Brasil, mostra a sua cara…
Constado às 04:25 em Festival, Notícias, promoção | Nenhum comentário | 

Prestem bem atenção, essa promoção dura hoje, apenas hoje, às 17h, quando eu vou publicar o resultado e entrar em contato com os vencedores da promoção.

Quem lê sempre o Cena Brasilis, já leu a respeito de Ouro Negro, filme da diretora Isa Albuquerque e que agora está sendo exibido na Mostra de Cinema aqui em São Paulo. O longa já foi exibido em duas sessões, e hoje será a última, às 19h20, na Cinemateca - Sala Petrobras.

E, como essa é a última chance de quem quer conferir esse longa antes do lançamento nacional, nós aqui do Cena Brasilis/Judão estamos sorteando pares de ingresso, pra quem estiver a fim de assistir o filme.

Pra quem não sabe do que se trata, Ouro Negro é um longa-metragem de ficção, baseado em fatos reais, e conta a dos pioneiros da indústria petroleira no Brasil. E tem em seu elenco Danton Mello, Thiago Fragoso, Maria Ribeiro, Luísa Curvo, Chico Diaz, Daniel Dantas, Odilon Wagner, Mallu Galli, além de muitos outros.

Agora para ganhar esse par de ingressos é só clicar aqui e dizer porque você merece assistir a Ouro Negro na minha nada ilustre e excelente companhia. As quatro melhores respostas vão chupar um drops de anis no escurinho do cinema hoje à noite… =]

Lembrando que só valem os e-mails recebidos até às 17h, e não se esqueça de colocar um telefone de contato, que não será divulgado e nem utilizado para nenhum outro fim.

Constado às 20:47 em Entrevistas, Especial | 8 Comentários | 

destaque-entrevista-isaok.jpg

Recentemente os mais assíduos leitores e telespectadores de sites e programas de fofoca, ouviram falar do filme Ouro Negro, porém, sem ter mais o que fazer (como sempre), esses tipo de veículos trouxeram o nome do longa até nós não pelos seus méritos como produção nacional e sim por conta de uma fofoca mentirosa, em que diziam que os atores Danton Mello e Luiza Curvo, que atuam no filme, estavam tendo um affair (tudo por conta de fotos tiradas num barzinho onde todo o pessoal do filme estava reunido celebrando o lançamento do filme, em que os dois aparecem abraçados) - fato que já deu muito buchicho para a vida pessoal da atriz, que é casada, e exigiu uma retratação pública da notícia. Mas, como isso aqui não é Fofoca e Bolachas, é claro que eu não ficaria falando de um fake-affair entre dois dos protagonistas de Ouro Negro, o motivo que me traz aqui é muito mais nobre.

Nós do Judão conversamos um pouquinho com a diretora do longa, Isa Albuquerque e falamos sobre sua carreira e sobre sua nova produção, que deve estar chegando aos cinemas de todo o Brasil em breve. Confira o que rolou nesse nosso bate-papo com a diretora e saiba um pouco mais sobre sua vida e seus projetos.

E pra quem é de Pernambuco e imediações, Ouro Negro será exibido no CinePE, no dia 02 de Maio em primeiríssima mão. Não deixem de conferir! =D

isa-so-entrevistaok.jpg

Judão -Você é maranhense e lá mesmo construiu uma carreira sólida e bem sucedida. O que a levou a sair de São Luiz e se mudar para o Rio de Janeiro?

Isa - Em São Luís do Maranhão eu fazia jornalismo televisivo e realizei alguns documentários premiados em festivais. O sonho de fazer cinema me acompanhava desde muito criança, quando meu pai teve uma sala de projeção em Lago do Junco (sertão do Maranhão), onde nasci e vivi até mudar para capital, com minha família, aos seis anos. Após dirigir o Núcleo de Jornalismo da TVE por três anos, saí de São Luís em 1991, em busca de novos horizontes profissionais. Precisava aprender a escrever roteiro, a dirigir filmes. No Maranhão dos anos 80, mal conseguíamos assistir a um filme de arte e a produção cinematográfica consistia em alguns curtas em super 8. Nossa mais pulsante janela para o mundo audiovisual era o Festival Guarnicê, que se encontra atualmente em sua 30ª. edição, onde tive os meus primeiros documentários para TV premiados e onde comecei a acreditar que o meu projeto de vida era possível.

