papel de destaque em Eterna Magia, tenha feito Amazônia no comecinho do ano passado, e tenha estreado como atriz num pequeno papel no aclamado Olga, não deixa de ser uma modelo, recém-saída das páginas da Capricho para o mundo da interpretação - sem nenhuma intenção de ofensa e preconceito, estou apenas constatando o fato, para aumentar ainda mais seu mérito diante do papel de Aline. Não posso deixar de tirar meu chapéu para ela, que além de ter desempenhando muito bem seu papel em Eterna Magia, num misto de mocinha com quedas genéticas para a vilania, em Sem Controle está simplesmente soberba. A personagem muda de personalidade muitas vezes, ela é meiga, delicada, dissimulada, cínica, sedutora, agressiva, manipuladora, de acordo com o que manda seu momento no filme e ela manipula o mundo a seu redor, como se todos fossem seus marionetes. Uma personagem extremamente complexa, que precisava de uma senhora atriz para dar conta do recado, e Milena Toscano o fez. Du Moskovis e Vanessa Gerbelli também estão ótimos no filme, mas por conta de seus personagens terem uma personalidade mais simples, mais padrão, com certeza, os holofotes desse filme se voltarão totalmente para Milena Toscano. É mais um filme daqueles que me fazem ficar muito feliz com os rumos que o nosso cinema está tomando, fazendo com que possa servir apenas como entretenimento (mas não no estilo ultra-digestivo dos Sexo, Amor e Traição da vida), sem precisarmos sair da sala ruminando sobre um assunto. Que venham muitos outros filmes como Sem Controle. Premiações e Indicações- Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles de 2008
Quando assisto a filmes como Proibido Proibir, e isso é uma regra geral, eu me sinto muito mal depois que tudo acaba. Porque, embora eu seja uma pessoa extremamente ciente das mazelas do mundo, das injustiças que acontecem por aí e tenha a plena consciência de que faço tudo que está a meu alcance pra mudar aquilo com que eu não concordo, eu fico me sentindo uma inútil, impotente, porque parece que tá tudo na minha cara e eu não movo uma palha pra mudar as coisas. A temática desse filme é aquela mais que manjada no Cinema Nacional, e trata da pobreza e das injustiças sociais. E eu não acho isso ruim, muito pelo contrário, até acho isso bem legal, porque num país como o nosso, onde as pessoas não tem acesso a informação “refinada” — ou por falta de oportunidade, ou por falta de interesse — acho legal quando a crueza da realidade é abordada em filmes ou em novelas. Porém, eu acho que não precisa ser sempre assim, não há nenhuma necessidade de se fazer apenas filme sobre problemas sociais, sejam eles de qualquer ordem. É legal, é muito válido, mas acho que o cinema pode ir muito além de tudo isso. Proibido Proibir conta a história de dois amigos, Leon (Alexandre Rodrigues) e Paulo (Caio Blat) , que moram juntos, para dividir o aluguel de uma casinha perto da faculdade. Leon é carioca, mas morava em Brasília e é estudante de Ciências Sociais, já Paulo, é de São Paulo e estuda Medicina. Na própria universidade, Leon conhece Letícia (Maria Flor), estudante de Arquitetura, e os dois começam a namorar. Com o tempo, Paulo acaba se apaixonando por Letícia e daí desenrola-se o dilema já manjado do triângulo amoroso com a namorada de amigo. Mas o cerne da questão não é esse, e sim a confusão em que se envolvem quando Paulo decide ajudar Rosalina (Edyr Duque) - paciente terminal do hospital onde ele faz residência - a ter contato com seus filhos. Quando entram no universo onde Rosalina vive, eles se deparam com um mundo totalmente diferente, cheio de preconceitos sociais e raciais, justiçamento, corrupção, violência e muitos outros problemas que, embora conheçam muito bem na teoria, não tinham noção que eram tão cruéis na prática. Os três estão ótimos em seus papéis, autênticos bichos-grilo, com visual e comportamento bem FFLCH (pra quem não conhece o termo, a sigla lê-se “fefeléche” e é o nome pelo qual é conhecida a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e que aqui em São Paulo acabou virando sinônimo de uma pessoa meio-hippie, militante, idealista e por aí vai). Pelo jeito, os estudantes dessas áreas são iguais no país inteiro. A casa que os meninos dividem é exatamente igual ao apartamento que uma colega minha, da época em que eu estudava História, morava - estantes meio tronchas, repletas de livros cabeças (tipo