Resenhas
Quando vamos ao cinema imaginamos que vamos sentar na sala, ver uma abertura, um enredo, que tem começo, meio e fim, com todas aquelas viradas na trama que prendem quem está assistindo. Mas no caso de Jogo de Cena é totalmente diferente. Não há enredo, não há história a seguir. Jogo de Cena, plagiando Nelson Rodrigues, é, a vida como ela é. São 100 minutos de filme onde vemos mulheres de todo tipo que você imaginar, que resolveram contar sua história ao diretor Eduardo Coutinho, respondendo ao anúncio de jornal ou a panfletos espalhados por aí. Dentre essas mulheres vemos Fernanda Torres contando uma experiência que teve com o candomblé e Andréa Beltrão falando da saudade que sente do cheiro de sua babá de infância, além de muitas outras mulheres comuns, cada uma com a sua história — que pode ser banal pra alguns, mas que é especial para elas. E nesse meio todo, algumas atrizes, dentre elas a própria Fernanda Torres e Andréa Beltrão, além de Marília Pêra, dentre outras, depois de assistirem ao depoimento dessas mulheres, escolhe um e o relata, como se aquela fosse a sua história. E o que é interessante é que aí, podemos notar a fragilidade da atriz e ela totalmente nua, despida, mostrando o quão duro é pegar um texto e dar vida a ele.
Em vários momentos os depoimentos se mesclam, a atriz narra uma parte, a mulher narra outra e podemos perceber como cada uma tem sua maneira, bem diferente, de lidar com a mesma história. Um exemplo, Andréa Beltrão narra a história de Gisele, e no fim, ela acaba se emocionando muito mais que a própria ao narrar sua história. Marília Pêra, que está narrando a história de Sarita, se emociona também, mas em momentos muito diferentes da narração nos quais Sarita chora. Mostra o nervosismo das atrizes, a incerteza de estar fazendo algo legal, algo fiel. É bárbaro. Além disso, há outras histórias mescladas, mas de atrizes que não são conhecidas do grande público, e aí o público fica sem saber quem é a atriz e quem é a dona da história. Jogo de Cena é um deleite. Um meio-termo entre teatro e cinema e totalmente genial. De onde surgiu a idéia de contar histórias de mulheres comuns e de depois mostrar como essas histórias ficariam com uma atriz narrando-as? Eduardo Coutinho foi brilhante, e a montagem toda é linda, é perfeita, ele tem o feeling de perceber que aquele é o momento exato de intercalar a mulher real com a intérprete, ou de mudar totalmente de história, sem falar, na escolha do trecho da história de cada uma. São histórias tristes, profundas, de conflitos, de crescimentos, de insatisfação com a vida atual, mas, acima de tudo, cada uma delas é uma história de amor: ao filho, à filha, ao pai, a si mesma. CENA BRASILIS RECOMENDA! pra todo mundo que quer sair da mesmice e ver alguma coisa diferente, e pra todos os amantes da arte dramática. Com certeza você vai aplaudir de pé. Prêmios e Indicações- Melhor Documentário no Festival de Cinema de Punta del Este
Sou uma verdadeira amante daquilo que é produzido aqui no Brasil, musical, literária e cinematograficamente falando. Até porque, se eu não gostasse, não teria um blog como esse. Há cerca de um ano, quando assisti a O Cheiro do Ralo, sai da sala de cinema quase sem ar devido a originalidade e densidade do filme. Primeira coisa que pensei: não me restam dúvidas, o Selton Mello é mesmo foda, seja lá o que tiver pela frente, ele manda muito bem… Segunda coisa que me passou pela cabeça: acho que definitivamente, a produção nacional abriu os olhos e resolveu parar de produzir filmes só sobre a probreza e a violência, ambos com uma boa carga de glamorização. Haja visto Central do Brasil, Carandiru e Cidade de Deus — excelentes filmes, mas todos com esse mesmo tipo de apelo. Ou então com alguma ligação com literatura nordestina, caso