Em 1991, mudei-me para o Rio, com toda a família: estava casada, dois filhos pequenos, mas não tive dúvidas de que precisava começar tudo de novo. A mudança de rumo foi aos poucos se consolidando. Conhecer pessoas, criar histórias, desenvolver projetos, fundar uma produtora e captar recursos. O meu sonho custa muito caro e o tempo gasto na realização do primeiro filme, as dificuldades de realizá-lo, levou todo o meu grupo de criação de histórias a buscar outros caminhos: a Duba Elia está na Globo, a Diana Nogueira, na PUC, a Ana Lúcia Andrade foi para o exterior. Eu não desisti porque sempre quis fazer cinema. O que me levou a concretizar o meu sonho foi a fé inabalável de que tudo iria dar certo.

Judão -Você também tem trabalhos literários publicados. Conte-nos um pouco dessa sua vertente. Além de Histórias do Olhar você tem mais algum livro publicado? Pretende escrever outras obras?

Isa - Estou tentando publicar o livro-roteiro de Ouro Negro, completamente ilustrado com as fotos de still, contendo os comentários de todo o processo da produção, através da Editora Escrituras. O projeto foi inscrito na lei Rouanet e estou em busca de patrocínio.

O primeiro livro chama-se Histórias do Olhar, composto por contos escritos por 26 autores, roteiristas de cinema e TV, com o mesmo conceito do filme. Foi publicado em 2003, pela Editora Escrituras, como produto paralelo ao filme. Ainda pretendo transformá-lo numa série televisiva.

Judão - Um de seus projetos mais recentes é o longa Ouro Negro, onde você assina a direção, produção e também é uma das roteiristas. De onde surgiu a idéia e o interesse em fazer um filme sobre o início da exploração do petróleo no Brasil? Qual fase do processo o filme está e qual a previsão de lançamento?

Isa - O lançamento de Ouro Negro irá ocorrer no mesmo ano em que Sangue Negro, a produção americana vencedora de vários Oscars, chegou aos cinemas com o mesmo assunto. É importante constatar a atualidade e a longevidade do tema, já que ambos os filmes são montados em tramas sobre a cobiça humana. Mas nós abordamos a história do petróleo através de um viés político e Sangue Negro, ou There will be Blood (Haverá Sangue - título original em inglês) detém-se sobre a questão ética e moral do nascente capitalismo selvagem americano, personificado em Daniel Day-Lewis.

A perfuração do poço do Lobato, no Recôncavo baiano, ocorreu entre 1933 e 1934. Mas as pesquisas de petróleo no Brasil começaram a ocorrer há mais de cem anos, em diversas partes do país, com todos os ingredientes de intriga e espionagem que sempre marcaram a trajetória do Ouro Negro. Por uma questão de síntese, escolhemos narrar a história em 1918 e 1940, seguindo os passos do pioneiro alemão José Bach, radicado em Alagoas desde 1904, e morto em 1918 em circunstâncias misteriosas, após desenvolver estudos sobre o potencial petrolífero da Bacia de Carmona, onde estão assentados os Estados de Alagoas e Sergipe. A sugestão partiu de Ana Lúcia Andrade, uma das integrantes do meu antigo grupo de roteiro. Começamos a pesquisar sobre o tema e à medida em que nos aprofundávamos, encontrávamos um universo de contradições e mortes mal explicadas. Escolhemos desenvolver um roteiro de ficção livremente inspirado em fatos reais.

O petróleo é um dos recursos naturais mais importantes do mundo. Sua descoberta costuma ser, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição, já que atrai os mais competitivos grupos empresariais internacionais. Um dia as reservas irão acabar, mas enquanto descobrirmos os supercampos, como o Tupi, e todos precisarem deste produto, precisamos tratá-lo como reserva estratégica do país. A riqueza advinda desse extraordinário recurso natural deve ser revertida em benefícios sociais e culturais para o Brasil. E não para aumentar o poder dos trustes internacionais a custa do nosso petróleo. É bom lembrar que, recentemente, informações sigilosas da Petrobrás foram roubadas na Bacia de Campos, às vésperas de um leilão de áreas petrolíferas. O Governo fala em restringir as licenças de prospecção pelas companhias privadas. Creio que o Brasil precise agora de uma outra campanha do tipo “O Petróleo é Nosso”. Não podemos entregar as nossas reservas ao capital estrangeiro.

ouronegrorecifeentrevista.jpg

Judão - Quanto tempo de pesquisa foi consumido para montar esse roteiro?

