Brasil, mostra a sua cara…
Constado às 23:47 em Resenhas | 3 Comentários | 

Embora já tenha ficado um pouco batido fazer filmes sobre ditadura militar, é fato que ainda há muito pra se falar sobre esse período da nossa história. E o pior é que, infelizmente, pelo fato de as pessoas já terem visto alguns longas ou peças com essa temática, acreditam que dominam o assunto. Porém, a verdade é que ainda se sabe muito pouco do que aconteceu no Brasil nos 21 anos que estivemos sob o regime militar, e que há muita coisa a ser esclarecida e debatida para que a verdade esteja ao alcance de todos os brasileiros.

Mas a temática, usada à exaustão, e com pouca variedade de temas, infelizmente, acabaram saturando o público brasileiro, fazendo com que se perdesse o interesse em filmes do gênero. Porém, bem ou mal, é preciso que se fale disso, que se toque o dedo na ferida. Ok, também acho que não precisa falar apenas disso, mas que é preciso que se fale, é um fato…

Eu tenho um carinho muito grande por esse filme. Pra começar porque, talvez nem todos saibam, mas tenho uma vida intensamente ligada a tudo que envolva o Regime Militar que nos assolou entre 1964 e 1985. Sou filha e sobrinha de presos políticos, meu pai e meu tio foram barbaramente torturados (meu pai, por exemplo não tem mais nenhum dos dentes da parte de cima da boca - todos arrancados com alicate em sessões de tortura) e meu tio desenvolveu aos 25 anos um envelhecimento precoce. Além disso, 99% do círculo de amigos dos meus pais também foram presos políticos. Sem falar que minha mãe escapou muitas vezes da prisão porque tinha cara de menininha (aos 25 aparentava ter 16, e era presa, mas logo era liberada). Ou seja, antes de qualquer coisa, esse é um assunto que de antemão mexe demais comigo, e que eu acho que tenho um dever cívico (e emocional) de tratar com toda atenção, respeito e carinho que o tema merece.

Sempre que posso arrumo um jeito de passear por esse período da nossa história, até porque, percebo que grande parte da população, principalmente quem não viveu aquela época, não consegue perceber a gravidade das coisas que aconteceram. Não consegue enxergar o quanto é cruel tirar a vida de alguém que não concorde com a sua postura, o quanto é sério você ver, ouvir e falar, sem poder expressar a sua verdadeira opinião. Muitas pessoas morreram, várias outras sumiram e até hoje não se sabe do corpo, isso sem falar na quantidade de heróis desconhecidos, que foram cruelmente torturados e levam uma vida “normal” e que muitos nem sabem das seqüelas e feridas que eles carregam consigo. Por isso sou sempre a primeira a me levantar e aplaudir iniciativas como essa.

Zuzu Angel conta a história da estilista brasileira homônina, que se engajou numa luta intensa contra os militares para descobrir o paradeiro do corpo de seu filho, sabidamente assassinado nos porões da ditadura. A partir daí, passa a ser vista como uma grande inimiga do regime e começa a ser perseguida, ameaçada, até que, enfim, acaba sendo morta - e só assim coloca-se um fim nessa luta insistente de uma mãe. Stuart Angel, filho de Zuzu, era um conhecido do meu pai, e militou na mesma organização que ele (o MR-8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro - uma alusão à data de morte de Che Guevara), e em muitos pontos a história dos dois se mesclam. Até porque, em Salvador (cidade natal do meu pai), muitos pensaram que ele tinha sido morto pela ditadura (porque em 1976 ele veio pra São Paulo e nunca mais voltou pra lá). Por conta disso e criaram todo um enredo para explicar essa morte (e conseqüente sumiço do corpo) do meu pai, e esta história, é na verdade a de Stuart Angel. Acabaram confundindo os dois, por terem a mesma idade, terem sido da mesma organização e ambos terem sido presos pela ditadura. Tanto é que essa confusão toda fez com que meu pai virasse nome do Grêmio Estudantil da Escola Técnica Federal da Bahia, ainda que tenhamos ido explicar que ele está vivinho da Silva. Mas vamos ao filme, porque vocês vieram aqui pra isso, não é mesmo.

