Brasil, mostra a sua cara…
Constado às 10:42 em Resenhas | 3 Comentários | 

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Taí um filme que deve deixar os adoradores do cinema nacional felizes. Não é sempre que se consegue reunir essa quantidade de atores tão bons numa só produção (apesar de que isso nem sempre salva…). Porém, com Árido Movie, o resultado foi muito bom. Afinal de contas, a meu ver, um filme que tem em seu elenco Giulia Gam, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, José Dumont, Guilherme Weber, José Celso Martinez, Mariana Lima, Luis Carlos Vasconcelos, Renata Sorrah, Paulo César Pereio entre tantos outros, só podia dar em boa coisa, né?!

A primeira vez que vi o filme, saí do cinema com um sorriso no rosto, extremamente satisfeita. É algo diferente de tudo que eu já foi feito por aqui, com uma linguagem que não se parece com nada. A maneira como o roteiro é conduzido, a metalinguagem… Muito legal! =D

Basicamente, o filme conta a história de Jonas (Guilherme Weber), um jornalista que apresenta a meteorologia na TV (em rede nacional) em São Paulo. Ele recebe a notícia de que seu pai foi assassinado em Vale do Rocha, cidade onde nasceu, no interior de Pernambuco. A volta de Jonas a Rocha irá lembrar-lhe muito de quem ele é, ou poderia ter sido, embora não tivesse voltado à região desde a infância.

Árido Movie apesar de ter uma temática que à primeira vista parece bem batida, não tem nada a ver com os filmes que costumamos ver sobre nordeste brasileiro. O longa se propõe mostrar a realidade do sertão nordestino. Vale do Rocha é uma cidadezinha que sofre com a seca e tem todos os elementos que poderemos encontrar nesse ambiente, como coronelismo, índios que se queixam de serem os verdadeiros e primeiros donos daquela terra, plantadores de maconha, políticos conservadores, líderes espirituais (que no fim das contas, se mostram apenas manipuladores ligados à política) e coisas que são muito comuns na realidade brasileira, até mesmo fora do sertão.

Como nada é perfeito, o longa tem dois defeitos, que não há como não citá-los. O primeiro é o sotaque: pra um filme que se passa 95% do tempo em Pernambuco, o sotaque dos atores está muito ruim. Os figurantes, por serem nativos, estão excelentes, porém os personagens principais não convencem. O Guilherme Weber pra começar, nem na China tem cara de pernambucano (por mais que eu parta de um estereótipo, se eu o trombasse na rua, nunca diria que era pernambucano). E pra quem morou no Recife até o fim da faculdade e depois se mudou pra São Paulo, é humanamente impossível que ele não tivesse pelo menos um tiquinho de sotaque. A Renata Sorrah idem… Eu acho que eles deveriam ter tido um pouquinho mais de cuidado nesse quesito. Tem horas que surgem umas tiradas ótimas, mas com um puta sotaque de paulista ou carioca. O segundo ponto é o final “aéreo”. Não é conclusivo (ainda que seja… Se é que vocês me entendem!), é mais um daqueles filmes que você sai na base do “acho que foi isso que aconteceu”. Mas tudo bem, todo o resto compensa muito.

Uma coisa que me chamou muito a atenção é que este é um filme de drama, porém, com várias piadinhas colocadas sutilmente no roteiro. É impossível não rir com o pregador que toma o ônibus junto com o Jonas, ou com a índia falando “xalxicha”, o morto fedendo e várias outras tiradas. Isso sem falar no trio de maconheiros formado por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão. Teve umas duas cenas que eles se cascam de rir, e que, com certeza, não tava no roteiro, foi uma gargalha espontânea, deliciosa e convidativa. Eles fazendo Tai Chi Chuan na plantação de maconha é soberbo. E é desnecessário falar que o Selton Mello rouba a cena.

[PAUSA] Só pra constar, eu sempre tive tara por homem magrelo (e continuo tendo). Magrelo e bem alto é o que há. Até que fui casar com o Borbs, o gordo mais lindo desse mundo (momento ÓUN!). O Selton Mello, nesse filme, que sempre teve uma froxidão única, teve de engordar muuuuito pra fazer esse personagem (ou será que foi uma fase hormonalmente não muito privilegiada?!). Ele tá uma bolinha, a cara gorda, uma pança digna de deixar o Borbs com inveja. Mas não é que ele ficou ainda mais froxo do que ele já era?! Ele tá delicioso… E eu estou descobrindo que gordinhos, além do Borbs, também são assazes (oi, Froio!). =D
[/PAUSA]

Têm tantas coisas que eu achei foda… São coisas sutis, mas que fazem o filme ser genial. O personagem Zé Elétrico (José Dumont) é o típico exemplo de sabedoria popular, um homem que quase não teve estudo, mas que é inteligente e observador, e tem uma percepção de mundo sensacional.

O filme é ótimo, sensível e ao mesmo tempo muito profundo e direto. Mostra todo o choque cultural de um homem que nasceu no interiorzão de Pernambuco, mudou-se pequeno pra capital e lá fica até concluir a faculdade, mudando-se depois pra São Paulo. E como ele se torna um estranho dentro do universo ao qual sua família e sua história pertencem, o quanto aquilo é e não é parte da sua história. E é legal porque isso faz parte da realidade de muita gente, já que não são poucos os nordestinos que mudam pra São Paulo ou pro Rio, pra se arranjar na vida, trazendo filhos pequenos que, quando voltam para aquele mundo, não têm nada a ver com nada daquilo. Nem mesmo fazem parte dele.