Isa - A idéia germinal surgiu em 1994. Começamos a pesquisar por conta própria, cada co-roteirista levantando a bibliografia sobre o tema. Uma delas, a Duba Elia, é historiadora e nos ajudou a organizar os fatos históricos. Aos poucos, fomo criando uma trama para ser vivida por uma personagem fictícia, o João Martins, interpretado por Danton Mello – que sintetiza a trajetória de pelo menos seis pioneiros. Escrevemos, juntas, os quatro primeiros tratamentos, sob a orientação do mestre Luís Carlos Maciel. Depois que o grupo se desfez, continuei trabalhando no aperfeiçoamento do roteiro, às vezes, com a parceria de Duba Elia que a essa altura já era contratada da Rede Globo. De 1997 a 2005, desenvolvemos cerca de 15 tratamentos. A costura entre os fatos históricos e a trama fictícia foi refinada com o auxílio da pesquisadora Rosa Almeida. Como eu tive que lidar com muitas informações técnicas, recorri a uma consultoria especializada indicada pela diretoria de comunicação da Petrobrás: o ex-dirigente da unidade de Alagoas e Sergipe, Eduardo Pereira, concordou em analisar as informações técnicas. O último tratamento dramático foi realizado sob a consultoria do experiente roteirista Leopoldo Serran (O Quatrilho). Mas o roteiro continuou sofrendo pequenas mudanças, inclusive durante a montagem. Depois de muito tempo envolvida nos diversos níveis de criação e produção, foi importante contar com o olhar distanciado dos demais profissionais contratados. De todos os processos de elaboração de um filme, o roteiro é um dos mais complexos. O tratamento definitivo de Ouro Negro ficou bem diferente das primeiras versões.

Judão - Além da parte de pesquisa, uma outra parte muito complexa do processo de criação de um roteiro é compor as histórias humanas que servirão de pano de fundo para o enredo principal. No caso de Ouro Negro, como foi esse processo?

Isa - Jorge Luís Borges dizia que só existem 4 histórias possíveis: o amor entre duas pessoas, o amor entre três pessoas, uma viagem e a conquista do poder. Usamos o clássico recurso do triângulo amoroso para desenvolver o lado humano das personagens principais. E ao acrescentar, livremente, uma vida privada conturbada, na composição da trajetória das personagens reais, outros nomes foram adotados, pois já não eram mais aqueles homens e mulheres da história que estavam ali em nosso roteiro. Um roteirista é todas as personagens. Como éramos quatro, tínhamos muitas referências pessoais para pesquisar entre as nossas próprias experiências. Todo filme tem muito de auto-revelação.

Judão - Na criação dos personagens, vocês foram montando a personagem já imaginando o ator ou primeiro concluíram o roteiro para só depois pensar no casting?

Isa - A realização do filme aconteceu muitos anos depois da fase de criação. Deixei, portanto, para pensar no elenco somente na pré-produção, quando tive certeza de que iria filmar. O elenco foi escolhido em sessões de testes, entre os melhores atores jovens do momento. Tenho muito orgulho do elenco de Ouro Negro que tem o Danton Mello como protagonista, Luísa Curvo, Thiago Fragoso, Maria Ribeiro, Odilon Wagner, Chico Diaz, Daniel Dantas, Mallu Galli e Felipe Kannemberg, em papéis de destaque.

elencoouro-entrevistaok.jpg

Judão - Por ser um filme de época, há também a ambientação e caracterização do contexto retratado, que é uma parte complexa e cara. Vocês usaram muitas locações para o filme? Como foi esse processo de caracterização de época?

Isa - Usamos, exatamente, 48 locações. Seria muito mais caro elaborar os cenários em estúdio e o perfil financeiro do filme levou-nos a optar por locações próximas ao Rio de Janeiro, para caracterizar os quatro Estados onde as ações se desenrolam: Alagoas, Rio de Janeiro, Acre e Bahia. Embora 60% do filme se passe em Alagoas, montamos o campo de petróleo em um coqueiral pertencente à Fundação Darcy Ribeiro, localizado em Maricá, há 40 minutos do Rio de Janeiro, e graças ao apoio de Tatiana Memória, sua presidente, trouxemos Alagoas para o Rio. A direção de arte coube ao experiente Alexandre Meyer, uma garantia de qualidade à reconstituição dos ambientes. Solicitei a Alexandre que se concentrasse na elaboração de dois cenários básicos: o campo de prospecção de petróleo e a usina de destilação do xisto pirobetuminoso. O trabalho da arte foi facilitado por uma pesquisa realizada anteriormente: um levantamento de imagens fotográficas e vídeos antigos resgatados de bibliotecas e do Arquivo Nacional. Esse material reduziu, sensivelmente, o tempo de trabalho da equipe de arte e figurino. Quando se faz um filme de época é importante saber que todos os objetos de cena serão construídos ou alugados. Não basta apontar a câmera em qualquer direção, como em um filme contemporâneo. Cada detalhe é importante para criar a ilusão do passado, no presente. O figurino, a cargo de Rosângela Nascimento, elaborado sob medida, também foi inspirado nos filmes e arquivos fotográficos. Assim, tivemos uma reconstituição de cenários e de figurinos, genuinamente brasileira.

