|
Até agora este blog esteve substancialmente voltado para cinema, mas a idéia dele, que inclusive está no nome, é abraçar a cena brasileira como um todo, dando espaço também para a música, teatro, literatura etc. Hoje, levada pelo momento televisivo, decidi publicar uma resenha literária de um excelente livro que já li e reli e que acho pertinente publicar a respeito. Isso porque hoje começa a novela Ciranda de Pedra, baseada no excelente romance homônimo de Lygia Fagundes Telles. O livro já foi adaptado antes para televisão, e virou novela das seis, no ano de 1981, quando alcançou grande sucesso e até hoje é considerada como uma das melhores adaptações de romances nacionais já feitas para televisão. A novela que estréia hoje, infelizmente, não é um remake da primeira e sim uma nova versão, uma adaptação totalmente diferente do mesmo livro. Porém, pelo que pude notar nas chamadas, parece que a trama vai ser totalmente diferente do livro - a começar pela protagonista que é uma criança na primeira metade do livro e uma mulher na segunda (já que passou a adolescência num colégio interno e não acompanhamos essa fase). As chamadas mostraram uma menina em fim da adolescência, com mãe e pai, tudo bem diferente de como a trama se desenvolve no romance de Lygia Fagundes Telles. O livro Ciranda de Pedra foi publicado em 1954, e é o romance de estréia de Lygia Fagundes Telles, e tem um enredo extremamente moderno, contemporâneo e acredito eu, que tenha causado muita polêmica na época em que foi publicado, já que escancara coisas que geralmente as famílias tentam esconder, ainda mais se tratando de uma família rica, tradicional. Todo enredo foca-se em Virgínia, uma criança solitária, isolada pelas irmãs e vizinhos, e que, por conta disso, segue vivendo em seu mundo imaginário. A trama é dividida em duas partes, e assim acompanhamos todo o doloroso trajeto da vida de Virgínia, desde a infância até o início de sua idade adulta. Basicamente, a menina é filha de um casal separado, Laura e Natércio. Por conta da separação, a menina, que é a filha mais nova vai viver com a mãe e precisa aprender a conviver com essa “divisão” de mundos e de emoções, já que vive com a mãe, mas faz freqüentes visitas à casa do pai, onde também vivem suas duas irmãs mais velhas, Bruna e Otávia. Natércio, o pai é um tradicional advogado, muito rígido com as filhas e seco. Por conta disso tudo, a infância da menina é repleta de tristeza e solidão. Após se separar, a mãe, Laura, que está doente, vai viver com Daniel, que já era seu médico, muito antes de ela se separar e leva junto a filha mais nova. E apesar de todos os cuidados tomados por Daniel, Laura está enlouquecendo cada vez mais e seu estado físico se deteriora juntamente com o mental. Até que a mãe acaba morrendo e Virgínia volta a morar na casa do pai, junto com suas irmãs, fato que a deixa feliz a princípio, até perceper que tanto o pai, quanto as irmãs, continuam tratando-a com indiferença. E pra completar o quadro, desde muito criancinha, Virgínia é apaixonada pelo vizinho de seu pai, Conrado, que por sua vez, segundo a própria menina, é apaixonado por sua irmã Otávia.
A primeira etapa termina com a menina indo para o colégio interno e a segunda começa com Virgínia, já uma mulher, saindo do colégio e voltando pra casa, onde passa a ser, definitivamente, notada por todos, e disputada pelos homens, e até por mulheres. A menininha que antes era o patinho feio e desajeitado, desabrochou e virou um lindo cisne e atrai todos os olhares e atenções. Nessa etapa, muitas máscaras são derrubadas e inúmeras verdades começam a vir a tona. Um enredo que trata de adultério, homossexualidade, além de tantos outros conflitos que existem em todas as épocas e em qualquer classe social, mas que geralmente acontece por debaixo dos panos e muitos nem tomam consciência (ou fingem que não tomam). Um livro excelente, denso e ao mesmo tempo leve, muito bem construído e amarrado e que, de olhos fechados, Cena Brasilis RECOMENDA. Só a título de constância, na novela global a atriz Tammy Di Calafiori interpretará Virgínia, enquanto os outros personagens do núcleo principal serão encarados por Ana Paula Arósio (Laura), Daniel Dantas (Natércio), Marcello Antony (Daniel), Ariela Massoti (Otávia), Anna Sophia Folch (Bruna), Max Fercondini (Conrado), Ana Beatriz Nogueira (Frau Herta), Caio Blat (Afonso) e Paola Oliveira (Letícia).