de O Auto da Compadecida e similares, ou mesmo as comédias-românticas “globo-filmes”. Parece que uma abertura de leque definitivamente estava se impondo. A primeira vez que senti isso, de verdade, foi em Árido Movie, também estrelado por Selton Mello, onde abriu-se um novo caminho e vimos um filme que nada tem a ver com esse lance de “ode à pobreza e à violência”. E com O Cheiro do Ralo é a mesma coisa. É impossível não perceber a crítica moral e social que há nessa trama, mas de uma maneira muito diferente de tudo que já se viu. Partimos de Lourenço (Selton Mello), um homem infeliz, amargo, solitário, ressentido, que é dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele vai desenvolvendo um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Os preços são sempre negociados muito mais pelo juízo de valor de Lourenço, do que pelo que o objeto em si vale. Em tempo, Lourenço é o único personagem do filme que tem nome próprio, ele se refere a todos por substantivos comuns, o que mostra a indiferença que sente pelos outros. A partir de então ele passa a ver as pessoas como se estivessem a venda e achar que cada uma delas tem um preço. Esse é, de longe, o personagem mais maduro e complexo que Selton Mello já interpretou em toda a sua carreira e, como já era de se esperar, se saiu muito bem nessa empreitada. No começo ele se incomoda muito com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe no banheiro de seu escritório, e mais ainda com o fato de as pessoas pensarem que o odor vinha dele, o que lhe levava a explicar a todos que o cheiro era do encanamento. Depois de um de seus clientes dizer que o cheiro, na verdade, vinha dele, uma vez que apenas ele usava aquele banheiro e que toda a merda contida ali vinha de dentro dele, pouco a pouco, Lourenço passa a ter uma relação diferente com aquele odor, que acaba tornando-se um vício, do qual ele não consegue mais viver sem e a partir do qual ele passa a conduzir toda a sua vida, e onde faz questão de estar nos seus últimos instantes. Com um elenco numeroso e de peso, seria difícil um projeto desses não dar certo. O filme conta com nomes como Flávio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Fabiana Guglielmetti, André Frateschi (que fazia o namoradinho corno da Grazi na novela), Silvia Lourenço, Paula Braun, Martha Neola, Milhem Cortaz, Suzana Alves, a voz do Paulo César Peréio, além do Tobias da Vai-Vai e do próprio autor do livro, Lourenço Mutarelli e por aí vai. Todos eles encararam esse projeto sem nenhum tipo de retorno financeiro, e a princípio trabalharam de graça, já que o filme teve um orçamento de pífios R$300.000 (orçado originalmente em R$ 2,5 milhões, acabou sendo rodado com apenas R$ 315 mil, reunidos entre sócios privados e produtores executivos). Eles receberiam alguma coisa de acordo com o desempenho do longa nos cinemas. E de cara já tenho que tirar meu chapéu, pois essa foi uma tacada de mestre do diretor, Heitor Dhalia, que conseguiu unir um bom roteiro com um excelente elenco e a partir disso trazer uma reflexão sobre como a lógica do capitalismo (que nos faz escravos do dinheiro) acaba por nos transformar em pessoas frias e gananciosas. O legal é que, embora seja uma crítica social, o filme também é uma comédia repleta de humor-negro e de tudo aquilo que nós consideramos politicamente incorreto. E por tudo isso não restam nem dúvidas… É claro que CENA BRASILIS RECOMENDA!, e muito. Pode assistir com gosto, porque você não vai se arrepender. Prêmios e Indicações- Prêmio de Melhor Filme - longa-metragem de ficção (júri popular) - Festival do Rio 2006
