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Taà um filme que deve deixar os adoradores do cinema nacional felizes. Não é sempre que se consegue reunir essa quantidade de atores tão bons numa só produção (apesar de que isso nem sempre salva…). Porém, com Ãrido Movie, o resultado foi muito bom. Afinal de contas, a meu ver, um filme que tem em seu elenco Giulia Gam, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, José Dumont, Guilherme Weber, José Celso Martinez, Mariana Lima, Luis Carlos Vasconcelos, Renata Sorrah, Paulo César Pereio entre tantos outros, só podia dar em boa coisa, né?! A primeira vez que vi o filme, saà do cinema com um sorriso no rosto, extremamente satisfeita. É algo diferente de tudo que eu já foi feito por aqui, com uma linguagem que não se parece com nada. A maneira como o roteiro é conduzido, a metalinguagem… Muito legal! =D Basicamente, o filme conta a história de Jonas (Guilherme Weber), um jornalista que apresenta a meteorologia na TV (em rede nacional) em São Paulo. Ele recebe a notÃcia de que seu pai foi assassinado em Vale do Rocha, cidade onde nasceu, no interior de Pernambuco. A volta de Jonas a Rocha irá lembrar-lhe muito de quem ele é, ou poderia ter sido, embora não tivesse voltado à região desde a infância. Ãrido Movie apesar de ter uma temática que à primeira vista parece bem batida, não tem nada a ver com os filmes que costumamos ver sobre nordeste brasileiro. O longa se propõe mostrar a realidade do sertão nordestino. Vale do Rocha é uma cidadezinha que sofre com a seca e tem todos os elementos que poderemos encontrar nesse ambiente, como coronelismo, Ãndios que se queixam de serem os verdadeiros e primeiros donos daquela terra, plantadores de maconha, polÃticos conservadores, lÃderes espirituais (que no fim das contas, se mostram apenas manipuladores ligados à polÃtica) e coisas que são muito comuns na realidade brasileira, até mesmo fora do sertão. Como nada é perfeito, o longa tem dois defeitos, que não há como não citá-los. O primeiro é o sotaque: pra um filme que se passa 95% do tempo em Pernambuco, o sotaque dos atores está muito ruim. Os figurantes, por serem nativos, estão excelentes, porém os personagens principais não convencem. O Guilherme Weber pra começar, nem na China tem cara de pernambucano (por mais que eu parta de um estereótipo, se eu o trombasse na rua, nunca diria que era pernambucano). E pra quem morou no Recife até o fim da faculdade e depois se mudou pra São Paulo, é humanamente impossÃvel que ele não tivesse pelo menos um tiquinho de sotaque. A Renata Sorrah idem… Eu acho que eles deveriam ter tido um pouquinho mais de cuidado nesse quesito. Tem horas que surgem umas tiradas ótimas, mas com um puta sotaque de paulista ou carioca. O segundo ponto é o final “aéreo”. Não é conclusivo (ainda que seja… Se é que vocês me entendem!), é mais um daqueles filmes que você sai na base do “acho que foi isso que aconteceu”. Mas tudo bem, todo o resto compensa muito. Uma coisa que me chamou muito a atenção é que este é um filme de drama, porém, com várias piadinhas colocadas sutilmente no roteiro. É impossÃvel não rir com o pregador que toma o ônibus junto com o Jonas, ou com a Ãndia falando “xalxicha”, o morto fedendo e várias outras tiradas. Isso sem falar no trio de maconheiros formado por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão. Teve umas duas cenas que eles se cascam de rir, e que, com certeza, não tava no roteiro, foi uma gargalha espontânea, deliciosa e convidativa. Eles fazendo Tai Chi Chuan na plantação de maconha é soberbo. E é desnecessário falar que o Selton Mello rouba a cena. [PAUSA] Só pra constar, eu sempre tive tara por homem magrelo (e continuo tendo). Magrelo e bem alto é o que há. Até que fui casar com o Borbs, o gordo mais lindo desse mundo (momento ÓUN!). O Selton Mello, nesse filme, que sempre teve uma froxidão única, teve de engordar muuuuito pra fazer esse personagem (ou será que foi uma fase hormonalmente não muito privilegiada?!). Ele tá uma bolinha, a cara gorda, uma pança digna de deixar o Borbs com inveja. Mas não é que ele ficou ainda mais froxo do que ele já era?! Ele tá delicioso… E eu estou descobrindo que gordinhos, além do Borbs, também são assazes (oi, Froio!). =D Têm tantas coisas que eu achei foda… São coisas sutis, mas que fazem o filme ser genial. O personagem Zé Elétrico (José Dumont) é o tÃpico exemplo de sabedoria popular, um homem que quase não teve estudo, mas que é inteligente e observador, e tem uma percepção de mundo sensacional. O filme é ótimo, sensÃvel e ao mesmo tempo muito profundo e direto. Mostra todo o choque cultural de um homem que nasceu no interiorzão de Pernambuco, mudou-se pequeno pra capital e lá fica até concluir a faculdade, mudando-se depois pra São Paulo. E como ele se torna um estranho dentro do universo ao qual sua famÃlia e sua história pertencem, o quanto aquilo é e não é parte da sua história. E é legal porque isso faz parte da realidade de muita gente, já que não são poucos os nordestinos que mudam pra São Paulo ou pro Rio, pra se arranjar na vida, trazendo filhos pequenos que, quando voltam para aquele mundo, não têm nada a ver com nada daquilo. Nem mesmo fazem parte dele. Em resumo, o filme é uma excelente pedida e é claro que Cena Brasilis RECOMENDA. Alugue, compre o DVD, fique de olho na programação do Canal Brasil, mas não deixe de conferir.