Judão - Quanto tempo duraram as filmagens?

Isa - Quando se trabalha com um filme grandioso, com um orçamento pequeno, é preciso controlar o tempo de execução do projeto, com muito rigor. Nossa estratégia foi dedicar mais semanas à preparação, quando a equipe é menor e o planejamento é maior, e reduzir, ao máximo, o período de filmagem, quando o set passa a comportar até 150 profissionais, que precisam ser alimentados e remunerados. Os equipamentos são alugados por semana, alguns por diária. Tudo precisa estar sob controle e a solução óbvia consiste em reduzir o número de semanas de filmagem. Portanto, antecipei ao máximo a preparação leve. Tivemos cerca de 10 semanas de preparação dura e seis semanas de filmagem. Como conseguimos rodar com 50% do orçamento, a pós-produção foi muito demorada, pois tive que captar recursos para viabilizar essa etapa. Então, todo o processo de elaboração de Ouro Negro tomou cerca de dois anos e meio.

dantonmariaribeiro-entrevistaok.jpg

Judão - Como você vê o aumento de produções de filmes nacionais? E o que você acha que falta para que o cinema brasileiro possa competir (em termos de bilheteria) em pé de igualdade com os filmes que vêm de fora, principalmente as produções norte-americanas?

Isa - Realizamos cerca de 80 filmes por ano no Brasil, atualmente, graças à política de incentivos fiscais promovida pelo Governo Federal. Mesmo com todos os defeitos, as leis de incentivo democratizaram o acesso de novos realizadores ao mercado. O diretor executivo da TV Brasil e ex-secretário do Audiovisual, Orlando Senna, afirmou, recentemente, que esta nova geração de cineastas brasileiros é a mais original, criativa e talentosa de todos os tempos. De fato, há um esmero na produção e o roteiro tornou-se um ponto forte na elaboração de um filme. O cuidado do realizador com o seu filme é um fator novo. O estilo inaugurado pelo Cinema Novo, de absoluto despojamento na produção, tinha o seu charme e fez escola pois era inovador e o público estava disposto a ser desafiado pelo diretor, considerado uma espécie de néo-profeta do século XX, mas as novas gerações passaram a exigir assimilação imediata da proposta do filme, deixando pouco espaço para a subjetividade na linguagem.

Hoje, um filme só surpreende pela extrema delicadeza, posso mencionar A Via Láctea, de Lina Chamie e O Banheiro do Papa, de César Charlone, ou pela crueza e impacto extremo, como é o caso de Tropa de Elite, de José Padilha. Como já alcançamos a excelência na elaboração do filme, desde que não se exijam os efeitos especiais que caracterizam as produções hollywoodianas e aquele marketing poderoso que acompanha cada produto, além do monopólio quase absoluto das salas, temos filmes muito competentes para atrair qualquer público. Entretanto, o mercado de distribuição está cada vez mais restrito. Temos poucas salas para a dimensão do país: são cerca de 2.000 concentradas nas grandes cidades. Dos cinco mil municípios brasileiros, pelo menos 3.000 são desprovidos de salas de cinema. E no ano passado, em alguns meses, a taxa de ocupação por filmes americanos chegou ao preocupante índice de 80%, com apenas três títulos: Piratas do Caribe 3, Shrek Terceiro e Homem-Aranha 3. Por outro lado, com as facilidades oferecidas pela plataforma digital, o público anda cada vez mais escasso nas salas de todo o mundo. Assim como a música, estamos vendo os nossos filmes fluírem para a internet ou para a pirataria, sem nenhum controle. Ainda é difícil descobrir como o produtor/realizador brasileiro poderá ocupar dignamente o seu posto na cadeia produtiva.

O cinema não sobrevive sozinho. A interferência dos Governos Federal, Estadual e Municipal para a consolidação da indústria é muito importante, com a manutenção das leis de incentivo. Agora que a etapa da produção está dando certo, com a realização de, pelo menos, 80 filmes por ano, urge uma interferência reguladora na distribuição, pois uma média de 70 títulos por ano, fica nas prateleiras, sem mercado exibidor.