Marx, Foucault) e CDs de MPB ou rock dos anos 60/70 do chão até o teto, e cheia de pôsteres de grandes obras-de-arte ou de fotografias de ídolos da esquerda. Proibido Proibir é um filme simples, sem muitas firulas, totalmente gravado em locações, sem nenhuma cena feita em estúdio (por uma questão financeira). Todo rodado nas periferias e longe dos cartões-postais do Rio de Janeiro, o diretor, Jorge Durán, acabou explorando um lado da Cidade Maravilhosa que muitos dos próprios cariocas desconhecem: a periferia, o subúrbio, a Zona Norte. Pois mesmo os filmes que tratam do assunto são mais do mesmo, e não mostram as favelas como são de fato. O filme foi rodado todo em Vila da Penha, na cidade de Mesquita (que fica na Baixada Fluminense) e no Fundão (local como onde fica a Universidade Federal do Rio de Janeiro — principal palco do longa). Durán conseguiu um feito, pois tinha um orçamento muito pequeno, R$ 1,2 milhão, mas ainda assim foi extremamente premiado. Até porque, um bom elenco aliado a um bom diretor acaba conseguindo tirar leite de pedra. Com uma temática interessante, ferina, embora lugar-comum, Proibido Proibir vem conquistando seu espaço, através dos prêmios nacionais e internacionais que recebeu. E é claro que Cena Brasilis RECOMENDA sim, e já se prepare pra ficar arrasado no fim do filme. Premiações e Indicações- Prêmio de Melhor Filme, no Festival de Biarritz 2006. - Prêmio Especial do Júri, no Festival de Havana 2006. - Prêmio de Melhor Filme, no 18º Festival de Viña del Mar. - Prêmio de Melhor Direção, no 18º Festival de Viña del Mar. - Prêmio de Melhor Ator para Caio Blat, no 10º Festival de Santa Maria da Feira (Portugal) - Prêmio de Melhor Diretor, no VALDIFF - Festival Internacional de Cine de Valdivia 2006 (Chile). - Prêmio Cine En Construcción, no Festival de San Sebastián, para finalizar o filme na Espanha. - Prêmio SIGNIS 2005, para ajudar na finalização na Espanha. - Prêmio Margarida de Prata 2006 - Conferido pela CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) - Prêmio de Melhor Diretor, no Festival de Huelva 2006 (Espanha) - Prêmio de Melhor Roteiro, no Festival de Huelva 2006 (Espanha) - Lentes de Cristal de Melhor Filme, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami - Lentes de Cristal de Melhor Diretor, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami - Lentes de Cristal de Melhor Ator para Caio Blat, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami - Prêmio de Melhor Filme de Ficção, no 2º Festcine Goiânia - Prêmio de Melhor Ator para Alexandre Rodrigues, no 2º Festcine Goiânia - Prêmio de Melhor Montagem para Pedro Durán, no 2º Festcine Goiânia - Menção Especial do Júri, no Festival de Quito 2006
Baseado na história de Miguilim, do livro Campo Geral, de Guimarães Rosa, Mutum marca a estréia da brilhante Sandra Kogut como diretora de filmes de ficção e consegue figurar entre os filmes mais sensíveis já produzidos nesse país. Infelizmente, na maratona que foram as nossas duas semanas de cobertura do Festival do Rio de 2007, esse foi um filme que acabei não tendo a oportunidade de ver lá, embora sua sinopse me agradasse muito, e depois que acabou sendo aclamado pela crítica e vencendo o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Oficial, fiquei ainda mais aflita por não ter conseguido ver o longa. Mas, assim que cheguei em São Paulo, abri meu e-mail e tava lá, o convite para a cabine do mesmo. Ufa! Eu estava salva da minha auto-condenação… =D Antes de começar a rodar Mutum, Sandra Kogut fez teste com aproximadamete mil crianças para a seleção dos intérpretes-mirins do filme. Dessas quase mil, sobraram 25, que, posteriormente, viraram apenas 7. Numa sacada extremamente inteligente e pedagógica, para facilitar o seu próprio trabalho e o processo de criação desses pequenos atores, Sandra acabou mudando o nome de todos os personagens-mirins, e deixando de lado a fidelidade à obra de Guimarães Rosa, acabou chamando-os pelos nomes dos próprios atores. Outra curiosidade é que como no caso de Cidade de Deus, a imensa maioria do elenco está fazendo o seu primeiro papel. No caso dos pequenos, todos os atores não eram profissionais, e foram escolhidos na própria região das filmagens (nas chapadas de Minas Gerais) - por isso a sacada da mudança dos nomes. Pra se ter uma noção, a maior parte das crianças e dos vaqueiros que atuam no filme nunca tinham ido ao cinema.
