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Badalado antes de qualquer coisa por ser o longa-metragem de estréia de Selton Mello na direção, Feliz Natal, é uma das produções nacionais mais comentadas do ano. Mas, felizmente, e isso eu digo com todas as letras e em alto e bom som, Feliz Natal está muito longe de ser apenas isso, ele não é só o filme de estréia de um dos melhores atores da nova geração encarnando o papel diretor. Taà um longa brilhante, sensÃvel, tocante, e porque não dizer, Ãmpar. Para quem é leitor do Judão das priscas eras sabe a minha dúbia relação com o Natal: ao mesmo tempo que eu adoro essa festa, reunir a famÃlia, ganhar presentes etc., eu acho que as pessoas ficam muito hipócritas essa época do ano, e que, ao mesmo tempo que estão querendo estar junto com os familiares, na verdade todo mundo tá pouco se importando com qualquer coisa que vá pouco além do seu umbigo. É época de se perfazer, fazer sacolinhas de fim de ano, doar cestas natalinas, mas, no fim das contas, estar pouco se importando com o que está acontecendo com essas pessoas no resto do ano. E. indo mais fundo, não queremos saber se alguém da nossa própria famÃlia está com problemas. O que importa é sorriso no rosto e que mais nada possa estragar essa festa linda. E o resto do mundo que se exploda. E é exatamente disso que se trata Feliz Natal, dessa necessidade de fingir que o mundo é cor-de-rosa nessa época do ano, e de estar pouco se importando com os problemas alheios. O enredo começa focado em Caio (Leonardo Medeiros), que aos 40 anos trabalha (e mora) num ferro-velho no interior, junto com sua companheira. Mas um passado de irresponsabilidade se faz sempre presente nas suas recordações, mesmo diante dessa nova vida estável. Com a proximidade do Natal ele decide amarrar todas as pontas que foram deixadas soltas em seu passado não tão distante. Essa decisão faz com que ele retorne à capital, para passar o Natal com a sua famÃlia. Ao chegar na casa de seu irmão Theo (Paulo Guarnieri - que depois de mais de dez anos afastado dessa carreira, retorna numa interpretação primorosa), é recebido pelo sobrinho Bruno (FabrÃcio Reis - excelente descoberta) que ainda não conhecia ao vivo. Lá estão sua mãe, Mércia (Darlene Glória) - que leva sua vida à base de coquetéis alcóolicos e psicotrópicos e é extremamente infeliz, vivendo como um peso morto na casa do filho; seu pai Miguel (Lúcio Mauro), que vive com uma mulher muito mais jovem, com idade de ser sua neta; e a cunhada Fabiana (Graziella Moretto) está perdida entre as frustrações de seu casamento e da vida de dona-de-casa. A presença de Caio balança um pouco as estruturas e leva cada um desses personagens a refletir, fazer um balanço de suas vidas, ao passo que Caio está disposto a deixar cair as máscaras e colocar todos os pingos nos is nas questões deixadas pra trás. Selton Mello provou que está muito acima do posto de ator-sÃmbolo de uma geração, e que é, também um brilhante diretor. Conseguiu extrair o que há de melhor em cada um dos atores do elenco. A começar pelo fato de trazer dois grandes nomes do Cinema Nacional e que tinham aberto mão de suas carreiras, como Darlene Glória e Paulo Guarnieri. Além de trazê-los de volta ao grande público, ainda o fez de forma primorosa, com duas brilhantes atuações. Outro destaque fica para o pequeno FabrÃcio Reis, uma grande descoberta, que mostrou uma sensibilidade espetacular para interpretar uma criança cheia de sonhos, dentro de uma famÃlia totalmente desestruturada. Feliz Natal com certeza vai ser um filme que marcará