Apesar de a gama de personagens desse filme ser enorme, o diretor Sérgio Rezende preferiu focar o longa em cima de dois personagens: Stuart (Daniel de Oliveira) e Zuzu (Patrícia Pillar), permeados por muitos e muitos outros e isso acaba dando a impressão de que muitos personages são pouco explorados. Mas eu entendo essa opção, ele optou centrar em dois personagens e se aprofundar na história de ambos do que passar superficialmente por todos. O elenco é de primeira e é permeado de atuações sensacionais. Mas, também com um time que começa com Daniel de Oliveira (sempre bárbaro e camaleão. Está impressionantemente igual - fisicamente - ao Stuart), Patrícia Pillar (que também está incrível), Leandra Leal (que se mostra, sem sombra de dúvida, como a melhor atriz dessa nova geração), Luana Piovani (que apesar de bem mala, tem também muito talento), Ângela Vieira, Alexandre Borges, Nelson Dantas (fenomenal, mesmo só falando duas palavras - lembrando que esse foi o último papel dele), Ângela Leal, Antônio Pitanga, Othon Bastos, Flávio Bauraqui, Caio Junqueira, entre tantos outros, só podia ter um ótimo resultado.

O enredo é tenso, principalmente pra quem, como eu, tem um certo envolvimento com a história. Além disso, eu gosto muito de filmes que não são totalmente lineares, e esse filme é assim, permeados de flash-backs, que ajudam o público a entender com clareza a dor de Zuzu, e sofrer junto com ela. É impossível assistir a esse filme e não sentir nada. Outro ponto importante a ser ressaltado, é que de todos os filmes que vi sobre esse período, esse é um dos mais fiéis à crueldade das torturas que os militantes de esquerda sofriam, e é um dos que consegue passar com mais clareza todo o horror pelo qual passaram muitos dos jovens daquele período e seus familiares.

Enfim, Cena Brasilis RECOMENDA, ainda mais se você for uma dessas pessoas que gosta de assistir a um filme pra aprender um pouco mais da nossa história, e a ter uma visão mais crítica do mundo. Eu, particularmente, gostei muito, porém esse é o tipo de filme que eu já vinha com uma impressão positiva prévia. Mas pra quem curte ver filmes apenas pra se divertir, passe longe…

Zuzu Angel
(Brasil, 2006)
90 minutos

Direção: Sérgio Rezende

Roteiro: Sérgio Rezende e Marcos Bernstein

Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Leandra Leal, Alexandre Borges, Ângela Vieira, Ângela Leal, Flávio Bauraqui, Paulo Betti,
Nélson Dantas, Regiane Alves, Fernanda de Freitas, Caio Junqueira, Aramis Trindade, Antônio Pitanga, Elke Maravilha, Ivan Cândido, Othon Bastos

Site Oficial: ZuzuAngelOFilme.com.br

Nota do CENA BRASILIS

Constado às 10:42 em Resenhas | 4 Comentários | 

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Taí um filme que deve deixar os adoradores do cinema nacional felizes. Não é sempre que se consegue reunir essa quantidade de atores tão bons numa só produção (apesar de que isso nem sempre salva…). Porém, com Árido Movie, o resultado foi muito bom. Afinal de contas, a meu ver, um filme que tem em seu elenco Giulia Gam, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, José Dumont, Guilherme Weber, José Celso Martinez, Mariana Lima, Luis Carlos Vasconcelos, Renata Sorrah, Paulo César Pereio entre tantos outros, só podia dar em boa coisa, né?!

A primeira vez que vi o filme, saí do cinema com um sorriso no rosto, extremamente satisfeita. É algo diferente de tudo que eu já foi feito por aqui, com uma linguagem que não se parece com nada. A maneira como o roteiro é conduzido, a metalinguagem… Muito legal! =D

Basicamente, o filme conta a história de Jonas (Guilherme Weber), um jornalista que apresenta a meteorologia na TV (em rede nacional) em São Paulo. Ele recebe a notícia de que seu pai foi assassinado em Vale do Rocha, cidade onde nasceu, no interior de Pernambuco. A volta de Jonas a Rocha irá lembrar-lhe muito de quem ele é, ou poderia ter sido, embora não tivesse voltado à região desde a infância.

Árido Movie apesar de ter uma temática que à primeira vista parece bem batida, não tem nada a ver com os filmes que costumamos ver sobre nordeste brasileiro. O longa se propõe mostrar a realidade do sertão nordestino. Vale do Rocha é uma cidadezinha que sofre com a seca e tem todos os elementos que poderemos encontrar nesse ambiente, como coronelismo, índios que se queixam de serem os verdadeiros e primeiros donos daquela terra, plantadores de maconha, políticos conservadores, líderes espirituais (que no fim das contas, se mostram apenas manipuladores ligados à política) e coisas que são muito comuns na realidade brasileira, até mesmo fora do sertão.