No elenco principal, de conhecido temos apenas o sensacional João Miguel, que faz o papel do pai do protagonista. Mas o incrível nesse filme não é nem a atuação dele no papel do pai (que, obviamente, está maravilhosa), e sim o elenco como um todo, repleto de excelentes atores (principalmente as crianças). O longa conta a história de Thiago (interpretado pelo sensacional Thiago da Silva Mariz), e a sua percepção de mundo e do local que vive. Diferente da maior parte dos filmes que já vi, nós, espectadores, vemos apenas as coisas e cenas que ele já viu e viveu — não há nenhuma cena no filme em que Thiago não esteja presente no fato - ou ele é mostrado pela câmera para o entendermos naquele contexto, ou vemos aquilo que ele está vendo (através dos olhos do menino); não existe o recurso de uma cena alheia a ele pra explicar melhor a história, é sempre ele e apenas ele. Thiago é um menino de 10 anos, que vive no interior de Minas Gerais, isolado do resto do mundo, em Mutum. Lá, ele vive com seus pais, a avó, um tio, uma espécie de empregada/amiga da família e seus quatro irmãos, com ênfase para Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso) que além de irmão é também seu melhor amigo. E aí a trama se desenrola dentro dos conflitos dessa família, o pai que é seco e violento, a mãe carinhosa, um suposto adultério, morte, dor, abandono, injustiça, tudo isso sob o olhar de uma criança que vive no meio do nada.
Lindo de assistir, sensível, tocante e mais uma infinidade de adjetivos louvatórios (?! o_O) podem definir Mutum, o que torna claro o porquê de este ter sido eleito pelo Júri Oficial como o Melhor Filme do Festival do Rio 2007. Diferentemente de Estômago que foi o vencedor do Júri Popular, unânime, apreciado por homens, mulheres, cults, pipoqueiros, adolescentes e idosos, Mutum é um filme mais lírico, mais emotivo, que vai agradar aos verdadeiros amantes de cinema, seja ele nacional, europeu, asiático ou o velho e bom norte-americano. Um filme para quem ama a experiência cinematográfica em si.
Premiações e Indicações- Prêmio Redentor de Melhor Filme pelo Júri Oficial no Festival do Rio de 2007 - Filme de encerramento da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2007
Pra mim é extremamente difícil escrever sobre esse longa, talvez muito mais do que qualquer resenha que eu já tenha feito até hoje. Acho que nunca eu estive tão profundamente envolvida com um filme, seu enredo, e esteja tão inserida num tema como no caso de Batismo de Sangue. E é muito difícil falar de algo que é tão “seu”, de estar tão ligada aos personagens ainda vivos de toda essa história, de ouvir pessoalmente o sofrimento das famílias daqueles que já morreram. De saber que você própria não estaria aqui, não teria nem nascido se muito daqueles fatos não tivessem acontecido. De certa maneira, posso dizer que acompanhei a produção quase que desde o início, porque estava em contato com muitos dos envolvidos reais da trama durante todo o período. Por isso, muito antes de todos da imprensa especializada, sabia da escalação dos atores, da adaptação do roteiro etc. e não via a hora de vê-lo prontinho na tela do cinema, fazia contagem regressiva, na maior ansiedade. Há cerca de três anos que estou atenta ao passo-a-passo deste filme, uma vez que este está intimamente ligado a dois documentários que produzi sobre Carlos Marighella. E posso dizer que estou muito feliz e satisfeita com o resultado, com a sensibilidade com que o tema foi tratado, além da crueza da realidade dos fatos nos momentos em que isso era necessário, ainda que mostrasse apenas uma pequena parte das agruras que os prisioneiros políticos passaram na mão dos seus algozes.