época. Talvez por tocar o dedo bem na ferida, não se reverta em um sucesso estrondoso de público. Mas para alguém que tenha um olhar minimanete sensÃvel e crÃtico, é impossÃvel não sair do cinema encantado com essa produção. Parabéns Selton Mello pela brilhante estréia na direção! Cena Brasilis recomenda de olhos fechados. PREMIAÇÕES- Prêmio de Melhor Diretor no Festival de PaulÃnia (2008) - Prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante dividido entre Darlene Glória e Graziella Moretto, no Festival de PaulÃnia (2008) - Menção Especial do Júri para FabrÃcio Reis no Festival de PaulÃnia (2008) - Prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival do Paraná (2008) - Prêmio Especial do Júri no Festival do Paraná (2008) - Prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Darlene Glória no Festival do Paraná (2008) - Prêmio de Melhor Som no Festival do Paraná (2008) - Prêmio de Melhor Trilha Sonora no Festival do Paraná (2008) - Prêmio de Melhor Filme no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Diretor no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Atriz para Darlene Glória no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Fotografia no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Roteiro no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Direção de Arte no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Trilha Sonora no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Som no FestCine Goiânia (2008) - Prêmio de Melhor Edição no FestCine Goiânia (2008)
Em primeiro lugar, o nome desse filme é Corpo e não O Corpo, que já foi resenhado aqui no Cena Brasilis. Eu mesma, toda vez que ia falar do filme, colocava, erroneamente, o artigo na frente, mas é apenas o substantivo mesmo. =D Corpo conta a história de um corpo (dã!) que é encontrado junto com centenas de ossadas descobertas em uma vala clandestina, que ocultava desaparecidos polÃticos no perÃodo da ditadura militar brasileira. Um dos médicos legistas, Arthur (vivido por Leonardo Medeiros) fica intrigado com o fato de aquele corpo estar intacto no meio de tantas ossadas. Já a chefe de departamento (Chris Couto) diz que a prioridade são as ossadas e pra deixar aquele corpo pra lá… Mas para ele não é tão simples assim. Intrigado, Arthur passa a pesquisar a quem poderia pertencer aquele corpo em arquivos do Dops, na lista telefônica, até que chega a um nome e passa a investigar o corpo como se fosse dessa pessoa. É dessa maneira que ele chega até Fernanda (Rejane Arruda), filha de Tereza, que contesta o fato de aquele ser o corpo de sua mãe. E a partir daà se desenrolam todos os conflitos da trama, passando por investigações sobre o passado de Tereza, falsidade ideológica e por aà vai, para, no fim das contas, ele não conseguir descobrir de quem o corpo é de fato (ele não, mas o espectador descobre!). O filme é não linear, e deixa a gente um tanto quanto atordoado com todo o zig-zag da trama. Com um elenco que está muito bem nos respectivos papéis e uma trama cheia de mistérios e suposições, Corpo é um filme que até vai, mas está longe de ser uma das grandes obras do Cinema Nacional. Nem de longe ele é um filme ruim, como diria Luciano Huck, ele é “bem feitinho”, mas tem uma trama que, a primeira vista, parece ser sedutora, mas que não consegue prender o espectador. Cena Brasilis ATÉ QUE RECOMENDA, pois é um filme que vale a pena conferir, mas isso se você já tiver assistido a Crônicas de Nárnia - PrÃncipe Caspian e outros filmes bem legais que estão passando nos cinemas mais próximos da sua casa.