Sou uma verdadeira amante daquilo que é produzido aqui no Brasil, musical, literária e cinematograficamente falando. Até porque, se eu não gostasse, não teria um blog como esse. Há cerca de um ano, quando assisti a O Cheiro do Ralo, sai da sala de cinema quase sem ar devido a originalidade e densidade do filme. Primeira coisa que pensei: não me restam dúvidas, o Selton Mello é mesmo foda, seja lá o que tiver pela frente, ele manda muito bem… Segunda coisa que me passou pela cabeça: acho que definitivamente, a produção nacional abriu os olhos e resolveu parar de produzir filmes só sobre a probreza e a violência, ambos com uma boa carga de glamorização. Haja visto Central do Brasil, Carandiru e Cidade de Deus — excelentes filmes, mas todos com esse mesmo tipo de apelo. Ou então com alguma ligação com literatura nordestina, caso de O Auto da Compadecida e similares, ou mesmo as comédias-românticas “globo-filmes”. Parece que uma abertura de leque definitivamente estava se impondo. A primeira vez que senti isso, de verdade, foi em Ãrido Movie, também estrelado por Selton Mello, onde abriu-se um novo caminho e vimos um filme que nada tem a ver com esse lance de “ode à pobreza e à violência”. E com O Cheiro do Ralo é a mesma coisa. É impossÃvel não perceber a crÃtica moral e social que há nessa trama, mas de uma maneira muito diferente de tudo que já se viu. Partimos de Lourenço (Selton Mello), um homem infeliz, amargo, solitário, ressentido, que é dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele vai desenvolvendo um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Os preços são sempre negociados muito mais pelo juÃzo de valor de Lourenço, do que pelo que o objeto em si vale. Em tempo, Lourenço é o único personagem do filme que tem nome próprio, ele se refere a todos por substantivos comuns, o que mostra a indiferença que sente pelos outros. A partir de então ele passa a ver as pessoas como se estivessem a venda e achar que cada uma delas tem um preço. Esse é, de longe, o personagem mais maduro e complexo que Selton Mello já interpretou em toda a sua carreira e, como já era de se esperar, se saiu muito bem nessa empreitada. No começo ele se incomoda muito com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe no banheiro de seu escritório, e mais ainda com o fato de as pessoas pensarem que o odor vinha dele, o que lhe levava a explicar a todos que o cheiro era do encanamento. Depois de um de seus clientes dizer que o cheiro, na verdade, vinha dele, uma vez que apenas ele usava aquele banheiro e que toda a merda contida ali vinha de dentro dele, pouco a pouco, Lourenço passa a ter uma relação diferente com aquele odor, que acaba tornando-se um vÃcio, do qual ele não consegue mais viver sem e a partir do qual ele passa a conduzir toda a sua vida, e onde faz questão de estar nos seus últimos instantes. Com um elenco numeroso e de peso, seria difÃcil um projeto desses não dar certo. O filme conta com nomes como Flávio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Fabiana Guglielmetti, André Frateschi (que fazia o namoradinho corno da Grazi na novela), Silvia Lourenço, Paula Braun, Martha Neola, Milhem Cortaz, Suzana Alves, a voz do Paulo César Peréio, além do Tobias da Vai-Vai e do próprio autor do livro, Lourenço Mutarelli e por aà vai. Todos eles encararam esse projeto sem nenhum tipo de retorno financeiro, e a princÃpio trabalharam de graça, já que o filme teve um orçamento de pÃfios R$300.000 (orçado originalmente em R$ 2,5 milhões, acabou sendo rodado com apenas R$ 315 mil, reunidos entre sócios privados e produtores executivos). Eles receberiam alguma coisa de acordo com o desempenho do longa nos cinemas. E de cara já tenho que tirar meu chapéu, pois essa foi uma tacada de mestre do diretor, Heitor Dhalia, que conseguiu unir um bom roteiro com um excelente elenco e a partir disso trazer uma reflexão sobre como a lógica do capitalismo (que nos faz escravos do dinheiro) acaba por nos transformar em pessoas frias e gananciosas. O legal é que, embora seja uma crÃtica social, o filme também é uma comédia repleta de humor-negro e de tudo aquilo que nós consideramos politicamente incorreto. E por tudo isso não restam nem dúvidas… É claro que CENA BRASILIS RECOMENDA!, e muito. Pode assistir com gosto, porque você não vai se arrepender. Prêmios e Indicações- Prêmio de Melhor Filme - longa-metragem de ficção (júri popular) - Festival do Rio 2006
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