Baseado no livro homônimo de Frei Betto, o livro conta a história do envolvimentos dos freis dominicanos com a ALN (Ação Libertadora Nacional), organização política de Carlos Marighella (Marku Ribas), e acaba mostrando como foi a luta desses freis, a maneira como caíram nas mãos da repressão, a relação que isso teve com a morte de Marighella e a decorrência de tudo isso na vida de cada um deles. Porém, tanto o livro quanto o filme, acabam dando um enorme destaque a Frei Tito, uma vez que este acabou se suicidando quando já estava em liberdade (apesar de já ter tentado se matar também quando ainda estava preso), por conta dos danos psicológicos que a tortura lhe causou. Até por isso, é considerado pelo Grupo Tortura Nunca Mais como um morto pelo regime militar. Ambientado no final dos anos 60, Batismo de Sangue mostra que os ideais cristãos jamais poderiam estar de acordo com todo o horror que acontecia naquela época, o que faz com que os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves - que pra quem gosta das associações é o intérprete da travesti Cíntia, na minissérie global Queridos Amigos) passem a apoiar a militância de esquerda e conduzirem missas com teor político. Tudo isso os leva a fazer parte do Grupo de Apoio da ALN, e terem contato com Marighella, e a partir de então passam a ser vistos como inimigos do regime, o que os leva à prisão, onde passam por bárbaras torturas físicas e psicológicas. Acredito que a semelhança física tenha contado muito no momento de selecionar os atores, porque todos são muito parecidos com as pessoas que interpretam, sem falar que todos eles estão muito bem nos seus papéis, plenamente inseridos naquele universo. A cena em que eles pedem pra celebrar uma missa na cadeia é uma das mais tocantes que eu já vi. É impossível não sair mexido.
No dia da exibição, ao longo das cenas de tortura, dava pra ouvir a platéia toda gemendo de aflição com o que via - e isso apenas de ver uma imagem que, embora forte, mostra apenas uma parcela do que de fato aconteceu nos quartéis do Brasil afora. O sofrimento estava no rosto de cada um dos atores, a dor deles era real. E, embora o personagem principal seja o do Caio Blat, que está impecável antes de qualquer coisa, eu não posso deixar de ressaltar o espanto que o Daniel de Oliveira me causa toda vez que interpreta algum papel real (aqui, na verdade, eu me refiro aos personagens que existiram de fato). Isso vai muito além da interpretação, que, sem dúvida alguma é excelente, mas o cara é simplesmente um camaleão. Quando ele interpretou o Cazuza, a semelhança era tanta que dava até medo. Em 2006 ao vê-lo encarar o papel de Stuart Angel ele estava idêntico ao militante e, agora, na pele de Frei Betto, era exatamente a versão rejuvenescida do frei.
Eu não tenho nem o que dizer, não há nenhuma crítica a levantar em torno dessa produção, que está perfeita, impecável. Em vários momentos, eu que li e reli o livro várias vezes e conheço profundamente esse tema, dizia as frases dos personagens junto com eles, tamanha a fidelidade do filme com os fatos reais. Tocante, forte, terno, necessário. Sem nem titubear, Cena Brasilis RECOMENDA, e muito. Um filme que precisa ser visto por todo brasileiro. Para os que conhecem essa história, que vão passar a admirar esses personagens ainda mais; para os que não conhecem saberem de muita coisa que escapa aos currículos escolares; e mesmo para aqueles assumidamente de direita e pró-tortura e repressão, para refletirem a desumanidade que tudo isso representa.
