|
Sou uma verdadeira amante daquilo que é produzido aqui no Brasil, musical, literária e cinematograficamente falando. Até porque, se eu não gostasse, não teria um blog como esse. Há cerca de um ano, quando assisti a O Cheiro do Ralo, sai da sala de cinema quase sem ar devido a originalidade e densidade do filme. Primeira coisa que pensei: não me restam dúvidas, o Selton Mello é mesmo foda, seja lá o que tiver pela frente, ele manda muito bem… Segunda coisa que me passou pela cabeça: acho que definitivamente, a produção nacional abriu os olhos e resolveu parar de produzir filmes só sobre a probreza e a violência, ambos com uma boa carga de glamorização. Haja visto Central do Brasil, Carandiru e Cidade de Deus — excelentes filmes, mas todos com esse mesmo tipo de apelo. Ou então com alguma ligação com literatura nordestina, caso de O Auto da Compadecida e similares, ou mesmo as comédias-românticas “globo-filmes”. Parece que uma abertura de leque definitivamente estava se impondo. A primeira vez que senti isso, de verdade, foi em Ãrido Movie, também estrelado por Selton Mello, onde abriu-se um novo caminho e vimos um filme que nada tem a ver com esse lance de “ode à pobreza e à violência”. E com O Cheiro do Ralo é a mesma coisa. É impossÃvel não perceber a crÃtica moral e social que há nessa trama, mas de uma maneira muito diferente de tudo que já se viu. Partimos de Lourenço (Selton Mello), um homem infeliz, amargo, solitário, ressentido, que é dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele vai desenvolvendo um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Os preços são sempre negociados muito mais pelo juÃzo de valor de Lourenço, do que pelo que o objeto em si vale. Em tempo, Lourenço é o único personagem do filme que tem nome próprio, ele se refere a todos por substantivos comuns, o que mostra a indiferença que sente pelos outros. A partir de então ele passa a ver as pessoas como se estivessem a venda e achar que cada uma delas tem um preço. Esse é, de longe, o personagem mais maduro e complexo que Selton Mello já interpretou em toda a sua carreira e, como já era de se esperar, se saiu muito bem nessa empreitada. No começo ele se incomoda muito com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe no banheiro de seu escritório, e mais ainda com o fato de as pessoas pensarem que o odor vinha dele, o que lhe levava a explicar a todos que o cheiro era do encanamento. Depois de um de seus clientes dizer que o cheiro, na verdade, vinha dele, uma vez que apenas ele usava aquele banheiro e que toda a merda contida ali vinha de dentro dele, pouco a pouco, Lourenço passa a ter uma relação diferente com aquele odor, que acaba tornando-se um vÃcio, do qual ele não consegue mais viver sem e a partir do qual ele passa a conduzir toda a sua vida, e onde faz questão de estar nos seus últimos instantes. Com um elenco numeroso e de peso, seria difÃcil um projeto desses não dar certo. O filme conta com nomes como Flávio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Fabiana Guglielmetti, André Frateschi (que fazia o namoradinho corno da Grazi na novela), Silvia Lourenço, Paula Braun, Martha Neola, Milhem Cortaz, Suzana Alves, a voz do Paulo César Peréio, além do Tobias da Vai-Vai e do próprio autor do livro, Lourenço Mutarelli e por aà vai. Todos eles encararam esse projeto sem nenhum tipo de retorno financeiro, e a princÃpio trabalharam de graça, já que o filme teve um orçamento de pÃfios R$300.000 (orçado originalmente em R$ 2,5 milhões, acabou sendo rodado com apenas R$ 315 mil, reunidos entre sócios privados e produtores executivos). Eles receberiam alguma coisa de acordo com o desempenho do longa nos cinemas. E de cara já tenho que tirar meu chapéu, pois essa foi uma tacada de mestre do diretor, Heitor Dhalia, que conseguiu unir um bom roteiro com um excelente elenco e a partir disso trazer uma reflexão sobre como a lógica do capitalismo (que nos faz escravos do dinheiro) acaba por nos transformar em pessoas frias e gananciosas. O legal é que, embora seja uma crÃtica social, o filme também é uma comédia repleta de humor-negro e de tudo aquilo que nós consideramos politicamente incorreto. E por tudo isso não restam nem dúvidas… É claro que CENA BRASILIS RECOMENDA!, e muito. Pode assistir com gosto, porque você não vai se arrepender. Prêmios e Indicações- Prêmio de Melhor Filme - longa-metragem de ficção (júri popular) - Festival do Rio 2006
|
|
||
| © 2008, Judão, Tayra Vasconcelos. Alguns direitos reservados | |||