Muito, muito, muito, muitíssimo aquém da série. Antes de começar a receber xingamentos, deixo claro que, pra mim, Os Normais - O Filme, cumpre muito bem sua função de comédia, e em muitos momentos me levou às gargalhadas. Há cenas memoráveis, as atuações estão ótimas, mas ainda assim falta alguma coisa. Acho que apesar de chegar bem ao seu objetivo de fazer rir, como todo filme de comédia, não consegue chegar nem aos pés do seriado. E é inevitável fazer comparações, uma vez que esse longa só existiu e virou sucesso (quase 3 milhões de pessoas assistiram a Os Normais - O Filme nos cinemas), por conta do seriado que tinha milhões de fãs. Eu mesma, assisti a esse filme porque sempre fui mega-fã de Rui e Vani e me sentia um tanto órfã das risadas que o programa me causava, além da identificação em várias situações. (bem naquele lance de que “de perto ninguém é normal”, como já diria Caetano em sua célebre Vaca Profana). O filme tem como idéia fazer uma mega-thunder-flash back (mania do seriado, por sinal) e nos mostrar como Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) se conheceram, porque o noivado e a convivência de ambos, o público já tá mais do que acostumado a ver. Do momento em que se viram pela primeira vez até menos de doze horas depois, a vida desses dois sofreu uma reviravolta e o fim da história é o seriado que a gente tanto adorava. Tudo começa com Rui e Vani se casando. Ela acabou de se casar com Sérgio (Evandro Mesquita), na cerimônia das 18h, e ele está na sacristia esperando para se casar com Marta (Marisa Orth), às 20h, na mesma igreja. A escolha de Evandro Mesquita e Marisa Orth para fechar o quarteto é muito boa, pois faz com que todo o filme ganhe um ar engraçado em todo e qualquer tipo de situação. São quatro atores excelentes e com uma longa história da carreira ligada à comédia, e por conta disso tudo, desempenham seus papéis sensacionalmente. Porém o texto é bem fraco - os roteiristas erraram a mão. E só as atuações mesmo para conseguir dar um UP no filme, porque, senão… =P Acho uma pena, uma vez que os roteiristas Alexandre Machado e Fernanda Young são os mesmos do seriado e ainda contaram com a ajuda do sensacional Jorge Furtado, e mesmo assim, o resultado não foi lá grandes coisas. Há tanto fio solto… Uma vez que a trama do filme é cronologicamente anterior à do seriado e os roteiristas são o mesmo, deveria ter havido um cuidado com continuidade e coerência. Um exemplo disso, e que pra mim foi o que mais pegou foi o fato de o Evandro Mesquita ser o noivo da Vani. Ele já apareceu na série em três oportunidades, e em cada uma delas com nomes diferentes. Os episódios em que ele aparece são: Complicar é Normal, 12º episódio da primeira temporada (2001), em que ele fazia Valdo; Dar Um Tempo é Normal, 22º episódio da primeira temporada (2001), onde interpretava Jorge; e Gente Normal e Civilizada, 26º episódio da segunda temporada (2002), onde desta vez, era Tobias. Como fã da série, não pude deixar de perceber essa derrapada. Até porque, a primeira temporada tem uma trama que está mais próxima (cronologicamente falando) do que acontece no filme, e bem no meio dessa temporada, o Evandro aparece na pele de Valdo, num episódio que me marcou muito. Luana (Danielle Winits), amiga de Vani, está de volta ao Brasil depois de morar um tempo fora e vai passar uns dias na casa da amiga. Com toda a sua formosura (como já diria o meu amigo Touro), acaba chamando a atenção de Rui. Vani fica loucamente enciumada e resolve dar em cima de um amigo do noivo pra tentar provocar ciúmes nele também. No caso esse amigo é Valdo. Ela leva ele para seu apartamento e, de repente, Rui e Luana chegam, e então todo mundo descobre que Valdo é o ex-namorado da Luana. E blá-blá-blá… Aí fica a pergunta, como assim Valdo, namorado da Luana?! Ele não era o Sérgio, ex-noivo/marido da Vani?! o_O Pra coroar, Marisa Orth também participou da série, e, também, em mais de uma oportunidade, nos