Em resumo, o filme é uma excelente pedida e é claro que Cena Brasilis RECOMENDA. Alugue, compre o DVD, fique de olho na programação do Canal Brasil, mas não deixe de conferir.

Árido Movie
(Brasil, 2004)
115 minutos

Direção: Lírio Ferreira

Roteiro: Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, Sérgio Oliveira e Eduardo Nunes

Elenco: Giulia Gam, Guilherme Weber, Selton Melo, Gustavo Falcão, Matheus Nachtergaele, Mariana Lima, José Dumont, Paulo César Peréio, Luiz Carlos Vasconcelos, Renata Sorrah, José Celso Martinez, Aramis Trindade, Suyane Moreira

Nota do CENA BRASILIS

Constado às 08:46 em Resenhas | 01 Comentário | 

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Baseado na história de Miguilim, do livro Campo Geral, de Guimarães Rosa, Mutum marca a estréia da brilhante Sandra Kogut como diretora de filmes de ficção e consegue figurar entre os filmes mais sensíveis já produzidos nesse país. Infelizmente, na maratona que foram as nossas duas semanas de cobertura do Festival do Rio de 2007, esse foi um filme que acabei não tendo a oportunidade de ver lá, embora sua sinopse me agradasse muito, e depois que acabou sendo aclamado pela crítica e vencendo o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Oficial, fiquei ainda mais aflita por não ter conseguido ver o longa. Mas, assim que cheguei em São Paulo, abri meu e-mail e tava lá, o convite para a cabine do mesmo. Ufa! Eu estava salva da minha auto-condenação… =D

Antes de começar a rodar Mutum, Sandra Kogut fez teste com aproximadamete mil crianças para a seleção dos intérpretes-mirins do filme. Dessas quase mil, sobraram 25, que, posteriormente, viraram apenas 7. Numa sacada extremamente inteligente e pedagógica, para facilitar o seu próprio trabalho e o processo de criação desses pequenos atores, Sandra acabou mudando o nome de todos os personagens-mirins, e deixando de lado a fidelidade à obra de Guimarães Rosa, acabou chamando-os pelos nomes dos próprios atores. Outra curiosidade é que como no caso de Cidade de Deus, a imensa maioria do elenco está fazendo o seu primeiro papel. No caso dos pequenos, todos os atores não eram profissionais, e foram escolhidos na própria região das filmagens (nas chapadas de Minas Gerais) - por isso a sacada da mudança dos nomes. Pra se ter uma noção, a maior parte das crianças e dos vaqueiros que atuam no filme nunca tinham ido ao cinema.

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No elenco principal, de conhecido temos apenas o sensacional João Miguel, que faz o papel do pai do protagonista. Mas o incrível nesse filme não é nem a atuação dele no papel do pai (que, obviamente, está maravilhosa), e sim o elenco como um todo, repleto de excelentes atores (principalmente as crianças). O longa conta a história de Thiago (interpretado pelo sensacional Thiago da Silva Mariz), e a sua percepção de mundo e do local que vive. Diferente da maior parte dos filmes que já vi, nós, espectadores, vemos apenas as coisas e cenas que ele já viu e viveu — não há nenhuma cena no filme em que Thiago não esteja presente no fato - ou ele é mostrado pela câmera para o entendermos naquele contexto, ou vemos aquilo que ele está vendo (através dos olhos do menino); não existe o recurso de uma cena alheia a ele pra explicar melhor a história, é sempre ele e apenas ele. Thiago é um menino de 10 anos, que vive no interior de Minas Gerais, isolado do resto do mundo, em Mutum. Lá, ele vive com seus pais, a avó, um tio, uma espécie de empregada/amiga da família e seus quatro irmãos, com ênfase para Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso) que além de irmão é também seu melhor amigo. E aí a trama se desenrola dentro dos conflitos dessa família, o pai que é seco e violento, a mãe carinhosa, um suposto adultério, morte, dor, abandono, injustiça, tudo isso sob o olhar de uma criança que vive no meio do nada.

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Lindo de assistir, sensível, tocante e mais uma infinidade de adjetivos louvatórios (?! o_O) podem definir Mutum, o que torna claro o porquê de este ter sido eleito pelo Júri Oficial como o Melhor Filme do Festival do Rio 2007. Diferentemente de Estômago que foi o vencedor do Júri Popular, unânime, apreciado por homens, mulheres, cults, pipoqueiros, adolescentes e idosos, Mutum é um filme mais lírico, mais emotivo, que vai agradar aos verdadeiros amantes de cinema, seja ele nacional, europeu, asiático ou o velho e bom norte-americano. Um filme para quem ama a experiência cinematográfica em si.

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Premiações e Indicações


- Prêmio Redentor de Melhor Filme pelo Júri Oficial no Festival do Rio de 2007
- Filme de encerramento da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2007

Mutum
(Brasil, 2007)
95 minutos

Direção: Sandra Kogut

Roteiro: Ana Luíza Martins Costa e Sandra Kogut, baseado em livro de João Guimarães Rosa

Elenco: Thiago da Silva Mariz, Wallison Felipe Leal Barroso, João Miguel, Izadora Fernandes, Rômulo Braga, Paula Regina Sampaio da Silva, Maria das Graças Leal de Macedo, Maria Juliana Souza de Oliveira, Brenda Luana Rodrigues Lima, João Vitor Leal Barroso, Pedro Trovão, Luiz Carlos Vasconcelos, Flávio Bauraqui, Raimundo Nonato Soares da Silva, Onilo José de Souza, Wellington Fernando de Aguiar, Eduardo da Luz Moreira

Site Oficial: MutumOFilme.com.br

Nota do CENA BRASILIS

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