Sou uma verdadeira amante daquilo que é produzido aqui no Brasil, musical, literária e cinematograficamente falando. Até porque, se eu não gostasse, não teria um blog como esse. Há cerca de um ano, quando assisti a O Cheiro do Ralo, sai da sala de cinema quase sem ar devido a originalidade e densidade do filme. Primeira coisa que pensei: não me restam dúvidas, o Selton Mello é mesmo foda, seja lá o que tiver pela frente, ele manda muito bem… Segunda coisa que me passou pela cabeça: acho que definitivamente, a produção nacional abriu os olhos e resolveu parar de produzir filmes só sobre a probreza e a violência, ambos com uma boa carga de glamorização. Haja visto Central do Brasil, Carandiru e Cidade de Deus — excelentes filmes, mas todos com esse mesmo tipo de apelo. Ou então com alguma ligação com literatura nordestina, caso de O Auto da Compadecida e similares, ou mesmo as comédias-românticas “globo-filmes”. Parece que uma abertura de leque definitivamente estava se impondo. A primeira vez que senti isso, de verdade, foi em Ãrido Movie, também estrelado por Selton Mello, onde abriu-se um novo caminho e vimos um filme que nada tem a ver com esse lance de “ode à pobreza e à violência”. E com O Cheiro do Ralo é a mesma coisa. É impossÃvel não perceber a crÃtica moral e social que há nessa trama, mas de uma maneira muito diferente de tudo que já se viu. Partimos de Lourenço (Selton Mello), um homem infeliz, amargo, solitário, ressentido, que é dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele vai desenvolvendo um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Os preços são sempre negociados muito mais pelo juÃzo de valor de Lourenço, do que pelo que o objeto em si vale. Em tempo, Lourenço é o único personagem do filme que tem nome próprio, ele se refere a todos por substantivos comuns, o que mostra a indiferença que sente pelos outros. A partir de então ele passa a ver as pessoas como se estivessem a venda e achar que cada uma delas tem um preço. Esse é, de longe, o personagem mais maduro e complexo que Selton Mello já interpretou em toda a sua carreira e, como já era de se esperar, se saiu muito bem nessa empreitada. No começo ele se incomoda muito com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe no banheiro de seu escritório, e mais ainda com o fato de as pessoas pensarem que o odor vinha dele, o que lhe levava a explicar a todos que o cheiro era do encanamento. Depois de um de seus clientes dizer que o cheiro, na verdade, vinha dele, uma vez que apenas ele usava aquele banheiro e que toda a merda contida ali vinha de dentro dele, pouco a pouco, Lourenço passa a ter uma relação diferente com aquele odor, que acaba tornando-se um vÃcio, do qual ele não consegue mais viver sem e a partir do qual ele passa a conduzir toda a sua vida, e onde faz questão de estar nos seus últimos instantes. Com um elenco numeroso e de peso, seria difÃcil um projeto desses não dar certo. O filme conta com nomes como Flávio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Fabiana Guglielmetti, André Frateschi (que fazia o namoradinho corno da Grazi na novela), Silvia Lourenço, Paula Braun, Martha Neola, Milhem Cortaz, Suzana Alves, a voz do Paulo César Peréio, além do Tobias da Vai-Vai e do próprio autor do livro, Lourenço Mutarelli e por aà vai. Todos eles encararam esse projeto sem nenhum tipo de retorno financeiro, e a princÃpio trabalharam de graça, já que o filme teve um orçamento de pÃfios R$300.000 (orçado originalmente em R$ 2,5 milhões, acabou sendo rodado com apenas R$ 315 mil, reunidos entre sócios privados e produtores executivos). Eles receberiam alguma coisa de acordo com o desempenho do longa nos cinemas. E de cara já tenho que tirar meu chapéu, pois essa foi uma tacada de mestre do diretor, Heitor Dhalia, que conseguiu unir um bom roteiro com um excelente elenco e a partir disso trazer uma reflexão sobre como a lógica do capitalismo (que nos faz escravos do dinheiro) acaba por nos transformar em pessoas frias e gananciosas. O legal é que, embora seja uma crÃtica social, o filme também é uma comédia repleta de humor-negro e de tudo aquilo que nós consideramos politicamente incorreto. E por tudo isso não restam nem dúvidas… É claro que CENA BRASILIS RECOMENDA!, e muito. Pode assistir com gosto, porque você não vai se arrepender. Prêmios e Indicações- Prêmio de Melhor Filme - longa-metragem de ficção (júri popular) - Festival do Rio 2006
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