episódios Mal-entendido é Normal - 7º episódio, da primeira temporada (2001) - onde interpretava Nina; e em Divertimento Normal e Sadio, 23º episódio da segunda temporada (2002), quando encarnava Maria Sílvia. Pode até parecer frescura ou bobagem, mas Os Normais era uma série muito emblemática, que trazia situações marcantes, encaradas de uma maneira escrachada, e por conta disso, acabam ficando na cabeça das pessoas. E nessas eu penso que, por mais que a idéia de se fazer um filme partindo dessa trama tenha vindo depois, o mínimo que os roteiristas podiam fazer era linkar as situações e personagens que já existiam, como foi feito no caso de A Grande Família - O Filme, que eles trouxeram o Paulo Betti, no papel de Carlinhos, ex-namorado da Nenê - mesmo papel desempenhado na série, embora lá ele se chamasse Gilmar - mas uma vez que o enredo é o mesmo, a mudança de nomes não chama atenção. Mas, apesar de tantas reclamações, ainda acho que o filme tem cenas empagáveis, o que acaba fazendo com que a nota do longa suba um pouco. Adoro a cena em que Vani e Rui botam Dr. Silvana & Cia no talo e saem dançando Taca a mãe pra ver se quica, e nessa mesma seqüência o teatro das sombras armado por Vani pra irritar Sérgio, ao som de Dentro do Coração, da banda Rádio Táxi. Logo depois, ainda no mesmo contexto, é impagável o Rui imitando o Tony Tornado cantando e dançando BR-3 - por sinal, para essa cena Luiz Fernando recebeu um treinamento dado pelo próprio Tony Tornado sobre como fazer a coreografia e os maneirismos que viraram marca registrada do cantor/ator. Adoro o tanto de palavrões que a Vani fala em algumas cenas. E uma seqüência que é muito boa e que não está na versão do filme passada nos cinemas, mas foi acrescentada na versão de DVD é a que o Rui vai tomar satisfações com o Sérgio e torcendo a mão dele pede que ele cante o hino do meu Fogão com a voz do Fred Flintstone. E a trilha sonora do filme também é muito boa, divertida, nostálgica e que cai como uma luva no estilo do filme/seriado e dos personagens. Conclusão: mesmo o roteiro sendo fraco e contendo derrapadas feias, ainda é um filme que vale conferir. Dá pra dar muita risada, porque o quarteto é mesmo muito bom, mas o filme não é nem de perto tão genial quanto o seriado que lhe deu origem. Indicações e Premiações- Ganhou o Lente de Cristal de Melhor Filme - Voto Popular, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami. - Ganhou o Media Awards, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami. - Troféu Blockbuster Entertainment Awards Brasil de Melhor Atriz de Comédia para Fernanda Torres
Um filme que tem um bom texto, adaptado de uma já consagrada peça de teatro, com um diretor mais do que tarimbado e com quatro excelentes atrizes nos papéis principais tinha o que pra dar errado? Nada… Pois é, e esse é o caso de A Partilha. Adaptado da peça homônima, escrita por Miguel Falabella, o filme é dirigido por Daniel Filho, que voltou a assumir o papel que não ocupava desde 1983, quando dirigiu O Cangaceiro Trapalhão. Ele assistiu a A Partilha logo em uma de suas primeiras apresentações ao público em 1991, e se apaixonou pela peça. Tanto que comprou os direitos de adaptação para o cinema da peça já nessa época. O elenco original da peça era composto por Suzana Vieira, Thereza Piffer, Natália do Valle e Arlete Salles. A Partilha conta a história de quatro irmãs, centradas num acontecimento que as une, apesar de todas as diferenças: o enterro da mãe. Além do luto daquele momento, Selma (Glória Pires), Regina (Andréa Beltrão), Laura (Paloma Duarte) e Lúcia (Lílian Cabral), precisam resolver os assuntos burocráticos que envolvem a morte da mãe, entre eles, a partilha dos bens, mais especificamente, a venda do apartamento em que a mãe vivia em Copacabana. A