Ah, e fazendo um link com o meu último post, já adianto que esse é um filme que, eu admito, não assisti livre de preconceitos (lembrando que preconceito vem de pré-conceito), eu já fui ao cinema pronta pra gostar, por conta de toda a minha história pessoal mencionada previamente. Ainda assim, apesar de ter uma visão contaminada, acho que é um filme que merece muito ser visto. =D Premiações e Indicações- Candango de Melhor Diretor no Festival de Brasília de 2006 - Candango de Melhor Fotografia no Festival de Brasília de 2006 - Prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Cuiabá de 2007 - Prêmio de Melhor Trilha Sonora no Festival de Cuiabá de 2007
Na resenha de O Cheiro do Ralo eu comentei que fico muito feliz de ver o Cinema Brasileiro tomar outros rumos que não sejam falar de nossa história ou glamourizar a pobreza e os conflitos sociais. Lost Zweig é um filme que se encaixa e ao mesmo tempo não se encaixa nessa abertura de leque. Isso porque tem um enfoque diferente do que se espera (em geral) de um filme brasileiro. O longa conta a última semana da vida do escritor austríaco Stefan Zweig (Rüdiger Vogler), autor do livro Brasil, País do Futuro e de sua mulher, Lotte (Ruth Rieser). Mas acaba tendo um enfoque muito grande na Era Vargas, sobre o terror da Segunda Guerra Mundial, além do fantasma do nazismo que persegue todos os refugiados de Hitler. E por isso o filme, embora seja diferente do que estamos habituados, acaba, de uma forma ou de outra, caindo numa temática que está presente na maior parte das produções nacionais. Outro fato que marca muito o filme e que também o torna muito diferente do que estamos habituados a ver, é que, apesar de ser um filme nacional e de ter um grande número de atores brasileiros, Lost Zweig é todinho falado em inglês, com uma frase ou outra em português, que estão soltas e chamam à atenção por serem exceção dentro do filme. Logo depois do Carnaval de 1942, quando Zweig e Lotte se entusiasmaram com a alegria do povo Brasileiro com aquela festa, o casal se suicidou em Petrópolis. Nada dava indícios de que eles tomariam uma decisão como essa. E é nessa semana que antecede o suicídio, mostrando o que pode, ou não, tê-los levado a optar por esse caminho, que o filme acontece. Lost Zweig tem o ar de uma minissérie global, mas com bem menos atores da emissora, embora haja alguns presentes, como Daniel Dantas, Juan Alba, Odilon Wagner, Ana Carbatti, Kiko Mascarenhas, Soraya Ravenle, Ary Coslov e por aí vai. O elenco é primoroso e muito bem conduzido, o que faz, automaticamente, com que a direção de Sylvio Back também seja aplaudida. E um destaque aqui vai para o ator Renato Borghi, que interpreta o populista Getúlio Vargas. Ele está incrivelmente parecido com o verdadeiro, embora a primeira impressão seja de estranheza, uma vez que a semelhança física entre o ator e o presidente é bem pouca, mas ao longo do filme você vai notando como ele soube construir o personagem, e por conta dos trejeitos, da postura, da aura, acaba ficando totalmente igual ao nosso ditador suicida. Além dele, Odilon Wagner está excelente no papel de rabino, porque além de ter aquela cara esteriotipada de judeu, está muito convincente como defensor da religião judaica e de seus princípios. E mostra o porquê de Zweig ter tido o aval dos judeus para ser enterrado no cemitério israelita mesmo sendo suicida, prática condenada nessa doutrina e que impossibilitada que a pessoa seja sepultada em solo sagrado. Ele alega que Zweig sempre foi um defensor e um “pregador” do judaísmo e que não seria seu último ato que apagaria tudo que ele fez ao longo da vida. No filme Zweig ressalta que é impossível se divertir com o carnaval brasileiro, sabendo que do outro lado do mundo, milhões de judeus estão sendo mortos naquele exato momento. E ele não consegue se desvincular e o tempo todo vê várias similaridades entre Vargas e Hitler. Por aqui, o livro Brasil, País do Futuro acabou virando um best-seller graças a Vargas, que mandou comprar mais de cem mil exemplares do livros, para, com isso, ter poder de barganha sobre Zweig e chantageá-lo em relação à biografia de Santos Dumont, que o presidente queria que ele escrevesse e que o autor se negava a fazer. Propondo uma troca, Zweig escreveria a biografia do pai da aviação e Vargas lhe daria os vistos que o escritor pretendia obter para alguns companheiros judeus. O autor fica arrasado diante dessa situação toda, se nega, remói e, contrariado, acaba cedendo a chantagem. Por conta disso, acaba, injustamente, sendo vinculado ao Governo Vargas e sua postura anti-semita. Apesar de tudo isso e dos elogios feitos por mim, o filme, no fim das contas, tem vários defeitos. Por não ser linear, acaba se