Judão - Você dirige uma produtora. Como é o dia-a-dia de uma produtora independente no Brasil, uma vez que o cinema é uma arte bem cara de se produzir? Como funciona a captação de recursos? É fácil conseguir investimentos público e privado? Se há dificuldades, quais são os principais entraves e o que você acha que poderia ser feito para mudar a visão dos empresários no sentido de investirem mais no cinema nacional?

Isa - A produção cinematográfica gera múltiplos problemas que precisam ser resolvidos todos os dias. Até hoje recebo comunicados da Ancine sobre o Histórias do Olhar que tenho de resolver rapidamente. O filme está pronto, lançado, prestação de contas aprovada, o Condecine pago e me exigem sempre novos documentos, novos relatórios, etc. Ouro Negro é o projeto em curso, preciso lançar o filme, fazer prestação de contas e isso me exige uma atividade constante e diária, pois estou também acompanhando, pessoalmente, toda a finalização. Um mar de burocracia precisa ser atravessado todos os dias. Estou empenhada, agora, na distribuição de Ouro Negro. Tive algumas distribuidoras interessadas e acabei optando pela proposta da Pandora Filmes, que poderá desenvolver um lançamento diferenciado para o meu filme.

Realizo um festival de cinema ibero-americano no Brasil e na Europa, anteriormente chamado Festival de Cinema Hispano Brasileiro e agora intitulado Ibero Brasil Cine Festival, que já está em sua quinta edição. Temos um intercâmbio com o festival Premis Tirant, da Espanha que acaba de homenagear o ator Paulo Betti e premiar os longas: Histórias de Trancoso, do diretor paulista Augusto Sevá, e Hércules 56, do diretor carioca Sílvio Da Rin, além do curta de animação cearense Vida Maria, de Márcio Ramos. O festival está se transformando em uma janela muito ativa para o cinema brasileiro no exterior. Mantenho na produtora uma ilha de finalização em Final Cut na qual acabamos de montar um making of de Ouro Negro e agora vamos desenvolver o trailer. A equipe agora está reduzida a uma assistente e um editor.

A burocracia gerada pela produção cinematográfica é muito grande e dá muito trabalho manter todos os impostos e contas em dia, bem como desenvolver novos projetos. Além do festival que exige uma rotina de escola de samba: mal termina um já é preciso começar o próximo, estou projetando um longa metragem de animação intitulado O Tourinho Encantado e um longa de ficção sobre o período da Ditadura Militar.

Os recursos para financiamento à produção são sempre raros. Atualmente os recursos oriundos da Lei Rouanet para a cultura estão cada vez mais concentrados em produções maiores e não necessariamente no cinema: grandes shows, como os de Ivete Sangalo, circos internacionais com o Cirque du Soleil, além das fundações criadas pelas grandes empresas estão concentrando os recursos da Rouanet. Os projetos independentes estão tendo grandes dificuldades de captação enquanto o business consolidado toma conta das leis de incentivo. Alguma coisa está errada e o Ministério da Cultura precisa intervir.

dantonentrevista-ok.jpg

Judão - Qual a sua visão do panorama atual do cinema nacional? Cite alguns nomes que você acha que devemos prestar uma atenção especial (seja ator, diretor, produtor, roteirista etc.).

Isa - Um diretor precisa ter bagagem de vida. Surpreendeu-me a sensibilidade com que o braso-uruguaio César Charlone, um fotógrafo cinquentão, conduziu o seu primeiro filme, O Banheiro do Papa. Nem sempre grandes diretores de fotografia como ele, dão bons roteiristas e diretores. Eduardo Belmonte, de Brasília, tem uma marca autoral muito forte, assim como Lina Chamie, que transita mais pela poética da linguagem. Marcos Prado, diretor de Estamira, surpreende pelo compromisso social que assume ao abordar um tema ou uma personagem. De todos, os mais jovens talentos são Heitor Dhalia, com o seu olhar ferino para as relações sociais e Eduardo Gomes. Em geral, prefiro os diretores autorais. Entre os produtores, destaco o Fabiano Gullane, de São Paulo, que tem um trabalho independente e dialoga com todos os CEOs do audiovisual. Um grande produtor de conteúdo que vem realizando até quatro longas por ano.