partir disso as irmãs se vêem forçadas a um convívio, que traz à tona as diferenças de personalidade e as desavenças do passado. Selma é uma dona de casa, casada com um militar (Herson Capri - que está impagável nesse papel), vive uma vida digna de soldado raso, acatando todas as ordens e manias do marido. Já Regina é a irmã liberada, exotérica, meio hippie, divorciada, curte cada dia de cada vez. Lúcia é a irmã mais velha que teve coragem de romper com o marido (Denis Carvalho) e abandonar o filho (Thiago Fragoso), para ir pra Paris disposta a viver o grande amor da sua vida. Em contraponto, Laura é a intelectual da família. Séria, sisuda e disposta a romper os tabus e preconceitos da sociedade e de suas irmãs. Com essa convivência, apesar de todas as brigas e discussões, elas conseguem se lembrar de todos os bons momentos que passaram juntas, e unidas pelos laços da fraternidade enfrentam as situações se divertindo muito e brigando sempre. Embora as quatro principais estejam primorosas, Andréa Beltrão está incrível no seu papel de irmã-porra louca e Paloma Duarte também está bárbara como Laura, sutil, delicada, conseguiu fugir de todos os estereótipos que poderiam cercar a personagem. Para completar esse brilhante quadro, os atores e personagens incumbidos de compor o pano de fundo da trama também estão primorosos, dando um molho muito especial ao roteiro - originalmente com apenas quatro personagens presentes. Esse filme se mostrou uma ótima adaptação de um texto que sempre foi bom, antes mesmo de começarem a mexer nele. Como tempero, o longa conta com uma trilha sonora deliciosa que faz você querer comprar o CD do filme assim que termina de assistir (ou, para os menos politicamente corretos, baixar as músicas… É que eu sou daquelas pessoas românticas, que fazem a alegria das gravadoras e continua comprando CDs. =D). A química entre as quatro é maravilhosa. As atrizes entraram num tamanho nível de entrosamento que foi um chororô só quando acabaram as filmagens, que, por sinal foram concluídas em apenas cinco semanas, entre os meses de novembro e dezembro de 2000. O filme conta com cenas memoráveis, como a clássica, em que as quatro estão na praia e dançam Dancing Days. Outra cena inesquecível é quando as três irmãs fazem rodízio no telefone para xingar o cunhado Luiz Fernando, que está histérico - é maravilhoso. A Selma de porre, etiquetando tudo pela casa também é bárbaro. E um detalhe, que pode até passar batido para a maioria, mas que me faz rir toda vez que vejo, é quando a filha da Selma (Fernanda Rodrigues) conta pra mãe que não se chama mais Simone, e que seu novo nome é Shanandra Poranga [dois estalinhos de dedo, intercalando as mãos, que depois se unim em posição de prece] - e toda a vez que seu nome é citado, vem acompanhado desse gestual - muito cômico. Mas, pra mim, a cena mais sensível do filme é a do final. Linda, linda, linda! É surpreendente, totalmente diferente de qualquer fecho já dado a um filme, ainda mais se tratando de uma comédia. Tocante, muito bem pensado e amarrado, mostra as quatro irmãs quando pequenas, num filme feito pelo pai delas. Porém, o áudio reproduz a voz das quatro já adultas, como se estivessem lendo uma carta contando suas vidas para as outras três. É brilhante! Toda vez que vejo essa cena me desmancho em lágrimas. ^^ CENA BRASILIS RECOMENDA esse filme, e, falando por mim, que já assisti várias vezes (no cinema, em VHS, na TV, comprei o DVD) e ainda pretendo ver várias outras. Indicações e Premiações- Recebeu duas indicações ao Grande Prêmio BR de Cinema, na categoria de Melhor Atriz - para Andréa Beltrão e Glória Pires. - Prêmio de Melhor Roteiro do Festival de Cinema Brasileiro de Miami 2002. - Prêmio da Audiência do Festival de Cinema Brasileiro de Miami 2002.
