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Embora já tenha ficado um pouco batido fazer filmes sobre ditadura militar, é fato que ainda há muito pra se falar sobre esse período da nossa história. E o pior é que, infelizmente, pelo fato de as pessoas já terem visto alguns longas ou peças com essa temática, acreditam que dominam o assunto. Porém, a verdade é que ainda se sabe muito pouco do que aconteceu no Brasil nos 21 anos que estivemos sob o regime militar, e que há muita coisa a ser esclarecida e debatida para que a verdade esteja ao alcance de todos os brasileiros. Mas a temática, usada à exaustão, e com pouca variedade de temas, infelizmente, acabaram saturando o público brasileiro, fazendo com que se perdesse o interesse em filmes do gênero. Porém, bem ou mal, é preciso que se fale disso, que se toque o dedo na ferida. Eu tenho um carinho muito grande por esse filme. Pra começar porque, talvez nem todos saibam, mas tenho uma vida intensamente ligada a tudo que envolva o Regime Militar que nos assolou entre 1964 e 1985. Sou filha e sobrinha de presos políticos, meu pai e meu tio foram barbaramente torturados (meu pai, por exemplo não tem mais nenhum dos dentes da parte de cima da boca - todos arrancados com alicate em sessões de tortura) e meu tio desenvolveu aos 25 anos um envelhecimento precoce. Além disso, 99% do círculo de amigos dos meus pais também foram presos políticos. Sem falar que minha mãe escapou muitas vezes da prisão porque tinha cara de menininha (aos 25 aparentava ter 16, e era presa, mas logo era liberada). Ou seja, antes de qualquer coisa, esse é um assunto que de antemão mexe demais comigo, e que eu acho que tenho um dever cívico (e emocional) de tratar com toda atenção, respeito e carinho que o tema merece. Sempre que posso arrumo um jeito de passear por esse período da nossa história, até porque, percebo que grande parte da população, principalmente quem não viveu aquela época, não consegue perceber a gravidade das coisas que aconteceram. Não consegue enxergar o quanto é cruel tirar a vida de alguém que não concorde com a sua postura, o quanto é sério você ver, ouvir e falar, sem poder expressar a sua verdadeira opinião. Muitas pessoas morreram, várias outras sumiram e até hoje não se sabe do corpo, isso sem falar na quantidade de heróis desconhecidos, que foram cruelmente torturados e levam uma vida “normal” e que muitos nem sabem das seqüelas e feridas que eles carregam consigo. Por isso sou sempre a primeira a me levantar e aplaudir iniciativas como essa. Zuzu Angel conta a história da estilista brasileira homônina, que se engajou numa luta intensa contra os militares para descobrir o paradeiro do corpo de seu filho, sabidamente assassinado nos porões da ditadura. A partir daí, passa a ser vista como uma grande inimiga do regime e começa a ser perseguida, ameaçada, até que, enfim, acaba sendo morta - e só assim coloca-se um fim nessa luta insistente de uma mãe. Stuart Angel, filho de Zuzu, era um conhecido do meu pai, e militou na mesma organização que ele (o MR-8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro - uma alusão à data de morte de Che Guevara), e em muitos pontos a história dos dois se mesclam. Até porque, em Salvador (cidade natal do meu pai), muitos pensaram que ele tinha sido morto pela ditadura (porque em 1976 ele veio pra São Paulo e nunca mais voltou pra lá). Por conta disso e criaram todo um enredo para explicar essa morte (e conseqüente sumiço do corpo) do meu pai, e esta história, é na verdade a de Stuart Angel. Acabaram confundindo os dois, por terem a mesma idade, terem sido da mesma organização e ambos terem sido presos pela ditadura. Tanto é que essa confusão toda fez com que meu pai virasse nome do Grêmio Estudantil da Escola Técnica Federal da Bahia, ainda que tenhamos ido explicar que ele está vivinho da Silva. Mas vamos ao filme, porque vocês vieram aqui pra isso, não é mesmo. Apesar de a gama de personagens desse filme ser enorme, o diretor Sérgio Rezende preferiu focar o longa em cima de dois personagens: Stuart (Daniel de Oliveira) e Zuzu (Patrícia Pillar), permeados por muitos e muitos outros e isso acaba dando a impressão de que muitos personages são pouco explorados. Mas eu entendo essa opção, ele optou centrar em dois personagens e se aprofundar na história de ambos do que passar superficialmente por todos. O elenco é de primeira e é permeado de atuações sensacionais. Mas, também com um time que começa com Daniel de Oliveira (sempre bárbaro e camaleão. Está impressionantemente igual - fisicamente - ao Stuart), Patrícia Pillar (que também está incrível), Leandra Leal (que se mostra, sem sombra de dúvida, como a melhor atriz dessa nova geração), Luana Piovani (que apesar de bem mala, tem