Como nada é perfeito, o longa tem dois defeitos, que não há como não citá-los. O primeiro é o sotaque: pra um filme que se passa 95% do tempo em Pernambuco, o sotaque dos atores está muito ruim. Os figurantes, por serem nativos, estão excelentes, porém os personagens principais não convencem. O Guilherme Weber pra começar, nem na China tem cara de pernambucano (por mais que eu parta de um estereótipo, se eu o trombasse na rua, nunca diria que era pernambucano). E pra quem morou no Recife até o fim da faculdade e depois se mudou pra São Paulo, é humanamente impossível que ele não tivesse pelo menos um tiquinho de sotaque. A Renata Sorrah idem… Eu acho que eles deveriam ter tido um pouquinho mais de cuidado nesse quesito. Tem horas que surgem umas tiradas ótimas, mas com um puta sotaque de paulista ou carioca. O segundo ponto é o final “aéreo”. Não é conclusivo (ainda que seja… Se é que vocês me entendem!), é mais um daqueles filmes que você sai na base do “acho que foi isso que aconteceu”. Mas tudo bem, todo o resto compensa muito.

Uma coisa que me chamou muito a atenção é que este é um filme de drama, porém, com várias piadinhas colocadas sutilmente no roteiro. É impossível não rir com o pregador que toma o ônibus junto com o Jonas, ou com a índia falando “xalxicha”, o morto fedendo e várias outras tiradas. Isso sem falar no trio de maconheiros formado por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão. Teve umas duas cenas que eles se cascam de rir, e que, com certeza, não tava no roteiro, foi uma gargalha espontânea, deliciosa e convidativa. Eles fazendo Tai Chi Chuan na plantação de maconha é soberbo. E é desnecessário falar que o Selton Mello rouba a cena.

[PAUSA] Só pra constar, eu sempre tive tara por homem magrelo (e continuo tendo). Magrelo e bem alto é o que há. Até que fui casar com o Borbs, o gordo mais lindo desse mundo (momento ÓUN!). O Selton Mello, nesse filme, que sempre teve uma froxidão única, teve de engordar muuuuito pra fazer esse personagem (ou será que foi uma fase hormonalmente não muito privilegiada?!). Ele tá uma bolinha, a cara gorda, uma pança digna de deixar o Borbs com inveja. Mas não é que ele ficou ainda mais froxo do que ele já era?! Ele tá delicioso… E eu estou descobrindo que gordinhos, além do Borbs, também são assazes (oi, Froio!). =D
[/PAUSA]

Têm tantas coisas que eu achei foda… São coisas sutis, mas que fazem o filme ser genial. O personagem Zé Elétrico (José Dumont) é o típico exemplo de sabedoria popular, um homem que quase não teve estudo, mas que é inteligente e observador, e tem uma percepção de mundo sensacional.

O filme é ótimo, sensível e ao mesmo tempo muito profundo e direto. Mostra todo o choque cultural de um homem que nasceu no interiorzão de Pernambuco, mudou-se pequeno pra capital e lá fica até concluir a faculdade, mudando-se depois pra São Paulo. E como ele se torna um estranho dentro do universo ao qual sua família e sua história pertencem, o quanto aquilo é e não é parte da sua história. E é legal porque isso faz parte da realidade de muita gente, já que não são poucos os nordestinos que mudam pra São Paulo ou pro Rio, pra se arranjar na vida, trazendo filhos pequenos que, quando voltam para aquele mundo, não têm nada a ver com nada daquilo. Nem mesmo fazem parte dele.

Em resumo, o filme é uma excelente pedida e é claro que Cena Brasilis RECOMENDA. Alugue, compre o DVD, fique de olho na programação do Canal Brasil, mas não deixe de conferir.

Árido Movie
(Brasil, 2004)
115 minutos

Direção: Lírio Ferreira

Roteiro: Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, Sérgio Oliveira e Eduardo Nunes

Elenco: Giulia Gam, Guilherme Weber, Selton Melo, Gustavo Falcão, Matheus Nachtergaele, Mariana Lima, José Dumont, Paulo César Peréio, Luiz Carlos Vasconcelos, Renata Sorrah, José Celso Martinez, Aramis Trindade, Suyane Moreira

Nota do CENA BRASILIS

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