É muito bom quando pegamos um filme para assistir e nos deparamos com um como Redentor, que apresenta para gente um drama totalmente contemporâneo e inserido numa realidade tipicamente brasileira. Realidade esta, que faz parte da vida de muito mais pessoas do que nós possamos supor. O que aconteceria com um prédio vazio, com apartamentos de médio e alto padrão, ao lado de uma favela de 20 mil habitantes?! Se você mora no Brasil, a resposta é uma só… A história de Redentor tem como gancho central a invasão do Residencial Paraíso, que traz sérias conseqüências para a vida de muitas pessoas, entre elas, Célio (Pedro Cardoso) e Otávio (Miguel Falabella). Os dois se conhecem desde o começo da década de 1970, quando ficaram amigos na infância. Otávio é filho do Dr. Sabóia (José Wilker), dono de uma empreiteira. Célio, ainda criança, fica impressionado com a maquete do empreendimento na Barra da Tijuca, mostrada por seu amigo. Vendo o filho com toda aquela empolgação, Justo (Domingos de Oliveira na primeira fase e Fernando Torres na segunda) decide comprar um apartamento para agradar o menino. Depois de pagarem todas as prestações durante anos, a família de Célio jamais chegou a ocupar o apartamento, porque o Dr. Sabóia, após vender os apartamentos, decretou falência e deixou a obra incompleta. Os operários que trabalharam na construção do edifício e não receberam o salário criaram uma favela ao lado do condomínio, e, passados 15 anos, sem verem a cor do dinheiro, decidem tomar posse dos apartamentos e organizam uma invasão. Com isso o Dr. Sabóia se suicidou e deixou os negócios a cargo do filho. Célio, que virou jornalista, vai cobrir o caso e, depois de anos, reencontra Otávio. Depois de fingir aceitar uma proposta de Otávio para se corromper, Célio tem uma visão e acredita ter recebido uma missão de Deus para fazer com que o ex-amigo se arrependa de seus erros e doe toda sua fortuna aos pobres a quem seu pai ficou devendo. Deixando de lado a ficção e os efeitos especiais, é interessante observar a acidez do filme, que é muito bem construído e amarrado, de maneira que, com pitadas certeiras de comédia, fazem desse filme uma excelente crítica social, envolvendo uma pessoa de classe média que sofre um golpe que abala financeiramente a vida de sua família. Mas ainda assim, ele também se choca ao perceber que outras pessoas também foram vítimas daquele mesmo golpe e muitos casos ainda são bem piores do que o dele. Além disso, é sensacional nos depararmos com dois atores que ficaram conhecidos em todo canto por seus emblemáticos personagens Agostinho Carrara e Caco Antíbes, e, em Redentor, eles mostram que têm um talento que vai muito além de nos fazer rir com interpretações cômicas e piadas escrachadas. Provam que são atores capazes de encarar qualquer tipo de personagem que lhes seja proposto. E pra coroar, os papéis dos coadjuvantes todos são interpretados por atores excelentes como Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Fernando Torres, Camila Pitanga, José Wilker, Babu Santana, Stênio Garcia, Suely Franco, Guta Stresser, Tonico Pereira, Lúcio Mauro, Tony Tornado e Enrique Díaz. Redentor é um verdadeiro trabalho de família. Dirigido por Cláudio Torres, que também assina o roteiro ao lado de sua irmã, Fernanda Torres (que também atua no longa), João Emanuel Carneiro e Elena Soárez. Além disso, os pais da dupla Fernanda Montenegro e Fernando Torres, fazem parte do elenco do filme. Uma ótima obra do nosso cinema que merece ser conferido por quem ainda não teve a oportunidade de ver. JUDÃO e CENA BRASILIS RECOMENDA.
Embalados ao som dançante de Ed Motta, que ao lado de João Nabuco assina a trilha de Pequeno Dicionário Amoroso, nesse filme, acompanhamos a história de um amor, desde a sua “gestação”, até sua “morte”, passando por todas as fases, que são facilmente reconhecíveis por qualquer pessoa que já tenha tido algum relacionamento mais longo. A maneira como as fases são descritas de uma maneira incrível, sem fazer melodrama ou idealizar momentos. Quem já teve um amor que acabou (ou “foi acabado”) vai se identificar muito. Com uma sacada muito legal e sem nenhum tipo de pieguice o filme vai transformando as fases do relacionamento em verbetes do dicionário, que, muito inteligentemente, seguem a ordem alfabética o tempo todo, do nascer do amor, até o fim. E como a nossa vida é cíclica, e anda sempre em círculos, acabando um alfabeto inicia-se um próximo. Todo esse universo é apresentado pra gente sobre o pano de fundo de um casal de classe média do Rio de Janeiro, a arquiteta Luiza (Andréa Beltrão) e o biólogo Gabriel (Daniel Dantas). Por um acaso do destino, eles acabam se conhecendo