Brasil, mostra a sua cara…
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Quando assisto a filmes como Proibido Proibir, e isso é uma regra geral, eu me sinto muito mal depois que tudo acaba. Porque, embora eu seja uma pessoa extremamente ciente das mazelas do mundo, das injustiças que acontecem por aí e tenha a plena consciência de que faço tudo que está a meu alcance pra mudar aquilo com que eu não concordo, eu fico me sentindo uma inútil, impotente, porque parece que tá tudo na minha cara e eu não movo uma palha pra mudar as coisas.

A temática desse filme é aquela mais que manjada no Cinema Nacional, e trata da pobreza e das injustiças sociais. E eu não acho isso ruim, muito pelo contrário, até acho isso bem legal, porque num país como o nosso, onde as pessoas não tem acesso a informação “refinada” — ou por falta de oportunidade, ou por falta de interesse — acho legal quando a crueza da realidade é abordada em filmes ou em novelas. Porém, eu acho que não precisa ser sempre assim, não há nenhuma necessidade de se fazer apenas filme sobre problemas sociais, sejam eles de qualquer ordem. É legal, é muito válido, mas acho que o cinema pode ir muito além de tudo isso.

Proibido Proibir conta a história de dois amigos, Leon (Alexandre Rodrigues) e Paulo (Caio Blat) , que moram juntos, para dividir o aluguel de uma casinha perto da faculdade. Leon é carioca, mas morava em Brasília e é estudante de Ciências Sociais, já Paulo, é de São Paulo e estuda Medicina. Na própria universidade, Leon conhece Letícia (Maria Flor), estudante de Arquitetura, e os dois começam a namorar.

Com o tempo, Paulo acaba se apaixonando por Letícia e daí desenrola-se o dilema já manjado do triângulo amoroso com a namorada de amigo. Mas o cerne da questão não é esse, e sim a confusão em que se envolvem quando Paulo decide ajudar Rosalina (Edyr Duque) - paciente terminal do hospital onde ele faz residência - a ter contato com seus filhos. Quando entram no universo onde Rosalina vive, eles se deparam com um mundo totalmente diferente, cheio de preconceitos sociais e raciais, justiçamento, corrupção, violência e muitos outros problemas que, embora conheçam muito bem na teoria, não tinham noção que eram tão cruéis na prática.

Os três estão ótimos em seus papéis, autênticos bichos-grilo, com visual e comportamento bem FFLCH (pra quem não conhece o termo, a sigla lê-se “fefeléche” e é o nome pelo qual é conhecida a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e que aqui em São Paulo acabou virando sinônimo de uma pessoa meio-hippie, militante, idealista e por aí vai). Pelo jeito, os estudantes dessas áreas são iguais no país inteiro. A casa que os meninos dividem é exatamente igual ao apartamento que uma colega minha, da época em que eu estudava História, morava - estantes meio tronchas, repletas de livros cabeças (tipo Marx, Foucault) e CDs de MPB ou rock dos anos 60/70 do chão até o teto, e cheia de pôsteres de grandes obras-de-arte ou de fotografias de ídolos da esquerda.

Proibido Proibir é um filme simples, sem muitas firulas, totalmente gravado em locações, sem nenhuma cena feita em estúdio (por uma questão financeira). Todo rodado nas periferias e longe dos cartões-postais do Rio de Janeiro, o diretor, Jorge Durán, acabou explorando um lado da Cidade Maravilhosa que muitos dos próprios cariocas desconhecem: a periferia, o subúrbio, a Zona Norte. Pois mesmo os filmes que tratam do assunto são mais do mesmo, e não mostram as favelas como são de fato. O filme foi rodado todo em Vila da Penha, na cidade de Mesquita (que fica na Baixada Fluminense) e no Fundão (local como onde fica a Universidade Federal do Rio de Janeiro — principal palco do longa). Durán conseguiu um feito, pois tinha um orçamento muito pequeno, R$ 1,2 milhão, mas ainda assim foi extremamente premiado. Até porque, um bom elenco aliado a um bom diretor acaba conseguindo tirar leite de pedra. Com uma temática interessante, ferina, embora lugar-comum, Proibido Proibir vem conquistando seu espaço, através dos prêmios nacionais e internacionais que recebeu. E é claro que Cena Brasilis RECOMENDA sim, e já se prepare pra ficar arrasado no fim do filme.

Premiações e Indicações


- Prêmio de Melhor Filme, no Festival de Biarritz 2006.
- Prêmio Especial do Júri, no Festival de Havana 2006.
- Prêmio de Melhor Filme, no 18º Festival de Viña del Mar.
- Prêmio de Melhor Direção, no 18º Festival de Viña del Mar.
- Prêmio de Melhor Ator para Caio Blat, no 10º Festival de Santa Maria da Feira (Portugal)
- Prêmio de Melhor Diretor, no VALDIFF - Festival Internacional de Cine de Valdivia 2006 (Chile).
- Prêmio Cine En Construcción, no Festival de San Sebastián, para finalizar o filme na Espanha.
- Prêmio SIGNIS 2005, para ajudar na finalização na Espanha.
- Prêmio Margarida de Prata 2006 - Conferido pela CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil)
- Prêmio de Melhor Diretor, no Festival de Huelva 2006 (Espanha)
- Prêmio de Melhor Roteiro, no Festival de Huelva 2006 (Espanha)
- Lentes de Cristal de Melhor Filme, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami
- Lentes de Cristal de Melhor Diretor, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami
- Lentes de Cristal de Melhor Ator para Caio Blat, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami
- Prêmio de Melhor Filme de Ficção, no 2º Festcine Goiânia
- Prêmio de Melhor Ator para Alexandre Rodrigues, no 2º Festcine Goiânia
- Prêmio de Melhor Montagem para Pedro Durán, no 2º Festcine Goiânia
- Menção Especial do Júri, no Festival de Quito 2006

Proibido Proibir
(Brasil/Chile, 2006)
100 minutos

Direção: Jorge Durán

Roteiro: Jorge Durán e Dani Patarra, com colaboração de Gustavo Bohrer e Eduardo Durán, baseado em argumento de Jorge Durán

Elenco: Caio Blat, Maria Flor, Alexandre Rodrigues, Edyr Duqui, Adriano de Jesus, Luciano Vidigal, Raquel Pedras

Site Oficial: ProibidoProibir.com

Nota do CENA BRASILIS

uv