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Como hoje o filme vai ser exibido no Festival Nacional na Globo, às 22h55, achei que valia a pena trazer a resenha pra vocês darem uma conferida. Leiam, assistam e divirtam-se (ou não!). =D A história de A Grande Família - O Filme carrega para as telonas todos os elementos que quem assiste ao seriado já deve estar careca de conhecer. Porém, eles conseguiram passear por algo mais profundo de uma maneira bem interessante. E isso foi feito destrinchando a história em três partes, que na verdade são três histórias diferentes, mas todas com um mesmo pano de fundo. O filme todo gira basicamente em torno de Lineu (Marco Nanini), que começa a entrar em parafuso depois de ir ao enterro de um colega de repartição. Ao se sentindo mal, por influência de Mendonça (Tonico Pereira) ele resolve ir a um médico, e é aí que começa toda a piração.
O médico suspeita que ele possa ter uma doença grave e pede que ele faça alguns exames para confirmar a situação. Com o resultado em mãos, Lineu decide que prefere ficar na dúvida e resolve não abrir o envelope e como não sabe muito bem lidar com essa suposta doença, num dado momento ele começa a imaginar como seria a vida de sua família sem ele. Aí ele surta ao constatar que ele é o verdadeiro arrimo de todos, pois a filha é casada com um malandro, o filho é um vagabundo e a mulher é dona-de-casa. Não dá pra dar uma sinopse muito detalhada porque senão eu conto o filme, que é costurado através da morte do Lineu, e de como seria a vida dele(s) se ele tivesse um caráter totalmente diferente.
As três histórias têm esse mesmo ponto de partida, o que para alguns pode até parecer repetitivo num determinado momento, mas eu achei que se encaixava bem. A maneira de “rebobina tudo e começa de novo” de contar o filme pede essa repetição, além do que, é legal ver como os atores se desempenharam bem ao fazer diálogos quase iguais para uma situação totalmente diferente e que, à s vezes, até pedia uma emoção muito distinta da utilizada anteriormente. Elementos já conhecidos de quem acompanha o seriado, como o rolo entre Tuco (Lúcio Mauro Filho) e Marilda (Andréa Beltrão), as pilantragens de Agostinho (Pedro Cardoso), a paranóia da Bebel (Guta Stresser) em engravidar, as armações de Mendonça e por aí vai, também estão no filme. E dois personagens novos aparecem, dando um toque extra de cenas cômicas ao filme: Carlinhos (Paulo Betti), que é um ex-quase-namorado de Nenê (Marieta Severo) e Marina (Dira Paes), suposta amante de Lineu. E vemos também como tudo começou entre Lineu e Nenê, num bailinho em 1967. Lembrando que o personagem de Paulo Betti já apareceu no seriado também, mas tinha um outro nome.
Não há como se decepcionar com a atuação, nem com a direção, uma vez que todos trabalham juntos há quase sete anos, e tá mais do que provado que essa parceria dá super certo. O meu medo, que acabou se concretizando, era como eles conseguiriam produzir o filme em cima de algo que é tão conhecido do público, de uma maneira que não soasse repetitiva. Porque é muito complicado lidar com personagens tão conhecidos por todos e ainda assim trazer algo novo. A história é diferente, alguns temas conseguiram ser mais aprofundados (algo impossível num programa semanal de meia-hora), mas ainda assim muitos conflitos existentes ali já estão batidos. Mas não é isso que faz desse um filme ruim, é apenas uma constatação. Enfim, Cena Brasilis até que RECOMENDA! sim, seja você um autêntico fã do seriado ou se apenas quiser dar algumas boas risadas. Pode passar em algum cinema, que não vai ter decepção não.