tornando confuso em determinados momentos. O espectador precisa ficar extremamente atento, porque a maneira como o filme foi editado não indica se é um flashback ou não, e por isso é necessário prestar atenção numa cena inteira para depois captar se ela faz parte do presente da história ou se é mais um flashback. Vários artigos sobre Stefan Zweig fazem menção ao bissexualismo do autor, porém no filme isso fica tão no ar e quase implícito, pois a única cena que poderia denunciar essa faceta é breve e não tem repercussão na trama, o que te faz ficar na dúvida se o ato era fruto de um desejo ou de uma privação de sentidos por conta da bebedeira. Um defeito bem grave (pelo menos pra mim): há uma quantidade muitíssimo grande de erros de revisão nas legendas, e isso é imperdoável, uma vez que se trata de um filme brasileiro. Já que o diretor optou por fazer o filme todo em inglês (mesmo quando o diálogo é entre dois brasileiros conversando nas ruas… o_O), deveria ter dado uma atenção especial às legendas. A quantidade de erros é absurda. Xeque-Mate com CH não dá… Além disso o filme é longo, e não apenas por ter 114 minutos, mas por não ser tão dinâmico, o que faz com que fique massante e pareça ter, pelo menos, mais de duas horas e meia. Com uma série de restrições Cena Brasilis até RECOMENDA, mas isso se você já tiver aproveitado para assistir várias outras produções brasileiras com maior relevância e mais gostosas de serem vistas. Na falta de coisa melhor pra ver, você poderá conferir esse filme sem ficar com raiva de ter gastado seu tempo, que poderia ser empregado em ver algum outro que lhe agradasse mais. =D Premiações e Indicações- Prêmio de Melhor Atriz para Ruth Rieser no Festival de Brasília de 2003 - Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Brasília de 2003 - Prêmio de Melhor Direção de Arte no Festival de Brasília de 2003 - Prêmios de Melhor Filme no Cine Ceará de 2004 - Prêmios de Melhor Direção no Cine Ceará de 2004 - Prêmios de Melhor Fotografia no Cine Ceará de 2004 - Prêmios de Melhor Roteiro no Cine Ceará de 2004 - Prêmios de Melhor Trilha Sonora no Cine Ceará de 2004 - Prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Cuiabá de 2004 - Prêmio de Melhor Direção para Sylvio Back no Festival de Cinema de Natal de 2004 - Convidado para abrir o 8º Festival do Cinema Judaico em 2004
Eu teria dado 4,5, mas aqui só podemos dar notas inteiras, acabei arredondando pra cima por conta do excelente trabalho realizado pelo elenco.
Produzido há mais de 20 anos, esse já é um clássico do Cinema Nacional. Me lembro de ter assistido esse filme pela primeira vez quando tinhas uns 10 ou 11 anos, com o meu pai, que tinha alugado a fita de vídeo e que não entendi nada direito da história: o homem que era boto, o bebê que virava botinho… Era muito complexo pra mente de uma crinça. Lembro também que meu pai, apaixonado que era pelo folclore brasileiro, me explicou sobre a lenda do boto, e que na região Norte do Brasil, os pais têm muito medo de deixar suas meninas por aí na época de lua-cheia, com medo que elas caiam na lábia do boto. Baseado em roteiro original de Lima Barreto (o cineasta, não o escritor! =D), Ele, o Boto, acabou ganhando do diretor Walter Lima Jr., um tom mais focado no personagem do boto, que segundo o próprio diretor parte da idéia de criticar a postura do homem, diante da natureza:
O filme começa com uma conversa de pescadores, e toda a trama vai se desenrolando a partir desse causo, que tem narração do ótimo Rolando Boldrin, contando a história para dois pescadores amigos (Tonico Pereira e um novíssimo Marcos Palmeira). Ele fala sobre casos de meninas que foram vítimas do Boto (Carlos Alberto Riccelli) - que segundo a lenda amazônica, nas noites de lua cheia, vem à terra, se transformando em humano, para seduzir as mulheres. Logo no início vemos o temido boto em uma de suas conquistas, Tereza (Cássia Kiss), filha de um pescador, apaixonada, cede aos encantos do boto e acaba engravidando. Ao nascer, seu filho vira um botinho (cena que deve ter sido encantadora para os olhos da época e que nos soa um pouco tosca devido a imensidão de recursos de efeitos especiais que temos nos dias de hoje) que logo é levado pro mar por sua tia, que é também a parteira (Maria Sílvia). Por conta desse filho, o Boto volta sempre a aparecer, como se nutrisse por Tereza uma paixão especial. Ainda assim, está constantemente seduzindo outras mulheres, inclusive a irmã de Tereza, Corinha (Dira Paes, que aos 18 anos faz um de seus primeiros papéis e o desempenha muito bem). Ele continua aparecendo atrás de Tereza, mesmo depois que ela se casa com Rufino (Ney Latorraca), provocando uma ventania de ciúmes em plena festa de casamento.