Um filme que tem um bom texto, adaptado de uma já consagrada peça de teatro, com um diretor mais do que tarimbado e com quatro excelentes atrizes nos papéis principais tinha o que pra dar errado? Nada… Pois é, e esse é o caso de A Partilha. Adaptado da peça homônima, escrita por Miguel Falabella, o filme é dirigido por Daniel Filho, que voltou a assumir o papel que não ocupava desde 1983, quando dirigiu O Cangaceiro Trapalhão. Ele assistiu a A Partilha logo em uma de suas primeiras apresentações ao público em 1991, e se apaixonou pela peça. Tanto que comprou os direitos de adaptação para o cinema da peça já nessa época. O elenco original da peça era composto por Suzana Vieira, Thereza Piffer, Natália do Valle e Arlete Salles. A Partilha conta a história de quatro irmãs, centradas num acontecimento que as une, apesar de todas as diferenças: o enterro da mãe. Além do luto daquele momento, Selma (Glória Pires), Regina (Andréa Beltrão), Laura (Paloma Duarte) e Lúcia (Lílian Cabral), precisam resolver os assuntos burocráticos que envolvem a morte da mãe, entre eles, a partilha dos bens, mais especificamente, a venda do apartamento em que a mãe vivia em Copacabana. A partir disso as irmãs se vêem forçadas a um convívio, que traz à tona as diferenças de personalidade e as desavenças do passado. Selma é uma dona de casa, casada com um militar (Herson Capri - que está impagável nesse papel), vive uma vida digna de soldado raso, acatando todas as ordens e manias do marido. Já Regina é a irmã liberada, exotérica, meio hippie, divorciada, curte cada dia de cada vez. Lúcia é a irmã mais velha que teve coragem de romper com o marido (Denis Carvalho) e abandonar o filho (Thiago Fragoso), para ir pra Paris disposta a viver o grande amor da sua vida. Em contraponto, Laura é a intelectual da família. Séria, sisuda e disposta a romper os tabus e preconceitos da sociedade e de suas irmãs. Com essa convivência, apesar de todas as brigas e discussões, elas conseguem se lembrar de todos os bons momentos que passaram juntas, e unidas pelos laços da fraternidade enfrentam as situações se divertindo muito e brigando sempre. Embora as quatro principais estejam primorosas, Andréa Beltrão está incrível no seu papel de irmã-porra louca e Paloma Duarte também está bárbara como Laura, sutil, delicada, conseguiu fugir de todos os estereótipos que poderiam cercar a personagem. Para completar esse brilhante quadro, os atores e personagens incumbidos de compor o pano de fundo da trama também estão primorosos, dando um molho muito especial ao roteiro - originalmente com apenas quatro personagens presentes. Esse filme se mostrou uma ótima adaptação de um texto que sempre foi bom, antes mesmo de começarem a mexer nele. Como tempero, o longa conta com uma trilha sonora deliciosa que faz você querer comprar o CD do filme assim que termina de assistir (ou, para os menos politicamente corretos, baixar as músicas… É que eu sou daquelas pessoas românticas, que fazem a alegria das gravadoras e continua comprando CDs. =D). A química entre as quatro é maravilhosa. As atrizes entraram num tamanho nível de entrosamento que foi um chororô só quando acabaram as filmagens, que, por sinal foram concluídas em apenas cinco semanas, entre os meses de novembro e dezembro de 2000. O filme conta com cenas memoráveis, como a clássica, em que as quatro estão na praia e dançam Dancing Days. Outra cena inesquecível é quando as três irmãs fazem rodízio no telefone para xingar o cunhado Luiz Fernando, que está histérico - é maravilhoso. A Selma de porre, etiquetando tudo pela casa também é bárbaro. E um detalhe, que pode até passar batido para a maioria, mas que me faz rir toda vez que vejo, é quando a filha da Selma (Fernanda Rodrigues) conta pra mãe que não se chama mais Simone, e que seu novo nome é Shanandra Poranga [dois estalinhos de dedo, intercalando as mãos, que depois se unim em posição de prece] - e toda a vez que seu nome é citado, vem acompanhado desse gestual - muito cômico. Mas, pra mim, a cena mais sensível do filme é a do final. Linda, linda, linda! É surpreendente, totalmente diferente de qualquer fecho já dado a um filme, ainda mais se tratando de uma comédia. Tocante, muito bem pensado e amarrado, mostra as quatro irmãs quando pequenas, num filme feito pelo pai delas. Porém, o áudio reproduz a voz das quatro já adultas, como se estivessem lendo uma carta contando suas vidas para as outras três. É brilhante! Toda vez que vejo essa cena me desmancho em lágrimas. ^^ CENA BRASILIS RECOMENDA esse filme, e, falando por mim, que já assisti várias vezes (no cinema, em VHS, na TV, comprei o DVD) e ainda pretendo ver várias outras. Indicações e Premiações- Recebeu duas indicações ao Grande Prêmio BR de Cinema, na categoria de Melhor Atriz - para Andréa Beltrão e Glória Pires. - Prêmio de Melhor Roteiro do Festival de Cinema Brasileiro de Miami 2002. - Prêmio da Audiência do Festival de Cinema Brasileiro de Miami 2002.
|
|
|||
| © 2008, Judão, Tayra Vasconcelos. Alguns direitos reservados | ||||