Embora já tenha ficado um pouco batido fazer filmes sobre ditadura militar, é fato que ainda há muito pra se falar sobre esse período da nossa história. E o pior é que, infelizmente, pelo fato de as pessoas já terem visto alguns longas ou peças com essa temática, acreditam que dominam o assunto. Porém, a verdade é que ainda se sabe muito pouco do que aconteceu no Brasil nos 21 anos que estivemos sob o regime militar, e que há muita coisa a ser esclarecida e debatida para que a verdade esteja ao alcance de todos os brasileiros. Mas a temática, usada à exaustão, e com pouca variedade de temas, infelizmente, acabaram saturando o público brasileiro, fazendo com que se perdesse o interesse em filmes do gênero. Porém, bem ou mal, é preciso que se fale disso, que se toque o dedo na ferida. Eu tenho um carinho muito grande por esse filme. Pra começar porque, talvez nem todos saibam, mas tenho uma vida intensamente ligada a tudo que envolva o Regime Militar que nos assolou entre 1964 e 1985. Sou filha e sobrinha de presos políticos, meu pai e meu tio foram barbaramente torturados (meu pai, por exemplo não tem mais nenhum dos dentes da parte de cima da boca - todos arrancados com alicate em sessões de tortura) e meu tio desenvolveu aos 25 anos um envelhecimento precoce. Além disso, 99% do círculo de amigos dos meus pais também foram presos políticos. Sem falar que minha mãe escapou muitas vezes da prisão porque tinha cara de menininha (aos 25 aparentava ter 16, e era presa, mas logo era liberada). Ou seja, antes de qualquer coisa, esse é um assunto que de antemão mexe demais comigo, e que eu acho que tenho um dever cívico (e emocional) de tratar com toda atenção, respeito e carinho que o tema merece. Sempre que posso arrumo um jeito de passear por esse período da nossa história, até porque, percebo que grande parte da população, principalmente quem não viveu aquela época, não consegue perceber a gravidade das coisas que aconteceram. Não consegue enxergar o quanto é cruel tirar a vida de alguém que não concorde com a sua postura, o quanto é sério você ver, ouvir e falar, sem poder expressar a sua verdadeira opinião. Muitas pessoas morreram, várias outras sumiram e até hoje não se sabe do corpo, isso sem falar na quantidade de heróis desconhecidos, que foram cruelmente torturados e levam uma vida “normal” e que muitos nem sabem das seqüelas e feridas que eles carregam consigo. Por isso sou sempre a primeira a me levantar e aplaudir iniciativas como essa. Zuzu Angel conta a história da estilista brasileira homônina, que se engajou numa luta intensa contra os militares para descobrir o paradeiro do corpo de seu filho, sabidamente assassinado nos porões da ditadura. A partir daí, passa a ser vista como uma grande inimiga do regime e começa a ser perseguida, ameaçada, até que, enfim, acaba sendo morta - e só assim coloca-se um fim nessa luta insistente de uma mãe. Stuart Angel, filho de Zuzu, era um conhecido do meu pai, e militou na mesma organização que ele (o MR-8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro - uma alusão à data de morte de Che Guevara), e em muitos pontos a história dos dois se mesclam. Até porque, em Salvador (cidade natal do meu pai), muitos pensaram que ele tinha sido morto pela ditadura (porque em 1976 ele veio pra São Paulo e nunca mais voltou pra lá). Por conta disso e criaram todo um enredo para explicar essa morte (e conseqüente sumiço do corpo) do meu pai, e esta história, é na verdade a de Stuart Angel. Acabaram confundindo os dois, por terem a mesma idade, terem sido da mesma organização e ambos terem sido presos pela ditadura. Tanto é que essa confusão toda fez com que meu pai virasse nome do Grêmio Estudantil da Escola Técnica Federal da Bahia, ainda que tenhamos ido explicar que ele está vivinho da Silva. Mas vamos ao filme, porque vocês vieram aqui pra isso, não é mesmo. Apesar de a gama de personagens desse filme ser enorme, o diretor Sérgio Rezende preferiu focar o longa em cima de dois personagens: Stuart (Daniel de Oliveira) e Zuzu (Patrícia Pillar), permeados por muitos e muitos outros e isso acaba dando a impressão de que muitos personages são pouco explorados. Mas eu entendo essa opção, ele optou centrar em dois personagens e se aprofundar na história de ambos do que passar superficialmente por todos. O elenco é de primeira e é permeado de atuações sensacionais. Mas, também com um time que começa com Daniel de Oliveira (sempre bárbaro e camaleão. Está impressionantemente igual - fisicamente - ao Stuart), Patrícia Pillar (que também está incrível), Leandra Leal (que se mostra, sem sombra de dúvida, como a melhor atriz dessa nova geração), Luana Piovani (que apesar de bem mala, tem também muito talento), Ângela Vieira, Alexandre Borges, Nelson Dantas (fenomenal, mesmo só falando duas palavras - lembrando que esse foi o último papel dele), Ângela Leal, Antônio Pitanga, Othon Bastos, Flávio Bauraqui, Caio Junqueira, entre tantos outros, só podia ter um ótimo resultado. O enredo é tenso, principalmente pra quem, como eu, tem um certo envolvimento com a história. Além disso, eu gosto muito de filmes que não são totalmente lineares, e esse filme é assim, permeados de flash-backs, que ajudam o público a entender com clareza a dor de Zuzu, e sofrer junto com ela. É impossível assistir a esse filme e não sentir nada. Outro ponto importante a ser ressaltado, é que de todos os filmes que vi sobre esse período, esse é um dos mais fiéis à crueldade das torturas que os militantes de esquerda sofriam, e é um dos que consegue passar com mais clareza todo o horror pelo qual passaram muitos dos jovens daquele período e seus familiares. Enfim, Cena Brasilis RECOMENDA, ainda mais se você for uma dessas pessoas que gosta de assistir a um filme pra aprender um pouco mais da nossa história, e a ter uma visão mais crítica do mundo. Eu, particularmente, gostei muito, porém esse é o tipo de filme que eu já vinha com uma impressão positiva prévia. Mas pra quem curte ver filmes apenas pra se divertir, passe longe…
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