num cemitério em meio a interesses por besouros e arquitetura fúnebre. Os dois se apaixonam e começam a viver um grande amor. Com o andar da carruagem, o relacionamento sai da fase da euforia, caminha para a intimidade, passa pelo marasmo, a rotina, até chegar ao momento em que é preciso tomar uma decisão, ou acabam, ou um muda totalmente seu jeito de ser. Os verbetes são narrados pelo casal e por seus melhores amigos, Marta (Mônica Torres) e Barata (Tony Ramos). O filme mostra uma maneira bem diferente do que estamos acostumados a ver. Não tem começo, meio e fim, tem um começo, que caminha pro meio e vai prum fim que vira começo e assim sucessivamente. Editado de uma maneira leve, original, com uma trilha sonora deliciosa e um elenco que está magistral em seus papéis. Mais de 10 anos se passaram e o filme ainda é muito atual e extremamente original. Esse é o primeiro longa de ficção de Sandra Werneck, mesma diretora de Amores Possíveis, que acabou se consagrando com o mega-sucesso Cazuza - O Tempo Não Pára. Mas ainda assim, Pequeno Dicionário Amoroso continua sendo um de seus melhores filmes, e, sem dúvida nenhuma, a sua obra mais inovadora. CENA BRASILIS RECOMENDA totalmente. Indicações e Premiações- Prêmio de melhor roteiro - Festival Internacional de Cine de Cartagena - Colômbia (1998)
Amores Possíveis é um filme diferente das comédias românticas que estamos habituados a ver por aí. Primeiro porque está mais pra comédia dramática, do que pra comédia romântica. É um filme sobre o destino, sobre a conseqüência dos nossos atos no futuro. São três histórias que nos são contadas paralelamente, porém são três histórias sobre os mesmos personagens, os mesmos atores, que devido a um determinado acontecimento de 15 anos antes, faz com que o futuro deles tome rumos totalmente diferentes. Com uma trama bem construída e intercalada de maneira inteligente, nos fornecendo surpresas ao longo de todo o desenrolar das três tramas, Amores Possíveis um belíssimo filme de amor, em suas mais distintas manifestações. As histórias vão misturando amor, tesão, drama, rancor e muitas situações engraçadas. Há 15 anos, Carlos (Murilo Benício) tinha um encontro marcado no cinema com Júlia (Carolina Ferraz), seu amor de juventude, que ele conheceu na faculdade. Mas ela não aparece, e Carlos fica sozinho no hall do cinema, esperando, esperando, esperando… Nessa espera, que parece infinita, ele começa a tecer rumos que seu futuro poderia tomar, a partir da vinda ou não de Júlia àquele encontro… Quinze anos depois a gente vê três versões possíveis e diferentes da vida de Carlos. Em uma, ele é um homem com uma vida financeiramente estável, e afetivamente infeliz, que leva uma vida cômoda e monótona como sua esposa Maria (Beth Goulart), nessa realidade ele se torna um homem ávido por viver um amor arrebatador. Em outra versão, Carlos é um homem divorciado, com um filho pequeno, que se descobriu homossexual e que para ser feliz, colocou a paixão na frente de todas as suas prioridades. Na terceira ele é um homem que decidiu que não quer sair da adolescência e nem debaixo da saia da sua mãe perfeita (Irene Ravache). Mas que depois de muita porraloquice, resolve que está na hora de encontrar um grande amor para sua vida. Apenas uma destas vidas é real (ou não), sendo que outra é fictícia e a terceira é a que ele gostaria realmente de viver. Mas para saber qual destas três é a verdadeira vida de Carlos, é preciso acompanhar o filme todo para descobrir o que aconteceu de fato após aquela espera no hall de cinema. Os casal protagonista e o melhor amigo de Carlos, Pedro (Emílio de Melo) estão esplêndidos nos papéis. Os três aparecem em todas as tramas, e conseguem fazer muito bem a passagem entre uma história e outra, deixando claro pra gente a linha divisória dos enredos. Você sabe sempre qual Carlos, qual Júlia e qual Pedro é, não precisa nada além de olhar pra eles. Além das mudanças físicas (cabelo, trajes e trejeitos) de cada história, há uma clara mudança psicológica, que faz com que fiquemos confortáveis dentro do que está se desenrolando diante de nós. A química entre o casal está esplêndida, mas vale lembrar que na época em que o filme foi rodado, Carolina Ferraz e Murilo Benício eram um casal fora das telas também, o que sempre facilita… CENA BRASILIS RECOMENDA, é um filme que vale a pena ver, e pra quem tem insônia, ou o hábito de dormir tarde, pode dar uma conferida hoje, pois o filme será exibido daqui a pouco na Globo, na Sessão Brasil. Indicações e Premiações- Recebeu 3 indicações para o Grande Prêmio BR de Cinema, nas categorias de Melhor Ator (Murilo Benício), Melhor Atriz Coadjuvante (Irene Ravache) e Melhor Som.