também muito talento), Ângela Vieira, Alexandre Borges, Nelson Dantas (fenomenal, mesmo só falando duas palavras - lembrando que esse foi o último papel dele), Ângela Leal, Antônio Pitanga, Othon Bastos, Flávio Bauraqui, Caio Junqueira, entre tantos outros, só podia ter um ótimo resultado. O enredo é tenso, principalmente pra quem, como eu, tem um certo envolvimento com a história. Além disso, eu gosto muito de filmes que não são totalmente lineares, e esse filme é assim, permeados de flash-backs, que ajudam o público a entender com clareza a dor de Zuzu, e sofrer junto com ela. É impossível assistir a esse filme e não sentir nada. Outro ponto importante a ser ressaltado, é que de todos os filmes que vi sobre esse período, esse é um dos mais fiéis à crueldade das torturas que os militantes de esquerda sofriam, e é um dos que consegue passar com mais clareza todo o horror pelo qual passaram muitos dos jovens daquele período e seus familiares. Enfim, Cena Brasilis RECOMENDA, ainda mais se você for uma dessas pessoas que gosta de assistir a um filme pra aprender um pouco mais da nossa história, e a ter uma visão mais crítica do mundo. Eu, particularmente, gostei muito, porém esse é o tipo de filme que eu já vinha com uma impressão positiva prévia. Mas pra quem curte ver filmes apenas pra se divertir, passe longe…
Quando assisti a esse filme, no ano passado, cheguei bem cedo à cabine - o que é raro devido ao trânsito de São Paulo - e estava bem empolgada, como já é de costume quando se trata de filme nacional, e ainda mais ser uma adaptação de literatura nordestina, com um ar de cordel. Aproveitei o fato de chegar cedo para devorar o presskit de O Homem que Desafiou o Diabo e então minha empolgação começou a escorrer pelo ralo - isso graças ao currículo do diretor (que estava no presskit como símbolo de orgulho). Especialista em Xuxa, Angélica e Padre Marcelo, entre seus filmes estão Xuxinha e Guto contra os monstros do Espaço, Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida, Xuxa Abracadabra, Maria, mãe do filho de Deus, Irmãos de Fé, Trair e Coçar é Só Começar e, pra fechar com chave de ouro, Dom, a pior adaptação de uma obra literária para a telona que eu já vi na minha vida. Alguns minutos de apreensão depois, então, o filme começa. Ufa! A má impressão, graças a Shiloh, parou lá no currículo do diretor, porque o filme é assaz legal. O Homem que Desafiou o Diabo conta a história de Zé Araújo (Marcos Palmeira), um caixeiro viajante, mulherengo, que chega à cidade de Jardim dos Caiacós para fechar negócio com Turco (Renato Consorte). De noite, num baile, ele conhece Dualiba (Lívia Falcão), quarentona virgem, fogosa e filha do Turco. Ele acaba passando dos limites com a moça e é obrigado a casar com ela. Zé Araújo acaba se tornando um marido e genro submisso. Nesse meio tempo, ele conhece Sesiom (Rui Rezende) - Moisés ao contrário - que lhe conta sobre as belezas e riquezas da terra de São Saruê, e que lá ele renasceu e mudou de nome. O tempo passa, e um dia Zé Araújo descobre que virou motivo de chacota em toda cidade por conta de seu comportamento subserviente diante da mulher e do sogro. E então acontece a grande virada. Ele se revolta com essa situação, quebra a mercearia do sogro, dá uma surra na mulher, se veste de roupa de couro e vai até o escrivão (Lúcio Mauro) para mudar seu nome para Ojuara (Araújo ao contrário) e sai pelo sertão a procura de desafios, de defender os injustiçados e em busca do caminho para São Saruê. Nesse meio tempo ele se apaixona por Genifer (Fernanda Paes Leme) e por ela encara alguns valentões. Enfrenta o Diabo (Heldér Vasconcelos) em pessoa mais de uma vez, derrota Mãe de Pantanha (Flávia Alessandra) e doma um boi mandingueiro que aterrorizava toda uma população. Sem dúvida alguma, o diretor Moacyr Góes pode considerar o “O Homem que desafiou o Diabo” como sua obra-prima. O filme é muito bem adaptado para o cinema. Como a maioria das obras da literatura nordestina, o filme conta com várias mini-tramas, e ainda assim não se perde e nem fica cansativo. É extremamente divertido e incrível que você consegue notar que aqueles personagens, na sua imensa maioria, deve existir de fato na imensidão que é o sertão nordestino. A direção merece os louros por conseguir fazer um filme leve e ao mesmo tempo real, e que se distancia abissalmente de qualquer comparação que possa sofrer com O Auto da Compadecida. Sem falar que o elenco é incrível, porque todos os atores estão muitíssimo bem em seus papéis, sem falar que os sotaques e maneirismos estão incríveis, naturais, não parece aquele sotaque falso, forjado pela Globo.
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| © 2008, Judão, Tayra Vasconcelos. Alguns direitos reservados | ||||