Com uma lindíssima trilha sonora, assinada por Wagner Tiso, Ele, o Boto é um filme marcante, com um elenco que está em perfeita sintonia com seus personagens e consegue transmitir muito bem todo o misticismo existente em torno da figura do boto, tão presente em tantas “desgraças familiares” do Norte e Nordeste brasileiro. Carlos Alberto Riccelli está magistral no papel do boto, está com uns trejeitos incríveis que dão a ele um ar totalmente-semi-humano. Ele andando “pulandinho”, ou mesmo mergulhando como boto, marcam essa atuação como uma das melhores de sua carreira. A maquiagem também é sensacional, deram a ele um tom de pele acinzentado muito parecido com a cor de um boto. Um filme clássico da nossa cinegrafia que Cena Brasilis RECOMENDA pelo seu valor na história do cinema brasileiro e para ter oportunidade de ver atuações marcantes e ótimos atore no início de suas carreiras, num filme com uma carga poética e dramática que oferece uma amplidão de trabalho para cada um deles. Vale a pena conferir, seja passando numa boa locadora, seja comprando o filme ou mesmo aguardando que ele passe na Sessão Brasil, que passa às segundas na Globo - volta e meia passa - ou mesmo no Canal Brasil que sempre traz em sua programação classicões do nosso cinema.
Com uma fórmula mais do que batida nas produções hollywoodianas, Se Eu Fosse Você, faz com que sejamos remetidos a filmes como Quero Ser Grande, e já faz com que não haja tanto entusiasmo do espectador diante da trama. Ainda assim, mesmo com a sensação de “já vi isso antes”, o filme consegue ser bem divertido e acabou virando um incrível sucesso de bilheteria - e boa parte disso se deve ao talento do casal principal e da excelente química entre eles, que já estão mais do que cansados de interpretar pares românticos (haja visto as duas últimas novelas que fizeram Belíssima e Paraíso Tropical, onde em ambas os dois formavam um casal). Além disso, Patrícia Pillar também faz uma ressurreição de sua personagem-doutora do seriado Mulher - não é a mesma, mas tá muito similar… =D O filme começa deixando no ar aquela máxima de que homens são de Marte e mulheres são de Vênus. E quando esses planetas se alinham, só Deus pode imaginar no que vai dar. Além do que, no final, eles reforçam ainda mais as diferenças que regem o masculino marciano (vindo do Planeta do Deus da Guerra) e o feminino venusiano (natural do Planeta da Deusa do Amor). Cláudio (Tony Ramos) é um publicitário bem sucedido, dono de sua própria agência e casado com Helena (Glória Pires), uma professora de música, responsável por um coral infantil. Acostumados com a rotina do dia-a-dia e do casamento de tantos anos, eles, volta e meia, têm uma discussão. Um dia acabam tendo uma briga mais séria que o normal, e fiquem repetindo as mesmas frases (ao mesmo tempo) um pro outro, e de madrugada, enquanto dormem, algo inesperado e inexplicável acontece: eles acabam trocando de corpos. Apavorados, eles tentam encarar o fato com normalidade até que consigam revertar a situação, e pra isso é preciso que assumam a vida do outro. Com dois atores extremamente competentes e talentosos, até essa fórmula batida fica boa. Tanto Tony Ramos, quanto Glória Pires conseguem deixar claro para o espectador quando eles interpretam Cláudio e quando interpretam Helena. A “mudança de sexo” é nítida, eles conseguiram encarar esse papel-duplo numa boa, com muita naturalidade e isso é muito positivo pro público. Tanto que Se Eu Fosse Você foi a maior bilheteria de filme brasileiro em 2006, levando mais de 3 milhões e meio de pessoas aos cinemas.
“Oh, Beethoven. Oh, Ludwig, oh, Ludwig! Uh, uh! Uh, uh!”. A participação do coral d’As Jovens Princesas de Petrópolis no filme, é assaz. Elas interpretando a versão hip-hop da 9ª Sinfonia de Bethoven é fantástico. O filme poderia ser ainda melhor se não ficasse no ar aquela liçãozinha de moral: “não dê palpite na vida alheia, porque você não sabe como é estar no lugar do outro, e com certeza, é muito mais difícil do que você pode imaginar”. Premiações e Indicações- Recebeu 6 indicações ao Grande Prêmio Cinema Brasil, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Glória Pires), Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Edição.
Obs: a nota real seria mais pra 5,5, mas como tem que ser nota inteira, achei que merecia mais pra nota 6 do que pra 5, e isso graças ao desempenho do elenco. =D |
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