Que ele é um dos melhores atores da sua geração (se não for o melhor!), isso todo mundo já sabe, porém, tenho observado que há alguns anos ele ultrapassou a barreira do bom ator que faz bons papéis, e virou uma entidade. As pessoas vão ao cinema para assistir ao filme novo do Selton Mello, às vezes sem nem saber o nome exato do longa, ou mesmo sobre o que se trata o enredo, o grande motivo que os leva ao cinema é o simples fato de aquele ser mais um trabalho de Selton Mello. O mais novo trabalho do ator não poderia ser diferente. Enorme sucesso, já levou mais de 1 milhão de pessoas ao cinema e promete ser um dos grandes sucessos do ano - e olha que 2008 tá só começando… Inspirado no livro homônimo do jornalista Guilherme Fiúza, o longa-metragem Meu Nome Não É Johnny conta a história real de João Guilherme Estrella (vivido brilhantemente por Selton Mello), um típico jovem da classe média carioca. João era um menino inteligente e simpático, adorado pelos pais e popular entre os amigos. Filho de um diretor do extinto Banco Nacional, cresceu no Jardim Botânico e freqüentou os melhores colégios do Rio de Janeiro. Na onda do sexo, drogas e rock’n roll, ele se jogou com vontade e viveu intensamente sua adolescência entre os anos 70 e 80. Inteligente, simpático e com um senso de humor sensacional (que cai como uma luva em Selton Mello), ele era muito popular entre os amigos. Tudo começou na adolescência com o típico cigarrinho de maconha depois de algumas ondas, sentado nas areias do Arpoador. E como todo aquele que está disposto a curtir a vida a todo e qualquer custo, logo passou para o consumo de cocaína. Com o tempo, ele cresceu nesse mundo e de simples usuário de droga, passou a vendê-la para os amigos. E a coisa cresceu tanto que ele passou a ser um dos principais traficantes da Zona Sul do Rio. A coisa foi crescendo cada vez mais e João era conhecidíssimo nesse sub-mundo da alta classe-média carioca, até que conheceu Felipe, um traficante que tinha um amplo mercado na Europa, e propôs a João que ele fizesse o transporte de um lote de cocaína até lá, e ele embarcou nessa onda, passando de mero traficante carioca, para um esquema internacional. No filme, Selton Mello divide a cena com um elenco de primeira, com nomes como Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Cássia Kiss, Rafaela Mandelli, Ângelo Paes Leme, Eva Todor, André di Biasi, Giulio Lopes, além de muitos outros, há até uma breve participação do Hermano, Rodrigo Amarante. Meu Nome Não É Johnny é um filme longo, que retrata a vida de João Estrella desde a infância até a conturbada vida adulta e nos brinda com atuações incríveis e com o sarcasmo próprio de Selton Mello, que parece ter nascido para esse papel. Uma história real que deve ser muito mais comum do que a gente pensa, e que tem a função de nos levar a refletir sobre os rumos que estamos dando para nossas vidas, se estamos aproveitando bem as oportunidades que nos são dadas. O filme é uma boa pedida, apesar de se perder um pouco no fato de querer vontar muita coisa em pouco mais de duas horas, mas, ainda assim, a atuação de Selton Mello e das “pernocas roliças”, compensam qualquer deslize. Por isso, ainda que tenha defeitos, CENA BRASILIS RECOMENDA. Meu Nome Não É Johnny é um programa que vale a pena, seja para assistir com os amigos ou com a namorada.
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