Na última edição do nosso festival, homenageamos o veterano Ruy Guerra, diretor moçambicano que faz uma brilhante carreira no Brasil. Tivemos o prazer de exibir os filmes Ópera do Malandro e Veneno da Madrugada, na última edição do Festival de Cinema Hispano Brasileiro. Seus filmes são verdadeiras lições de direção e estão se deteriorando com o tempo. É preciso uma ação urgente dos organismos de cultura para preservar a obra deste grande diretor. Entre os atores, destaco Alice Braga e Danton Mello. Cada um com seu estilo, tem muita densidade dramática. Prestem atenção também na Luísa Curvo e no Thiago Fragoso, do elenco de Ouro Negro, que são atores de muitos recursos.

thiago-fragoso-entrevistaok.jpg

Judão - Na última década o nosso cinema abriu o leque, diversificando bastante os temas das produções. Qual (is) filme (s) você acha que é um marco do nosso cinema na década de 2000?

Isa - Posso mencionar Tropa de Elite, do José Padilha, e Cidade de Deus, do Fernando Meirelles, pela capacidade de movimentar público com filmes bem elaborados sobre a difícil questão social brasileira. Admiro muito o trabalho de Walter Salles com dois grandes filmes: Central do Brasil e Diários de Motocicleta.
O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, e Cidade Baixa, de Sérgio Machado, também devem ser mencionados entre os títulos significativos desta década, pela originalidade das personagens. A diversidade da cultura brasileira está sendo vislumbrada, por esta nova geração de diretores que não teme em investigar a complexa e precária sociedade em que vivemos.

Judão - Você foi a responsável por trazer ao Brasil as duas últimas edições do Festival de Cinema Hispano-Brasileiro, sendo que antes ele acontecia na cidade espanhola de Valência. Como surgiu essa idéia? Você teve algum receio de que essa empreitada não emplacasse, uma vez que boa parte do público brasileiro, quando conhece cinema espanhol mal sabe nomes como Pedro Almodóvar, Antonio Banderas e Penélope Cruz? Qual foi o feedback do festival? Há planos de realização de uma 5ª edição do evento em 2008?

Isa - Eu sou diretora e fundadora do Festival de Cinema Hispano Brasileiro que, desde o ano passado, está ampliando o enfoque para toda a cinematografia iberoamericana. A idéia do festival começou a ser concebida em 2003, quando o meu filme Histórias do Olhar foi premiado em Valência, Espanha, no Festival Premmis Tirant, através de um protocolo firmado entre a Íris Cinematográfica, o Premmis Tirant e o Festival Guarnicê do Maranhão. Como proponente do projeto, fui alinhavando acordos e apoio para viabilizar essa cabeça de negócios pioneira entre Brasil e Espanha.

Iniciamos o intercâmbio levando 5 longas e cinco curtas e trazendo uma mostra dos filmes espanhóis ao Brasil com o apoio do Guarnicê, em 2004, e do Festival do Recife, em 2005. Nestes primeiros dois anos, premiamos em Valência os filmes Amarelo Manga, de Cláudio Assis, e o Homem que Copiava, de Jorge Furtado. Em 2006 realizamos a primeira edição independente no Rio, com o apoio da Cinemateca do MAM, do Ministério da Cultura, da Ancine e da Agência de Cooperação Espanhola. Ainda com foco na Espanha, homenageamos o diretor espanhol Fernando Trueba, exibindo O Milagre do Candial e Sedução, com a presença do diretor. Da mostra competitiva, foram premiados os filmes Proibido Proibir, de Jorge Duran e La Casa de mi Abuella. Em 2007 fizemos quatro projeções por dia no Odeon da qual saíram vencedores o braso-uruguaio O Banheiro do Papa, de César Charlone, e o brasileiro A Via Láctea, de Lina Chamie. O espanhol Las Alas de la Vida, de Toni Cannet, foi contemplado com menção especial do Júri.

Este ano renovamos nossa participação nos Tirant com 5 longas e cinco curtas e estamos apoiando o desenvolvimento de um plano de trabalho institucional entre Espanha e Brasil. Agora que ampliamos a abrangência do Festival, tornando-o ibero-americano, multiplicamos as oportunidades de negócios entre produtores e diretores das diversas nações envolvidas. Nosso foco é sobre novos realizadores. Os consagrados já garantiram o seu espaço no mercado. A próxima edição já está marcada para 27 de novembro a 02 de dezembro, no Cine Odeon. Tenho confiança nos projetos que desenvolvo porque são sérios e muito consistentes. Tenho vencido todas as dificuldades desta carreira e estou feliz com as minhas realizações.

uv